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Tecnologia espacial usada para procurar água em Marte agora caça vazamentos invisíveis sob as ruas de São Paulo, usando satélites, IA e sinais de cloro para ajudar a Sabesp a recuperar até 6,7 bilhões de litros de água

Escrito por Ana Alice
Publicado em 21/06/2026 às 23:30
Atualizado em 21/06/2026 às 23:32
Tecnologia de satélite usada na busca por água em Marte ajuda a localizar vazamentos subterrâneos em redes da Sabesp com radar e IA. (Imagem: Ilustrativa)
Tecnologia de satélite usada na busca por água em Marte ajuda a localizar vazamentos subterrâneos em redes da Sabesp com radar e IA. (Imagem: Ilustrativa)
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Uma tecnologia ligada à exploração espacial passou a ser aplicada em redes urbanas de abastecimento, conectando satélites, inteligência artificial e equipes de campo em uma operação voltada à identificação de perdas subterrâneas de água.

Uma tecnologia baseada em radar de satélite e inteligência artificial, desenvolvida a partir de aplicações ligadas à busca por água no subsolo de Marte e de outros corpos planetários, passou a ser usada para localizar vazamentos invisíveis em redes de abastecimento na Terra.

No Brasil, a solução da Asterra foi contratada pela Sabesp em um acordo de R$ 5,9 milhões para mapear, durante dois anos, a Região Metropolitana de São Paulo e orientar equipes de campo na identificação de perdas de água tratada.

O sistema usa dados de radar de abertura sintética, conhecido pela sigla SAR, que conseguem atravessar parte da cobertura da superfície e captar sinais relacionados à umidade no subsolo.

A diferença está no tratamento dessas informações: algoritmos analisam os dados obtidos por satélite e buscam padrões compatíveis com a presença de água potável tratada, especialmente pela assinatura associada ao cloro usado no abastecimento.

A tecnologia não substitui o trabalho das equipes nas ruas.

Ela funciona como uma etapa de triagem, reduz a área de busca, indica pontos prioritários e orienta a investigação em campo.

Depois que o satélite aponta uma região suspeita, técnicos usam geofones, hastes de escuta e aplicativos de localização para confirmar se há vazamento e encontrar o ponto exato do problema.

Tecnologia de satélite saiu da busca por água em Marte

A base tecnológica usada pela Asterra tem origem em aplicações voltadas à identificação de água subterrânea em Marte e em outros corpos planetários.

Segundo a própria empresa, o geofísico Lauren Guy identificou uma possibilidade de adaptação do método para a Terra, onde os dados de satélite poderiam ser aplicados ao monitoramento de redes de água.

A Utilis, empresa que mais tarde passou a operar com a marca Asterra, foi cofundada em 2013 para desenvolver usos comerciais dessa tecnologia.

A partir de 2016, a detecção de vazamentos em redes subterrâneas de água passou a ser uma das aplicações comerciais do sistema.

Na prática, satélites em órbita captam informações de áreas extensas, e a Asterra transforma esses dados em mapas operacionais para companhias de saneamento.

O processo permite apontar regiões com indícios de vazamento, mas a confirmação continua dependendo de equipes treinadas e de equipamentos de campo.

O radar utilizado opera em banda L, faixa de frequência que pode penetrar o solo e atravessar elementos como asfalto, vegetação e estruturas superficiais.

A leitura não mostra uma tubulação rompida como em uma fotografia comum.

O que aparece é um conjunto de sinais que, quando processados, pode indicar umidade compatível com vazamento de água tratada.

Como o satélite detecta sinais de água tratada

A água potável distribuída nas cidades passa por tratamento químico antes de chegar às casas.

Um dos elementos usados nesse processo é o cloro.

A tecnologia busca diferenciar essa água de outras fontes, como umidade natural do solo, lençol freático, rios, esgoto ou água de chuva.

O método combina sensoriamento remoto, cruzamento de bases de dados e inteligência artificial.

Primeiro, o satélite coleta informações da área contratada.

Em seguida, os algoritmos analisam os sinais eletromagnéticos e comparam os resultados com o traçado da rede de abastecimento fornecido pela companhia de saneamento.

Com esse cruzamento, o sistema gera um mapa com pontos de possível vazamento próximos às tubulações.

As marcações são classificadas por grau de prioridade, o que permite às equipes de campo concentrar a verificação nas áreas com maior probabilidade de perda real, de acordo com os parâmetros da ferramenta.

Na operação descrita pela Sabesp, os pontos indicados podem abranger áreas com cerca de 100 metros de raio.

Dentro desse perímetro, os geofonistas percorrem as ruas com equipamentos acústicos para ouvir o ruído característico da água escapando sob pressão.

Geofones confirmam vazamentos indicados por satélite

O método tradicional de localização de vazamentos depende de profissionais treinados para interpretar sons no subsolo.

O geofone capta vibrações e amplifica ruídos produzidos pela água ao sair da tubulação.

À medida que o técnico se aproxima da origem do vazamento, o som tende a ficar mais intenso.

Quando há suspeita, a equipe usa uma haste de escuta para confirmar o ponto.

