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Seca extrema faz vila fantasma reaparecer no fundo de reservatório que abastece Atenas, revelando casas, escola e ruínas engolidas desde os anos 1980 enquanto o lago encolhe e expõe a crise de água que ameaça a capital da Grécia

Escrito por Ana Alice
Publicado em 21/06/2026 às 23:48
Atualizado em 21/06/2026 às 23:50
Assista o vídeoSeca no reservatório de Mornos revela ruínas da antiga vila de Kallio e expõe a pressão sobre o abastecimento de Atenas. (Imagem: Ilustrativa)
Seca no reservatório de Mornos revela ruínas da antiga vila de Kallio e expõe a pressão sobre o abastecimento de Atenas. (Imagem: Ilustrativa)
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O recuo das águas revelou marcas preservadas de uma antiga comunidade grega e trouxe de volta construções que ficaram décadas escondidas sob um dos principais reservatórios ligados ao abastecimento de Atenas.

As ruínas de Kallio, uma antiga aldeia grega submersa para dar lugar ao reservatório de Mornos, voltaram a aparecer no fundo do lago artificial que abastece Atenas.

O fenômeno, registrado com força em setembro de 2024, revelou paredes, casas e trechos de solo rachado após a queda acentuada do nível da água, associada a anos de seca, calor extremo e pouca neve no inverno na Grécia.

A imagem ganhou repercussão pelo contraste entre o uso atual do reservatório e a história da comunidade que existia no local.

O que hoje é descrito como uma vila fantasma já foi uma aldeia habitada antes de desaparecer sob as águas em 1980.

Kallio foi esvaziada de forma planejada durante a construção do sistema que formou o lago Mornos, criado para reforçar o fornecimento de água da capital grega, localizada a cerca de 200 quilômetros dali.

Embora o reaparecimento tenha ganhado repercussão internacional em 2024, o caso segue relevante porque o reservatório continua ligado à segurança hídrica da região de Atenas.

Dados compilados pelo iMEdD Lab a partir de informações da EYDAP, companhia responsável pelo abastecimento, mostram que as reservas extraíveis dos reservatórios de Atenas caíram 50% entre 1º de agosto de 2023 e 1º de agosto de 2025.

Em 2026, um período mais chuvoso trouxe algum alívio, mas os níveis ainda permanecem abaixo dos observados na década anterior.

Aldeia submersa em reservatório de Atenas

Kallio não foi engolida por uma enchente repentina nem por um acidente.

A aldeia ficou no caminho de uma obra de infraestrutura planejada para atender à demanda crescente de Atenas.

Com o enchimento do reservatório de Mornos, casas, escola, igreja e ruas foram cobertas pela água, enquanto os moradores deixaram a área.

O deslocamento passou a integrar a história das famílias que viviam ali havia décadas.

Parte dos antigos moradores seguiu para Atenas ou outros centros urbanos.

Outros permaneceram nas proximidades, em áreas mais altas, formando uma nova comunidade acima do antigo povoado.

Segundo o texto original publicado pelo Diario AS, cerca de 60 pessoas tiveram de se mudar quando a barragem foi construída.

O mesmo relato informa que aproximadamente 80 edifícios ficaram submersos, incluindo a escola primária e a igreja da aldeia.

Com a queda do nível do lago, parte desse passado voltou à superfície.

A escola de pedra, antes escondida sob o reservatório, passou a ser vista novamente.

Os muros da igreja, porém, ainda não haviam emergido no momento dos relatos originais.

Ruínas de Kallio reaparecem com a seca

O reaparecimento de Kallio levou o fundo do lago a expor registros materiais da antiga aldeia.

Restos de construções, tijolos, pedras e faixas de terra seca passaram a indicar trechos de uma comunidade que ficou submersa por décadas.

A Reuters registrou em 3 de setembro de 2024 que as casas voltavam a surgir sob o lago Mornos quase 45 anos depois de a vila desaparecer.

Esta fotografia mostra os restos de uma casa que reapareceu quando o nível do lago artificial Mornos baixou após uma seca, perto da aldeia de Lidoriki, cerca de 240 km a noroeste de Atenas, no dia 1 de setembro — Foto: ANGELOS TZORTZINIS - AFP
Esta fotografia mostra os restos de uma casa que reapareceu quando o nível do lago artificial Mornos baixou após uma seca, perto da aldeia de Lidoriki, cerca de 240 km a noroeste de Atenas, no dia 1 de setembro — Foto: ANGELOS TZORTZINIS – AFP

Na ocasião, o prefeito do município de Dorida, Dimitris Giannopoulos, resumiu a velocidade da mudança em uma frase curta: “Dia após dia, a água baixa”.

