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A decisão de plantar comida há 10 mil anos custou caro para o corpo humano e agora Harvard provou que essa escolha alterou centenas de genes e deixou marcas que ainda causam doenças modernas

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 19/04/2026 às 00:22
Atualizado em 19/04/2026 às 00:24
Harvard provou na Nature que a agricultura alterou centenas de genes no corpo humano nos últimos 10 mil anos. Marcas dessas adaptações ainda causam doenças hoje.
Harvard provou na Nature que a agricultura alterou centenas de genes no corpo humano nos últimos 10 mil anos. Marcas dessas adaptações ainda causam doenças hoje.
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Estudo de Harvard publicado na Nature analisou DNA de quase 16 mil indivíduos e demonstrou que a agricultura acelerou a seleção natural no corpo humano nos últimos 10 mil anos, modificando centenas de genes ligados a infecções e dieta, com marcas que ainda provocam doenças modernas.

Ali Akbari, pesquisador da Harvard Medical School, coordenou uma investigação publicada na Nature que rastreou alterações genéticas em quase 16 mil indivíduos distribuídos por milênios de história na Eurásia Ocidental, e os resultados mostram que a seleção natural transformou centenas de posições no genoma do corpo humano desde que as populações passaram a cultivar alimentos. A descoberta contradiz a ideia de que a evolução biológica humana teria desacelerado após o surgimento da civilização: segundo os dados de Harvard, a agricultura provocou exatamente o oposto. Comunidades fixas e cada vez mais populosas, dependentes de poucos alimentos cultivados e em convivência diária com animais domésticos, enfrentaram pressões inéditas que forçaram adaptações rápidas em genes responsáveis pela absorção de nutrientes e pela defesa contra patógenos.

David Reich, professor de genética da Harvard Medical School e coautor do trabalho, afirmou que esta pesquisa, sozinha, dobra o volume de publicações existentes sobre genômica de populações antigas. Uma investigação anterior, de 2015, havia identificado apenas doze marcadores fortes de seleção, expondo as limitações dos métodos usados na época. O novo estudo da Nature conseguiu isolar a ação da seleção natural daquilo que decorre de deslocamentos populacionais e de variações aleatórias, graças a um banco de dados sem precedentes e a filtros estatísticos mais precisos. Mesmo respondendo por apenas cerca de 2% do total de variações nas frequências gênicas, essa fração atingiu centenas de regiões no genoma do corpo humano com evidência clara de pressão adaptativa.

Como a agricultura forçou o corpo humano a mudar

Harvard provou na Nature que a agricultura alterou centenas de genes no corpo humano nos últimos 10 mil anos. Marcas dessas adaptações ainda causam doenças hoje.

Antes de plantar e criar animais, os seres humanos viviam em bandos pequenos e móveis, com cardápios diversificados compostos por caça e coleta. A adoção da agricultura, há cerca de 10 mil anos, inverteu esse modelo: populações sedentárias passaram a se alimentar de um repertório estreito de grãos e tubérculos, enquanto a proximidade com bois, porcos e galinhas trouxe microrganismos aos quais o corpo humano nunca havia sido exposto. Aglomerações urbanas nascentes facilitaram a propagação de doenças respiratórias e intestinais que antes não tinham como se espalhar.

O estudo de Harvard demonstra que, após a consolidação das práticas agrícolas, a velocidade com que determinadas variantes genéticas ganhavam espaço na população cresceu progressivamente. Genes envolvidos no reconhecimento de invasores biológicos, na resposta inflamatória e na capacidade de processar novos nutrientes foram os que sofreram maior pressão de seleção. O corpo humano, portanto, não ficou parado enquanto a civilização avançava: ele se adaptou às condições que a própria humanidade criou, e a pesquisa da Nature documenta esse processo com uma precisão que nenhum trabalho anterior havia alcançado.

Os genes que mais mudaram no corpo humano por causa da agricultura

Harvard provou na Nature que a agricultura alterou centenas de genes no corpo humano nos últimos 10 mil anos. Marcas dessas adaptações ainda causam doenças hoje.

Entre os sinais mais intensos de seleção detectados pela equipe de Harvard estão genes conectados a infecção, inflamação e vigilância imunológica. Uma variante ligada à doença celíaca, por exemplo, cresceu de forma expressiva na população mesmo durante o período de expansão do cultivo de trigo, resultado aparentemente paradoxal que sugere que essa mesma variante pode ter conferido proteção contra infecções prevalentes na época, compensando o custo digestivo.

