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Japão envia navio para sugar lama rica em terras raras a quase 6.000 metros de profundidade no Pacífico, tenta levantar 350 toneladas por dia do fundo do mar e transforma sedimentos próximos à ilha de Minamitori em arma estratégica para reduzir dependência da China

Escrito por Ana Alice
Publicado em 21/06/2026 às 23:18
Atualizado em 21/06/2026 às 23:20
Assista o vídeoJapão testa mineração de lama rica em terras raras no Pacífico, em projeto que mira minerais críticos e menor dependência da China. (Imagem: Ilustrativa)
Japão testa mineração de lama rica em terras raras no Pacífico, em projeto que mira minerais críticos e menor dependência da China. (Imagem: Ilustrativa)
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Uma expedição japonesa no Pacífico colocou sedimentos profundos no centro de uma disputa tecnológica que envolve minerais críticos, segurança econômica e os limites da exploração em áreas pouco conhecidas do oceano.

O Japão recuperou lama rica em terras raras do fundo do Oceano Pacífico em uma operação conduzida pelo navio científico Chikyu, nas proximidades da ilha de Minamitori, a cerca de 1.900 quilômetros ao sudeste de Tóquio.

A missão, realizada em 2026, faz parte de um projeto do governo japonês para testar se sedimentos localizados a quase 6.000 metros de profundidade podem ser usados, no futuro, como fonte doméstica de minerais críticos.

A operação envolveu a retirada contínua de lama do leito marinho em uma profundidade considerada extrema para esse tipo de teste.

Segundo a Reuters, o Chikyu partiu do porto de Shimizu em 12 de janeiro de 2026, chegou à área de trabalho em 17 de janeiro e iniciou a recuperação do material em 30 de janeiro.

A primeira coleta bem-sucedida foi confirmada em 1º de fevereiro.

O teste não representa o início de uma mineração comercial.

A etapa atual serve para avaliar se o sistema consegue levar sedimentos do fundo do mar até a superfície de forma estável, além de permitir análises sobre volume, composição e concentração dos elementos encontrados.

Com esses dados, o Japão poderá estudar a viabilidade técnica, econômica e ambiental de uma exploração em escala maior.

Terras raras no Pacífico e o interesse do Japão

As terras raras formam um grupo de elementos usados em cadeias industriais de alta tecnologia.

Esses materiais aparecem em componentes de motores elétricos, ímãs de alto desempenho, equipamentos eletrônicos, turbinas, sensores, sistemas de defesa e dispositivos de precisão.

No caso dos sedimentos próximos a Minamitori, autoridades japonesas citaram a presença de elementos como disprósio, neodímio, gadolínio e térbio.

Esses minerais são empregados em produtos industriais e tecnológicos, incluindo motores de veículos elétricos e ímãs usados em equipamentos de alta eficiência.

A busca por fontes alternativas tem relação direta com a segurança econômica do Japão.

A China concentra etapas relevantes da cadeia global de terras raras e adotou controles de exportação sobre minerais críticos e produtos relacionados.

Para economias dependentes de tecnologia industrial, restrições nesse mercado podem afetar setores como automóveis, eletrônicos, energia e defesa.

A iniciativa japonesa, porém, ainda está em fase de teste.

Segundo a Reuters, o projeto recebeu cerca de 40 bilhões de ienes desde 2018, mas não há meta oficial de produção comercial nem estimativa pública de reservas exploráveis.

Por isso, a recuperação da lama não permite concluir, neste momento, que o Japão poderá substituir importações de terras raras em curto prazo.

Como o Chikyu retira sedimentos de quase 6.000 metros

O Chikyu é operado pela Agência Japonesa para Ciência e Tecnologia Marinha-Terrestre, a Jamstec.

A embarcação foi projetada para perfuração científica em águas profundas e, segundo a própria agência, tem capacidade de perfurar até 7.000 metros abaixo do leito marinho em pesquisas científicas.

Na missão perto de Minamitori, o desafio foi adaptar sistemas de tubulação e equipamentos de recuperação para transportar sedimentos em uma coluna de água de quase 6.000 metros.

A operação exige controle técnico porque ocorre sob alta pressão, em região distante da costa e sujeita a interrupções por condições meteorológicas.