Para antigos moradores, o reaparecimento das estruturas também tem impacto emocional.

Apostolos Gerodimos, citado como representante da comunidade deslocada, definiu a situação como “uma situação de pesadelo”.

Ele afirmou ainda que, quanto mais o nível da água caía, mais construções submersas reapareciam, e alertou que a falta de chuva poderia agravar o problema.

A cena reúne memória local e preocupação ambiental em um mesmo cenário.

Ao mesmo tempo em que as construções despertam curiosidade, o recuo da água indica pressão sobre uma das principais fontes de abastecimento de Atenas.

Lago Mornos e abastecimento de Atenas

O reservatório de Mornos fica na Grécia central e integra o sistema de abastecimento da região metropolitana de Atenas.

A EYDAP informa que usa principalmente recursos de superfície vindos de Marathonas, Yliki, Mornos e Evinos.

Dentro desse conjunto, Mornos e Evinos são classificados como fontes principais, enquanto Yliki e Marathonas funcionam como fontes auxiliares.

O lago artificial foi formado pela barragem do rio Mornos.

De acordo com ficha técnica da própria EYDAP, a construção da barragem começou em 1969, o enchimento do reservatório teve início em 1979 e as obras foram concluídas em 1981.

A estrutura tem 126 metros de altura, e o reservatório possui capacidade máxima de 764 milhões de metros cúbicos de água.

A redução do volume, portanto, não se limita ao reaparecimento visual das construções.

Quando o lago encolhe, as casas antigas funcionam como um indicador concreto da pressão sobre o abastecimento de uma região densamente povoada.

Em 2024, segundo a Reuters, as reservas de Mornos e dos outros três reservatórios que abastecem a Ática haviam caído para 700 milhões de metros cúbicos em agosto.

Em 2022, esse volume era de 1,2 bilhão de metros cúbicos.

O Ministério do Meio Ambiente da Grécia também informou que a superfície do lago havia diminuído de cerca de 16,8 km² em agosto de 2022 para 12 km² em 2024, com base em imagens de satélite do Observatório Nacional de Atenas.

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Seca na Grécia pressiona reservatórios

A Grécia tem clima mediterrâneo e costuma enfrentar verões quentes.

Nos últimos anos, porém, a sequência de invernos secos, ondas de calor e baixa precipitação tornou o cenário mais severo, segundo registros e relatórios sobre a região.

Em 2024, o país vinha de um inverno com pouca neve e de um verão marcado por temperaturas elevadas, condição que ajudou a reduzir o volume do lago Mornos.

A Agência Copernicus, programa de observação da Terra da União Europeia, também registrou a retração do lago.

Em outubro de 2025, imagens de satélite mostravam que a extensão de água na superfície do Mornos havia diminuído de cerca de 19,1 km² no início de 2022 para 8,7 km² em setembro de 2025.

A perda foi associada, entre outros fatores, à seca prolongada e à redução das chuvas nos últimos anos.

A situação levou a EYDAP a acionar fontes alternativas e a planejar medidas de reforço.

Em relatório semestral de 2025, a companhia informou que colocou em operação estações de bombeamento em Yliki, acionou poços em Mavrosouvala e elaborou um plano para garantir a suficiência hídrica de Atenas, combinando intervenções imediatas e soluções de longo prazo.

Também houve propostas de maior alcance.

Em novembro de 2025, o governo grego apresentou um plano para enfrentar a crise hídrica, com foco especial na Ática.

Entre as medidas citadas estavam o projeto Evrytos, ligado ao uso de água do rio Evinos, e a análise de usinas de dessalinização em Thisvi, Nea Peramos e Lavrion.

Antiga vila grega expõe alerta sobre água

Kallio reaparece como uma imagem ligada à história local, mas não se trata de um episódio isolado.

Em outros períodos de seca, antigas construções já haviam ficado parcialmente visíveis, inclusive nos anos 1990.

O retorno das ruínas ganhou nova dimensão porque ocorreu em meio a uma preocupação mais ampla com a água disponível para Atenas e para a região da Ática.

O caso mostra que uma obra criada para garantir abastecimento também manteve, sob a água, registros de uma comunidade deslocada.

Quando o reservatório baixa, essa memória volta a ocupar o cenário e indica como decisões de infraestrutura deixam marcas físicas e humanas por muitas décadas.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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