Outra mudança relevante alterou a distribuição entre tipos sanguíneos nas populações estudadas, indicando que patógenos de diferentes períodos continuaram selecionando defesas distintas ao longo de séculos. A tolerância ao leite em adultos, talvez o caso mais citado de adaptação recente no corpo humano, continuou ganhando terreno nos últimos três milênios, conforme atestam registros do período do Bronze incluídos na pesquisa da Nature. O ponto crucial é que um gene benéfico numa determinada época pode virar fator de risco quando a alimentação, os patógenos e o estilo de vida se transformam, exatamente o que aconteceu na transição para o mundo moderno.

O preço que o corpo humano paga hoje pelas adaptações de ontem

A pesquisa de Harvard revela que mais de 60% das variantes que sofreram seleção nos últimos milênios possuem conexões com indicadores de saúde e comportamento medidos atualmente. Grupos de pequenas alterações genéticas atuaram de forma coordenada, diminuindo estimativas baseadas em DNA para acúmulo de gordura e para determinados transtornos psiquiátricos, ao mesmo tempo que elevavam indicadores relacionados ao desempenho cognitivo. Os autores, porém, são enfáticos: esses rótulos refletem categorias construídas para entender a sociedade contemporânea, e a característica efetivamente selecionada no passado pode ter sido algo diferente do que hoje conseguimos nomear.

Na prática, variantes que protegiam contra infecções letais numa aldeia neolítica podem agora desequilibrar o sistema imunológico num ambiente urbano do século 21. Akbari afirmou que os instrumentos e o volume de dados genômicos antigos disponíveis hoje permitem acompanhar a ação da seleção natural sobre o corpo humano de forma direta, o que abre caminhos para que a medicina entenda por que certas variantes aparentemente nocivas na verdade carregam legados de sobrevivência. Ignorar essa dimensão histórica pode levar pesquisadores a tratar como defeito algo que já foi vantagem.

Por que a ciência levou tanto tempo para detectar essas mudanças no corpo humano

Trabalhos anteriores não conseguiam diferenciar, com segurança, os efeitos da seleção natural dos produzidos por fluxo migratório, cruzamento entre populações e oscilações estatísticas em grupos reduzidos. O resultado era uma visão fragmentada, na qual apenas meia dúzia de casos isolados de adaptação aparecia, alimentando a suposição de que o corpo humano havia parado de evoluir. O estudo publicado na Nature superou o problema ao reunir dados de quase 16 mil indivíduos e aplicar filtros capazes de converter o que parecia ruído em evidência sólida.

Mesmo com essa ampliação, os pesquisadores de Harvard estimam que a seleção natural explica somente 2% da variação genética total observada, com movimentos populacionais e acaso respondendo pelo restante. A diferença é que, num genoma com bilhões de bases, essa pequena parcela ainda atinge centenas de posições com impacto verificável sobre a biologia do corpo humano. É essa combinação de efeito individual pequeno com abrangência ampla que havia escapado aos métodos anteriores e que agora a Nature documenta de forma inédita.

O próximo passo: testar outras populações e repensar a medicina

Akbari e Reich já disponibilizaram publicamente os dados e o código, permitindo que grupos de pesquisa em Harvard e em outras instituições repliquem a análise em populações da África, Ásia e Américas. A próxima etapa será verificar se as mesmas pressões selecionaram os mesmos genes em diferentes continentes ou se cada região seguiu trajetória própria. Reich declarou que a pesquisa permite, pela primeira vez, vincular momentos e lugares concretos às forças que esculpiram o corpo humano ao longo da história.

Para a medicina, a lição publicada na Nature é direta: classificar automaticamente como erro toda variante genética aparentemente prejudicial pode ser um equívoco. Muitas dessas variantes guardam o registro de adaptações que salvaram vidas no passado, e compreender essa herança pode transformar a forma como se desenvolvem tratamentos e se avaliam riscos genéticos. O corpo humano não parou de evoluir quando a humanidade decidiu plantar, e o custo genético dessa decisão continua sendo pago, silenciosamente, por todos nós.

E você, já tinha pensado que a comida que plantamos há 10 mil anos pode ter reescrito nosso DNA? Acha que a medicina deveria considerar a história evolutiva antes de classificar um gene como defeituoso? Deixe sua opinião nos comentários.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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