O uso clandestino de botijão de gás em carros continua sendo adotado por motoristas em busca de economia, mas a adaptação improvisada expõe o veículo a vazamentos, risco de explosão, desgaste acelerado do motor, multas, remoção e outras consequências previstas na legislação
O uso de botijão de gás como combustível em automóveis voltou ao centro da atenção após a Polícia Rodoviária Federal apreender, na noite de domingo (29), em Pau dos Ferros, no Alto Oeste do Rio Grande do Norte, um carro que circulava com um botijão de gás de cozinha ligado diretamente ao motor.
O caso expôs uma prática clandestina que segue proibida no país e que ainda é adotada por motoristas em busca de redução de custos.
A fiscalização ocorreu por volta das 19h, na BR-405, quando os policiais abordaram um Chevette que seguia de Pau dos Ferros para Taboleiro Grande, também no interior potiguar. No veículo estavam o motorista, de 54 anos, e um passageiro, enquanto o equipamento improvisado foi encontrado na mala do carro.
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Além da instalação irregular do sistema, a ocorrência reuniu outras infrações. A PRF informou que o condutor não era habilitado, admitiu ter ingerido bebida alcoólica e se recusou a fazer o teste do bafômetro.
A recusa ao teste do bafômetro é infração gravíssima, com multa de R$ 2.934,70, suspensão do direito de dirigir por 12 meses e retenção do veículo. Dirigir sem possuir CNH também é infração gravíssima e prevê multa de R$ 880,41, enquanto o carro abordado ainda estava com o licenciamento atrasado desde 2010, o que levou à remoção para depósito até a regularização.
Botijão de gás no carro continua proibido
A instalação e o uso de GLP como combustível em veículos automotores continuam proibidos no Brasil. A vedação está prevista atualmente na Resolução Contran nº 916, de 28 de março de 2022, que mantém essa proibição para veículos automotores e abre exceção apenas para máquinas usadas na carga e descarga de mercadorias, como empilhadeiras.
A mesma norma determina que, quando houver instalação e utilização de GLP como combustível em veículo automotor, sejam aplicadas as penalidades previstas no art. 230, inciso XII, do Código de Trânsito Brasileiro. Com isso, a restrição continua em vigor mesmo após a substituição de regras anteriores do Contran por uma nova resolução.
No texto original da matéria, a referência era feita à Resolução 673 do Contran. Essa base legal, porém, ficou desatualizada, porque a norma vigente hoje é a Resolução 916/2022, publicada em 1º de abril de 2022.
O uso clandestino desse tipo de adaptação persiste por causa do preço mais baixo do GLP em comparação com gasolina e etanol. Mesmo assim, a prática segue fora da legalidade e sujeita a punições, além de expor motoristas e passageiros a riscos constantes.
Adaptação improvisada aumenta risco de vazamento e explosão
O GLP, ou gás liquefeito de petróleo, é formado por butano e propano e não se confunde com o gás natural veicular. Enquanto o GNV foi concebido para uso automotivo e opera dentro de exigências próprias, o GLP não foi projetado para abastecer carros de passeio.
O botijão de gás comum também não foi desenvolvido para suportar vibrações, impactos e deslocamentos permanentes de um automóvel em circulação. Seu uso em veículos cria uma condição incompatível com a finalidade original do recipiente, ampliando a exposição a falhas graves.
Nas instalações clandestinas, esse cenário costuma ser agravado por montagens artesanais com peças inadequadas. Mangueiras improvisadas e conexões adaptadas de empilhadeiras são parte de sistemas frágeis, vulneráveis a vazamentos e explosões.
A ausência de normas de segurança específicas para esse tipo de adaptação reforça o problema. Sem padronização técnica e sem controle regular, o sistema improvisado deixa motorista e passageiro sujeitos a perigos permanentes.
No caso registrado no interior do Rio Grande do Norte, a ligação do botijão de gás diretamente ao motor evidenciou justamente esse tipo de improvisação. A apreensão feita pela PRF recolocou em evidência uma prática antiga, proibida e ainda presente em algumas regiões.
Botijão de gás também acelera desgaste do motor
Além do risco imediato à segurança, a adaptação para uso de GLP compromete o funcionamento mecânico do veículo. Motores projetados para gasolina, etanol ou GNV não possuem a taxa de compressão necessária para trabalhar adequadamente com esse combustível.
Essa incompatibilidade reduz potência e acelera o desgaste de peças. O que parece uma economia inicial pode resultar em manutenção mais frequente e em prejuízos mais altos ao longo do tempo.
Velas e cabos de ignição estão entre os componentes afetados. A vida útil, estimada em cerca de 30 mil quilômetros em condições regulares, pode cair para aproximadamente 15 mil quilômetros com o uso do GLP.
O cabeçote do motor também aparece entre os pontos mais vulneráveis, já que a pressão irregular provocada pelo gás pode provocar trincas. As válvulas ainda ficam sujeitas a travamentos e desgaste acelerado, porque o GLP não oferece a lubrificação presente nos combustíveis líquidos.
As alterações improvisadas têm impacto até no valor de revenda do automóvel. Perfurações para fixar recipientes, mudanças não autorizadas na estrutura e a perda de espaço no porta-malas ou na caçamba reduzem a atratividade do veículo no mercado.
Prática antiga segue em debate no Congresso
O uso de GLP em veículos não é recente e já era observado nos anos 1980, especialmente em comunidades periféricas, mesmo com proibição em vigor. Em 1991, essa utilização passou a aparecer no campo penal relacionado à ordem econômica, tema que ainda segue em discussão legislativa.
Em 2019, foi apresentado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4217, com proposta de revogar o inciso II do art. 1º da Lei nº 8.176, de 8 de fevereiro de 1991. A proposição está atualmente com situação de pronta para pauta no Plenário.
Mesmo com essa tramitação, a situação legal não mudou até aqui. O uso de GLP em automóveis continua proibido pela regulamentação de trânsito em vigor, e a adaptação irregular permanece sujeita a autuações e à retirada do veículo de circulação.
Economia aparente pode virar prejuízo maior
A busca por redução de despesas com combustível ajuda a explicar por que ainda há procura por kits de conversão vendidos em plataformas online por valores entre R$ 500 e R$ 1.000. O custo de entrada mais baixo, porém, esconde riscos elevados de segurança, desgaste mecânico e perda patrimonial.
O material também registra que o GLP apresenta emissões mais limpas do que gasolina ou diesel, embora sua produção e transporte ainda gerem impactos significativos. Ainda assim, no caso dos automóveis, o ponto decisivo permanece sendo a ilegalidade do uso e a ausência de segurança adequada para esse tipo de adaptação.
A apreensão em Pau dos Ferros sintetiza esse cenário ao reunir, em uma única abordagem, o botijão de gás improvisado no carro, a falta de habilitação do motorista, a recusa ao bafômetro e o licenciamento atrasado havia anos. O episódio mostra que a economia buscada a qualquer custo pode se transformar rapidamente em multa, remoção do veículo, dano mecânico e risco real à segurança.

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