As hidrelétricas do Rio Madeira, Santo Antônio e Jirau, mudaram a vazão do rio e criaram uma onda de seca que inverte cheia e vazante várias vezes no mês. O resultado é a pesca artesanal em queda de 39% em Humaitá e o peixe sumindo da mesa das comunidades ribeirinhas da Amazônia.
Onde antes meia tonelada de peixe entrava na canoa em cinco dias, hoje o peixeiro Osvaldo de Araújo, de 63 anos, leva dez dias para juntar cem quilos em Humaitá, no sul do Amazonas. “Era tanto peixe que não dava para aguentar”, contou ele à Mongabay Brasil. Agora, Osvaldo resume o que sustenta as bancas do mercado com uma frase só: “Se não fosse o peixe de viveiro, essas bancas estariam vazias.” A abundância que parecia infinita virou escassez em pouco mais de uma década.
O caso foi mapeado em detalhe por uma investigação da Agência Pública, publicada em janeiro de 2026 em parceria com a Mongabay Brasil, que mostra o avesso de uma obra vendida como progresso. As hidrelétricas do Rio Madeira, as usinas de Santo Antônio e Jirau, foram erguidas para gerar energia limpa em escala, mas alteraram o pulso natural do rio e despejaram sobre as comunidades ribeirinhas da Amazônia um efeito colateral que ninguém colocou na conta: o peixe, principal proteína da mesa e principal renda da pesca artesanal, começou a desaparecer.
A onda de seca que desorienta o peixe

O peixe amazônico depende do sobe e desce das águas para se reproduzir, no período conhecido como piracema, e faz isso seguindo uma cheia que sobe devagar e uma vazante que desce devagar. As hidrelétricas do Rio Madeira quebraram essa lógica. Em vez de um ciclo anual previsível, o rio passou a viver o que os pescadores chamam de onda de seca, com cheia e vazante se invertendo várias vezes no mesmo mês.
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A bióloga Carolina Doria, coordenadora do Laboratório de Ictiologia e Pesca da Universidade Federal de Rondônia, explica o mecanismo. “Os eventos diários de hidropisia são muito frequentes devido à usina hidrelétrica”, afirmou Doria à Mongabay Brasil. Segundo a pesquisadora, o peixe lê o nível da água como um sinal. “Ele sabe que precisa sair das planícies quando o nível sobe gradualmente. Se essa cheia e seca acontecer, o peixe nem sai do afluente. Ele se perde. Fisiologicamente, há um descontrole.”
Quem vive do rio sente isso na pele. José Pessoa, de 58 anos, que pesca desde os 13 em Humaitá, traduz o problema sem nenhum termo técnico. “O peixe precisa de corredeiras para fazer a piracema”, disse. Sem as corredeiras certas no momento certo, o cardume some rio abaixo. A intensidade da reversão diária de vazão, aliás, é maior perto das usinas, chegando a um aumento de 94% logo abaixo de Santo Antônio e Jirau, em Porto Velho, e ainda alcançando os arredores de Humaitá, a 255 quilômetros da barragem.
39% a menos: o que os números de Humaitá mostram
Os pescadores não estão sozinhos nessa percepção, e os dados confirmam o relato. Um estudo da Universidade Federal do Amazonas, com apoio da Universidade Federal de Rondônia, comparou os desembarques de pescado em Humaitá antes e depois das barragens e encontrou uma queda de 39%, de 267 toneladas por ano na média de 2002 a 2010 para 163 toneladas entre 2012 e 2016, conforme reportado pela Mongabay Brasil. Os melhores anos ficaram todos no passado, como 2011, que rendeu 407 toneladas. Hoje, segundo a Colônia de Pescadores local, a captura já caiu para menos de 100 toneladas anuais.
Em alguns pontos o colapso é quase total. No Córrego Beem, a produção despencou de 164 toneladas para apenas 1,3 tonelada, uma redução de 99%, de acordo com o levantamento citado pela Agência Pública. A conta no bolso da cidade chega perto de 1,8 milhão de reais perdidos por ano só com a pesca artesanal, e cinco pontos tradicionais de pesca simplesmente deixaram de produzir.
O que sumiu tem nome e sobrenome na cozinha ribeirinha. As espécies mais afetadas são justamente as mais consumidas, como jaraqui, curimatã, pacu, aracu, sardinha e matrinxã, além dos grandes bagres migratórios de valor comercial, como a dourada e a piramutaba. Marcelo dos Anjos, coordenador do Laboratório de Ictiologia e Ordenamento Pesqueiro do Vale do Rio Madeira, na UFAM, é direto sobre a causa. “Estas espécies não deixaram de ocorrer ali devido a uma preferência ambiental, mas porque deixaram de ter acesso”, afirmou à Mongabay Brasil. A barragem virou um muro no caminho da migração.
Para enxergar o tamanho do prejuízo, cientistas e pescadores juntaram forças. O biólogo Igor Hister Lourenço, hoje no Instituto Mamirauá, liderou um monitoramento participativo com cerca de 120 pescadores, que passaram a registrar onde, quando e quanto pescavam, segundo a Agência Pública. São essas comunidades ribeirinhas da Amazônia que estão, na prática, mapeando o próprio prejuízo.
O peixe que sumiu da mesa e o frango que chegou