De acordo com a Science Japan, publicação da Agência de Ciência e Tecnologia do Japão, os dispositivos de recuperação, incluindo um sistema de tubo riser, operaram sem problemas durante a missão.

O trabalho, no entanto, precisou ser interrompido temporariamente por causa do mau tempo.

As amostras coletadas devem passar por desidratação e análise posterior.

O governo japonês prevê uma nova etapa em fevereiro de 2027, com teste em escala maior.

A meta anunciada é avaliar a capacidade de recuperar cerca de 350 toneladas de sedimento por dia.

Também está prevista, até março de 2028, uma avaliação sobre a possibilidade de industrializar a extração de terras raras em águas profundas.

Minamitori ganha peso na corrida por minerais críticos

Minamitori, também chamada de Minamitorishima, é uma ilha remota do Japão no Pacífico.

A região passou a ser acompanhada por pesquisadores porque estudos apontaram a presença de lama com elementos estratégicos dentro da zona econômica exclusiva japonesa, em profundidades entre 5.000 e 6.000 metros.

A investigação desses depósitos mostra como o leito oceânico entrou na pauta de países que buscam fontes alternativas de minerais críticos.

Em vez de depender apenas de jazidas terrestres, governos e instituições científicas estudam se sedimentos marinhos podem integrar, no futuro, cadeias de fornecimento industrial.

Ainda há obstáculos relevantes entre a coleta experimental e uma operação comercial.

O material precisa ser bombeado, desidratado, transportado, separado e refinado.

Cada etapa envolve custos, perdas técnicas e impactos que precisam ser medidos antes de qualquer decisão sobre produção em larga escala.

A dimensão ambiental também integra o projeto.

A operação japonesa prevê monitoramento a bordo e no fundo do mar porque atividades em grandes profundidades podem deslocar sedimentos e alterar áreas habitadas por organismos adaptados a condições específicas.

Até o momento, as autoridades tratam a iniciativa como um teste de recuperação e análise, não como mineração comercial.

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China, Japão e a disputa por abastecimento mineral

A missão perto de Minamitori ocorre em um contexto de disputa internacional por minerais essenciais à indústria tecnológica.

Segundo a Reuters, Shoichi Ishii, diretor do programa ligado ao Gabinete do Japão, afirmou que uma frota naval chinesa entrou nas águas próximas à área de pesquisa em 7 de junho de 2025.

Na ocasião, o navio japonês realizava levantamentos de recursos dentro da zona econômica exclusiva do país entre 27 de maio e 25 de junho.

Ishii disse à agência que havia “um forte senso de crise” diante do que classificou como ações intimidadoras.

O Ministério das Relações Exteriores da China respondeu à Reuters que as atividades de seus navios militares estavam de acordo com o direito internacional e com convenções internacionais.

O governo chinês também pediu que o Japão evitasse “exagerar ameaças e provocar confronto”.

A troca de declarações ilustra a sensibilidade política do tema.

Para o Japão, desenvolver tecnologia de recuperação e eventual processamento de minerais críticos pode ampliar a segurança de abastecimento.

Para a China, a movimentação ocorre em uma área do Pacífico ligada a recursos estratégicos e a cadeias produtivas nas quais o país mantém posição dominante.

O teste que ainda depende de novos dados

A coleta realizada em 2026 demonstrou que o Japão conseguiu operar um sistema de recuperação de sedimentos em grande profundidade.

Essa etapa, porém, não responde sozinha às principais questões sobre custo, escala, impacto ambiental e capacidade de transformar a lama em fonte regular de terras raras.

Também não há estimativa oficial divulgada de reservas exploráveis no projeto atual.

Sem esse dado, não é possível medir quanto os depósitos próximos a Minamitori poderiam representar no abastecimento japonês nem comparar sua relevância com fornecedores já estabelecidos no mercado global.

A análise das amostras deverá indicar a concentração dos elementos, a eficiência do sistema de coleta e os desafios de processamento.

Só a partir desses resultados o governo japonês terá elementos mais concretos para decidir se a exploração em águas profundas pode avançar para uma etapa industrial.

A operação, por enquanto, permanece no campo da pesquisa aplicada e do desenvolvimento tecnológico.

A questão que ainda depende de dados é se a lama retirada de quase 6.000 metros de profundidade poderá se tornar uma fonte viável de minerais usados em carros elétricos, eletrônicos, radares e outros equipamentos industriais.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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