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A Terra só teve supermontanhas duas vezes em 4,5 bilhões de anos, e nas duas vezes a vida deu um salto gigante: primeiro surgiram os organismos visíveis, depois vieram os animais com esqueleto durante a explosão cambriana

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 16/04/2026 às 23:13
Atualizado em 16/04/2026 às 23:16
Assista o vídeoEm 4,5 bilhões de anos, a Terra formou supermontanhas apenas duas vezes. Nas duas, a vida deu saltos gigantes. A erosão despejou nutrientes que mudaram tudo.
Em 4,5 bilhões de anos, a Terra formou supermontanhas apenas duas vezes. Nas duas, a vida deu saltos gigantes. A erosão despejou nutrientes que mudaram tudo.
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Em toda a história da Terra, cadeias de montanhas gigantescas que os geólogos chamam de supermontanhas se formaram apenas duas vezes: uma há 2 bilhões de anos e outra há 600 milhões de anos. Cada uma tinha mais de 8.000 km de extensão e mais de 1.000 km de largura, pelo menos quatro vezes mais longas que o Himalaia, e as duas coincidem com os maiores saltos evolutivos que a vida já deu.

A descoberta começou em 2006, quando geólogos que estudavam a história geológica da Terra analisaram grãos de zircão coletados de depósitos sedimentares em continentes tão distantes quanto Austrália e África. O zircão é um mineral praticamente indestrutível que funciona como cápsula do tempo geológica: contém urânio que se transforma em chumbo a uma taxa conhecida, permitindo calcular a idade do grão com precisão. Os padrões de idade eram estranhamente parecidos entre continentes diferentes, o que só fazia sentido se todo aquele sedimento viesse de uma mesma fonte gigantesca: uma cadeia de montanhas sem precedentes na história do planeta.

Essa fonte eram as supermontanhas Transgondwananas, formadas há cerca de 650 milhões de anos pela colisão continental que criou o supercontinente Gondwana. A erosão dessas montanhas foi tão intensa que, segundo as estimativas dos pesquisadores, o volume de sedimento depositado seria suficiente para cobrir os Estados Unidos inteiros com 10 quilômetros de profundidade.

O que acontece quando uma montanha gigante despeja nutrientes no oceano durante milhões de anos

Em 4,5 bilhões de anos, a Terra formou supermontanhas apenas duas vezes. Nas duas, a vida deu saltos gigantes. A erosão despejou nutrientes que mudaram tudo.

As supermontanhas ficavam perto do equador, em regiões com chuvas intensas, e nessa época não existia vegetação em terra firme para proteger a rocha.

A erosão era extrema. Rios gigantescos carregavam ferro, fósforo e cálcio para os oceanos, transformando águas pobres em nutrientes num caldo fértil capaz de sustentar ecossistemas mais complexos do que qualquer coisa que existia antes.

A explosão cambriana, quando a maioria dos grandes grupos de animais aparece no registro fóssil pela primeira vez, começou há cerca de 530 milhões de anos, exatamente no pico de atividade das supermontanhas Transgondwananas.

Os pesquisadores sugeriram que o influxo massivo de cálcio nos oceanos pode ter sido o que permitiu a evolução dos primeiros esqueletos.

Animais construíram os primeiros corpos rígidos da história a partir de fragmentos dissolvidos de supermontanhas.

Por que os cientistas acreditam que não foi só coincidência

Em 4,5 bilhões de anos, a Terra formou supermontanhas apenas duas vezes. Nas duas, a vida deu saltos gigantes. A erosão despejou nutrientes que mudaram tudo.

Para provar que havia uma conexão real entre supermontanhas e saltos evolutivos, os pesquisadores precisavam de um padrão que se repetisse.

Mais de uma década depois do estudo de 2006, outra equipe encontrou exatamente isso: medindo os níveis de lutécio nos grãos de zircão, identificaram uma segunda supermontanha, muito mais antiga.

As supermontanhas de Nuna se formaram há 2 bilhões de anos, durante a colisão que criou o primeiro supercontinente da história, e também tinham mais de 8.000 km de extensão.

E o padrão se confirmou. Os primeiros organismos grandes o suficiente para serem vistos a olho nu, filamentos espiralados chamados Grypania, aparecem no registro fóssil há 1,9 bilhão de anos, exatamente quando a sedimentação das supermontanhas de Nuna estaria no auge.

Os primeiros eucariotos, organismos cujas células têm núcleo, também evoluíram nessa época. Duas supermontanhas, dois saltos evolutivos. A probabilidade de ser coincidência caiu drasticamente.

O que aconteceu no intervalo de 1 bilhão de anos entre as duas supermontanhas

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Quase nada. Entre 1,8 bilhão e 800 milhões de anos atrás, a vida ficou praticamente estagnada.

Os cientistas chamam esse período de Boring Billion, o bilhão entediante, porque quase nenhuma mudança evolutiva significativa aconteceu durante todo esse tempo.

E a explicação pode ser simples: sem supermontanhas para despejar nutrientes nos oceanos e aumentar os níveis de oxigênio, a vida não tinha combustível para dar o próximo salto.

A erosão das supermontanhas não só despejava nutrientes que alimentavam explosões de micro-organismos fotossintetizantes (produzindo mais oxigênio), como também enterrava elementos que normalmente se ligam ao oxigênio, como carbono orgânico e pirita, liberando ainda mais oxigênio para a atmosfera.

Quando as supermontanhas desapareciam, esse motor parava, e a vida ficava presa no mesmo patamar por centenas de milhões de anos.

Costumamos dizer que somos poeira de estrelas, feitos de elementos forjados no coração de sóis moribundos. Mas talvez também sejamos poeira de supermontanhas. Comenta aí: você sabia que a vida complexa pode ter nascido da erosão de montanhas que não existem mais?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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