Vendida como progresso verde, a monocultura de eucalipto para celulose deixou um rastro amargo no campo brasileiro. Em Minas Gerais e na Bahia, comunidades dizem que o chamado deserto verde secou nascentes e cisternas, matou veredas e forçou pequenos agricultores a abandonar a própria terra.
De longe, parece floresta. Verde, alinhada, infinita. Mas para quem vive ao lado dos grandes plantios de eucalipto no interior do Brasil, aquele cenário tem outro nome: deserto verde. A expressão, usada por moradores, pesquisadores e movimentos do campo, resume uma denúncia que voltou com força em junho de 2026, quando novos relatos sobre a monocultura de celulose expuseram o preço pago por comunidades de Minas Gerais e da Bahia.
A história costuma seguir o mesmo roteiro. Primeiro chega a promessa de emprego e desenvolvimento. Depois vêm os hectares e mais hectares de eucalipto em fileiras, substituindo cerrado, roça e pasto. E então, segundo quem ficou, as nascentes começam a secar, os córregos somem e a vida fica insustentável. O que era vendido como reflorestamento, para essas famílias, virou sinônimo de terra morta.
O que é o tal deserto verde

Uma plantação de eucalipto pode ser bonita e parecer uma mata, mas ecologicamente funciona quase como um deserto, já que é uma monocultura sem a diversidade de uma floresta nativa. A ideia de deserto verde aparece em falas de pesquisadores e de quem mora na região, justamente para marcar esse contraste entre o visual exuberante e a pobreza biológica do terreno.
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No Brasil, a escala impressiona. Minas Gerais concentra a maior área de eucalipto do país, com cerca de 1,4 milhão de hectares plantados, boa parte voltada à indústria de celulose e papel. Quando esse mar de árvores avança sobre o cerrado e sobre áreas sensíveis, o equilíbrio da paisagem muda. E é aí que o deserto verde deixa de ser só uma metáfora e passa a aparecer nas nascentes que minguam e nas roças que não vingam mais.
As nascentes que secaram
O coração da reclamação está na água. As raízes profundas do eucalipto e o ritmo acelerado de crescimento da monocultura consomem muito, e em regiões secas isso pesa. Um estudo citado em Minas Gerais aponta que a cultura chega a consumir cerca de 230 litros de água por metro quadrado a mais que o cerrado e a rebaixar o lençol freático em torno de meio metro por ano. No norte do estado, onde chove perto de mil milímetros anuais, o eucalipto sozinho consumiria boa parte disso, deixando déficit para o resto.
O efeito mais sentido é sobre as veredas, aquelas áreas úmidas que funcionam como esponjas naturais, recarregam aquíferos e seguram o fluxo dos rios. Na região entre Curvelo e Três Marias, e também no Vale do Jequitinhonha, moradores e levantamentos relatam perdas substantivas de nascentes, com centenas de pontos de água secando. “Os eucaliptos secaram as nascentes, o que antes permitia plantar virou terra morta”, resumiu um agricultor de Veredinha, no norte mineiro. Para essas famílias, a celulose que vira papel limpo na Europa nasceu de um cerrado que ficou sem água.
As famílias que foram embora

No extremo sul da Bahia, no chamado Vale da Celulose, a monocultura de eucalipto avançou desde os anos 1980 e 1990 e hoje cobre cerca de 600 mil hectares. Junto com o avanço vieram conflitos por terra, denúncias de grilagem e o cerco a comunidades tradicionais, quilombolas e pequenos agricultores que se viram ilhados no meio dos plantios.
O resultado aparece nas estradas. Milhares de famílias, segundo movimentos sociais, acabaram acampadas às margens das rodovias do extremo sul baiano, esperando um pedaço de terra para plantar e sobreviver. Quem não vendeu nem foi pressionado a sair muitas vezes ficou sem água e sem vizinhança, cercado por eucalipto até onde a vista alcança. O deserto verde, nesse caso, não secou apenas as nascentes, secou também o tecido social de quem vivia ali.
O outro lado: o que diz a indústria
Para ser justo, é preciso ouvir a outra parte, e ela discorda do apelido. Entidades de pesquisa florestal e a própria indústria de celulose sustentam que o eucalipto não consome mais água por unidade de madeira produzida do que outras plantas de crescimento rápido. Estudos ligados ao setor afirmam que plantios bem manejados podem ter consumo de água parecido com o de florestas nativas, e classificam a ideia de que “eucalipto seca nascente” como mito quando o cultivo é feito com critério.
O ponto em que mesmo críticos e defensores tendem a se aproximar é a questão da escala e do lugar. Plantar grandes blocos de monocultura em regiões já secas, sobre veredas e cabeceiras de nascentes, é diferente de cultivar com planejamento e respeito às áreas de recarga. Grandes empresas do ramo destacam que preservam parcelas relevantes de vegetação nativa em suas terras. A disputa, no fim, é menos sobre a árvore em si e mais sobre quanto, onde e como o deserto verde se espalha pelo mapa do Brasil.
O caso do eucalipto mostra que nem todo verde é sinônimo de natureza saudável. De um lado, uma indústria de celulose bilionária, que gera emprego e exportação. De outro, comunidades que juram ter visto suas nascentes secarem e suas roças morrerem por causa da monocultura que chamam de deserto verde.
Entre o progresso e a conta socioambiental, fica a pergunta: dá para crescer sem secar o chão de quem mora perto? E você, já viu de perto os efeitos de um plantio assim, ou acha que o problema é exagerado? Conta nos comentários a sua visão.
FONTES CITADAS
- Combate Racismo Ambiental — “Aço verde” que brilha na Europa seca o Jequitinhonha
- Mapa de Conflitos / Fiocruz — Região entre Curvelo e Três Marias e a perda de nascentes
- Brasil de Fato — Monocultura do eucalipto expulsa populações no Extremo Sul da Bahia (famílias deslocadas, Vale da Celulose)
- Estado de Minas — Estudo liga monocultura de eucalipto à falta d’água no semiárido (dados de consumo de água e lençol freático)
- Embrapa — Eucalipto e água (contraponto técnico) (visão de que o consumo é proporcional à biomassa)

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