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Imagens do satélite Landsat 9 da NASA revelaram encostas avermelhadas no extremo sul do Chile, mas não se trata de neve colorida e sim das florestas de faia-do-sul da Patagônia, que ganham tons de vermelho e laranja no outono austral

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 31/05/2026 às 20:15
Atualizado em 31/05/2026 às 20:20
A NASA flagrou com o Landsat 9 encostas vermelhas no sul do Chile: não é neve colorida, mas as florestas de faia-do-sul da Patagônia no outono austral.
A NASA flagrou com o Landsat 9 encostas vermelhas no sul do Chile: não é neve colorida, mas as florestas de faia-do-sul da Patagônia no outono austral.
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O contraste no alto das montanhas engana à primeira vista: o branco da neve dividindo espaço com manchas que parecem sangue na paisagem. A explicação, porém, está nas árvores. Quando o frio chega ao Hemisfério Sul, as faias perdem a clorofila e tingem encostas inteiras de vermelho e dourado, um espetáculo breve e raro.

Imagens do satélite Landsat 9 da NASA revelaram encostas avermelhadas no extremo sul do Chile, num cenário tão impressionante que, à primeira vista, parece neve colorida. Mas não se trata de neve vermelha: o fenômeno é provocado pelas florestas de faia-do-sul da Patagônia, que ganham tons intensos de vermelho e laranja durante o outono austral, criando um contraste marcante com o branco do gelo nos picos das montanhas.

A imagem foi capturada em 12 de abril de 2026, quando uma rara abertura nas nuvens permitiu ao instrumento do satélite registrar as encostas coloridas na região de Magallanes, no sul chileno, segundo o NASA Earth Observatory. Mais do que um espetáculo visual, o registro mostra como a tecnologia de observação da Terra ajuda a monitorar ecossistemas remotos e a entender os ciclos naturais de uma das regiões mais isoladas e singulares do planeta.

Por que não é neve vermelha

A NASA flagrou com o Landsat 9 encostas vermelhas no sul do Chile: não é neve colorida, mas as florestas de faia-do-sul da Patagônia no outono austral.
Vale desfazer logo o mal-entendido que o visual provoca. 

Apesar de parecer, à distância, que a própria neve estaria mudando de cor, o que a NASA registrou não tem nada a ver com o gelo: são as folhas das árvores da Patagônia que se transformam, tingindo de vermelho e dourado as encostas das montanhas durante o outono, enquanto a neve dos cumes permanece branca.

O efeito é puramente óptico, do ponto de vista de quem observa do espaço. As manchas avermelhadas que aparecem perto das áreas nevadas são, na verdade, vastas florestas que mudam de cor todos os anos nessa época. É o mesmo fenômeno que faz as folhas ficarem alaranjadas no outono do Hemisfério Norte, só que aqui acontece no extremo sul do continente americano, entre março e maio, o outono do nosso lado do mundo.

O que faz as folhas mudarem de cor

A NASA flagrou com o Landsat 9 encostas vermelhas no sul do Chile: não é neve colorida, mas as florestas de faia-do-sul da Patagônia no outono austral.
A explicação para o espetáculo está na biologia das árvores. 

No outono austral, com a diminuição da luz solar e a chegada do frio, as faias reduzem a produção de clorofila, o pigmento verde responsável pela fotossíntese, revelando então os pigmentos vermelhos e amarelos que antes ficavam escondidos, num processo de reabsorção de nutrientes antes da queda das folhas.

É o mesmo mecanismo que colore os famosos outonos do Canadá, dos Estados Unidos e do Japão, só que protagonizado por espécies sul-americanas. Quando dias mais curtos e temperaturas mais baixas se instalam, a paisagem que costuma ser dominada por verdes, marrons e brancos ganha, por um curto período, pinceladas quentes de vermelho e laranja que se destacam nitidamente quando vistas do espaço.