Com menos peixe e mais caro, a base alimentar de quem mora à beira do rio mudou. João Mendonça, presidente da associação de agricultores e pescadores de Paraisinho, descreve a virada com poucas palavras. “Hoje, as pessoas vêm comprar frango porque está difícil pegar o peixe”, disse. Numa região onde comer peixe todo dia era regra, isso é uma ruptura cultural, não só econômica.
O preço conta a mesma história. O pescador Raimundo Dias, de Novo Aripuanã, lembra que a matrinxã, antes vendida a cinco reais, hoje chega a quarenta. “Essa hidrelétrica acabou com a gente”, resumiu. Allan de Barros, presidente da associação de pescadores de Novo Aripuanã, vai além e fala de peixe que encolheu e de peixe que desapareceu. Segundo ele, a dourada que passava dos 40 quilos hoje mal chega a 6, e o cardume de piramutaba virou memória. “Nunca mais vimos um cardume de piramutaba em nosso rio.”
Sem renda da pesca, parte dos pescadores foi procurar dinheiro onde dá. O biólogo Rogério Fonseca, da UFAM, alerta para o efeito em cadeia. “Gerações de pescadores estão sendo obrigadas a mudar de profissão”, afirmou. Antônio Veiga, presidente da associação de pescadores de Manicoré há 25 anos, conta que muitos largaram a rede e foram garimpar ouro, empurrando o problema das hidrelétricas do Rio Madeira para dentro de outra chaga amazônica, a do garimpo ilegal.
Construídas em Rondônia, sentidas no Amazonas
Há uma injustiça geográfica no centro dessa história. As usinas de Santo Antônio e Jirau ficam em Rondônia, perto de Porto Velho, mas boa parte do impacto desceu o rio e bateu no Amazonas, em cidades como Humaitá, Manicoré e Novo Aripuanã. “Elas foram instaladas em Rondônia, mas o impacto veio para o Amazonas”, resumiu Antônio Veiga. Quem decidiu e quem lucra está de um lado da fronteira estadual, quem perde o peixe está do outro.
A Justiça ainda não resolveu a conta. Desde 2013, mais de 1.500 pescadores de Humaitá processam as proprietárias das usinas pedindo indenização por danos morais e materiais, mas a sentença local considerou o caso prescrito, e o recurso aguarda decisão no Tribunal de Justiça do Amazonas. Enquanto isso, o cenário climático piora o quadro, com a seca histórica de outubro de 2023, quando o Rio Madeira chegou a 1,10 metro de profundidade, e a queda de quase três metros em apenas quinze dias em junho de 2024.
Procuradas, as operadoras dão versões diferentes. A Axia, responsável por Santo Antônio, afirma operar de forma sustentável e diz ter investido mais de 2,6 bilhões de reais em programas socioambientais, incluindo monitoramento de peixes, segundo a Mongabay Brasil. Já a Jirau Energia não respondeu aos questionamentos da reportagem. Entre o discurso da energia limpa e a mesa vazia das comunidades ribeirinhas da Amazônia, sobra um rio que não obedece mais ao próprio calendário.
A história das hidrelétricas do Rio Madeira é o retrato perfeito de um progresso que cobra a fatura no lugar errado. As usinas de Santo Antônio e Jirau entregaram energia para milhões de casas, mas a onda de seca que elas criaram derrubou a pesca artesanal, encolheu os peixes, encareceu a proteína e empurrou famílias inteiras para o frango comprado ou para o garimpo. A conta da luz que acende as cidades está sendo paga, em peixe e em comida, pelas comunidades ribeirinhas da Amazônia.
E você, acha que dá para chamar de energia limpa uma obra que deixa o peixe e a comida sumirem da mesa de quem vive do rio? Conta aí nos comentários.

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