Em alguns casos, o solo é perfurado para verificar a presença de umidade.

Se a haste sai molhada, a indicação ganha força e o local é encaminhado para reparo pelas equipes responsáveis.

Antes do uso de soluções por satélite, esses profissionais já contavam com diferentes formas de triagem.

Companhias de saneamento monitoravam quedas de pressão, consumos fora do padrão e sensores de ruído para reduzir a área investigada.

Ainda assim, muitos vazamentos subterrâneos não chegam à superfície e podem permanecer sem identificação visual.

A tecnologia da Asterra entra justamente nessa etapa.

Em vez de concentrar a busca em áreas muito amplas, o sistema direciona a investigação para regiões onde há indícios compatíveis com vazamento.

Segundo Fábio Passos, gerente de perdas da Sabesp ouvido pela Superinteressante, as imagens são cruzadas com as redes de água da companhia e exibidas em mapas com marcações em vermelho e amarelo, conforme a assertividade.

Contrato da Sabesp mira vazamentos na Grande São Paulo

A Sabesp contratou a ferramenta para uso por dois anos na Região Metropolitana de São Paulo.

O investimento informado é de R$ 5,9 milhões, com aplicação em redes de distribuição e adutoras.

Reportagem do Click Guarulhos, com base em informações atribuídas à companhia, informou que, nos três primeiros meses da operação, de abril a junho, a cobertura prevista incluía quase 9 mil quilômetros de redes em São Paulo, Guarulhos, Osasco e Carapicuíba.

Essas áreas foram incluídas no projeto por apresentarem maior expectativa de recuperação de volume de água, segundo as informações divulgadas.

Na capital paulista, a tecnologia deveria alcançar regiões como Consolação, Avenida Paulista, Jardim América, Sacomã, Mooca, Guaianases, Itaquera e Perus, além da região da Rodovia Raposo Tavares.

A expectativa atribuída à Sabesp era recuperar 6,7 bilhões de litros de água nos primeiros 12 meses de uso da solução.

O volume foi comparado, nas informações divulgadas, ao abastecimento de uma cidade do porte de Caieiras, na Grande São Paulo, com mais de 95 mil habitantes.

Em teste anterior citado pela revista Pesquisa Fapesp, a Sabesp analisou 50 quilômetros de redes na Região Metropolitana de São Paulo.

As imagens de satélite indicaram 81 vazamentos, enquanto métodos tradicionais encontraram 14 no mesmo contexto.

O engenheiro Cícero Mirabô Rocha, do setor de Desenvolvimento Operacional da companhia, afirmou à publicação que a localização exata ainda depende de técnicas acústicas.

Perdas invisíveis de água desafiam redes de saneamento

As perdas de água estão entre os pontos monitorados por empresas de saneamento em redes de abastecimento.

Parte delas ocorre por fraudes ou erros de medição, enquanto outra parcela está ligada a vazamentos não visíveis em tubulações enterradas.

Quando a água não aflora na rua, o problema pode permanecer por longos períodos sem ser detectado.

A Superinteressante informou que a Sabesp registra cerca de 19% de perdas de água nas 375 cidades onde atua.

Nesse cenário, identificar vazamentos antes que eles cheguem à superfície permite direcionar reparos, reduzir desperdícios e evitar que a água tratada siga escoando sem ser contabilizada.

A Asterra já teve a tecnologia adotada em países como China, Emirados Árabes Unidos e Japão, além de cidades brasileiras como Rio de Janeiro e Curitiba.

A empresa não é dona dos satélites usados no processo; sua atuação está na interpretação dos dados, no processamento das imagens e na entrega dos mapas que orientam as companhias de água.

Segundo Fábio Passos, a assertividade da solução usada pela Sabesp fica acima de 90%, embora o resultado dependa das condições de campo.

Tráfego intenso, obras e ruídos urbanos podem dificultar a escuta com geofones durante a semana.

À noite e nos fins de semana, a menor interferência pode favorecer a confirmação dos pontos pelas equipes.

Uso em redes de esgoto ainda depende de avaliação técnica

Além da água potável, a Sabesp avalia aplicar o mesmo tipo de tecnologia para localizar vazamentos de esgoto.

A lógica seria semelhante, mas exigiria a identificação de outros compostos químicos característicos, já que o esgoto não tem a mesma assinatura da água tratada.

A possibilidade ainda depende de avaliação técnica.

Vazamentos de esgoto podem gerar impactos ambientais, especialmente quando atingem solo, rios ou redes de drenagem.

Por isso, a detecção precoce também está entre as frentes de interesse de companhias responsáveis pelo saneamento urbano.

No uso atual, a aplicação mais consolidada da tecnologia está na identificação de água tratada.

O satélite não conserta a tubulação, não dispensa o geofonista e não elimina a necessidade de manutenção da rede.

Sua função é indicar onde a equipe deve procurar primeiro, encurtando o caminho entre o vazamento invisível e o reparo.

Uma ferramenta associada à investigação de água fora da Terra agora ajuda a localizar perdas sob ruas, avenidas e calçadas.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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