A faia-do-sul, estrela do espetáculo

A protagonista dessa transformação tem nome e sobrenome botânico. A espécie principal é a lenga, ou faia-do-sul (Nothofagus pumilio), uma árvore extremamente resistente que suporta temperaturas congelantes e se estende desde cerca de 36 graus de latitude sul até a Terra do Fogo, no extremo do continente, formando algumas das florestas mais austrais do planeta.

Em muitos lugares, a lenga é a árvore dominante, por isso encostas inteiras mudam de cor ao mesmo tempo, criando o efeito visto pela NASA. Ela divide o protagonismo com o ñire (Nothofagus antarctica), apelidado de “fogo antártico” por causa do vermelho intenso que produz. Essas árvores marcam o chamado limite das árvores, a altitude máxima em que conseguem sobreviver, que no sul da Patagônia fica em torno de 600 metros, mais baixo do que nas regiões mais ao norte.

O olho da NASA no espaço

A façanha de flagrar esse momento fugaz coube a um satélite especializado. O Landsat 9, da NASA, opera a cerca de 700 quilômetros de altitude e foi projetado para registrar a superfície da Terra de forma contínua e comparável ao longo do tempo, com cobertura global a cada 16 dias e mais de 700 imagens captadas por dia, usando o instrumento conhecido como Operational Land Imager.

Diferentemente de uma câmera comum, o Landsat 9 mede com precisão como a luz solar é refletida pela superfície, gerando dados científicos valiosos. Justamente por isso, captar as cores do outono patagônico não foi sorte: foi resultado de um monitoramento constante, que aproveitou uma fresta entre as nuvens, frequentes naquela região, para registrar a paisagem em transformação.

Muito além de uma foto bonita

Esse tipo de imagem tem utilidade que vai muito além da beleza. Os dados do Landsat são abertos e gratuitos, disponibilizados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, e ajudam cientistas, governos e empresas a monitorar a saúde de florestas, detectar secas, acompanhar bacias hídricas e identificar desmatamento ou intervenções ilegais em áreas protegidas ao redor do mundo.

Acompanhar uma mesma encosta ao longo dos anos permite perceber mudanças sutis na vegetação, que podem indicar desde alterações climáticas até riscos de deslizamentos. Assim, as copas avermelhadas da Patagônia deixam de ser apenas um cartão-postal e passam a funcionar como um termômetro da saúde ambiental, mostrando como a observação da Terra a partir do espaço se tornou uma ferramenta essencial para a ciência e para a gestão dos recursos naturais.

Um espetáculo que o Brasil também conhece

O fenômeno desperta curiosidade porque dialoga com algo familiar. Embora o Brasil não tenha florestas decíduas tão exuberantes quanto as da Patagônia, regiões mais frias do Sul do país também registram mudanças sazonais na vegetação, especialmente em áreas de altitude, onde o outono e o inverno alteram a paisagem, ainda que de forma menos dramática.

Mais do que isso, o caso chileno mostra o valor da observação por satélite, uma tecnologia que o Brasil também utiliza, por meio de instituições como o Inpe, para monitorar a Amazônia, o desmatamento e as queimadas. O encanto das encostas vermelhas da Patagônia, portanto, é também um convite a valorizar a ciência espacial como aliada na proteção do meio ambiente, um tema cada vez mais urgente em todo o planeta.

As encostas avermelhadas flagradas pela NASA no sul do Chile são um daqueles presentes que a natureza oferece e que a tecnologia nos permite admirar de um ângulo impossível a olho nu. Não é neve colorida, mas o desabrochar outonal das faias-do-sul, um espetáculo breve, anual e cheio de significado científico. Entre a beleza das cores e a importância dos dados que elas revelam, fica a certeza de que olhar para a Terra do espaço é, ao mesmo tempo, encantador e essencial para entender e preservar o nosso planeta.

E você, ficou encantado com as imagens das encostas vermelhas da Patagônia captadas pela NASA? Sabia que não era neve colorida, mas sim o outono das florestas? Deixe seu comentário, conte o que mais te impressionou nesse espetáculo natural e compartilhe a matéria com quem ama natureza, ciência e as maravilhas do nosso planeta vistas do espaço.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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