Usina flutuante nasceu na Segunda Guerra Mundial, chegou ao Brasil em 1950 para enfrentar apagões, passou por Rio, Niterói, Porto Alegre, Manaus e Belém, até virar barreira contra erosão em Cametá
Um navio projetado para fornecer eletricidade em zonas de guerra acabou atravessando boa parte da história do setor elétrico brasileiro. A embarcação Seapower, depois chamada de Piraquê e Poraquê, foi criada nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial e chegou ao Brasil em 1950 para ajudar no abastecimento de energia do Rio de Janeiro.
Com 109 metros de comprimento, 5.500 toneladas e 25.000 kW de potência, a usina flutuante conseguia gerar cerca de 600 MWh por dia, segundo dados da exposição virtual da Memória da Eletricidade no Google Arts & Culture. O volume era suficiente para reforçar sistemas urbanos em momentos de crise.
A história voltou a circular com a exposição gratuita “A Usina Flutuante que Navegou o Brasil”, lançada pela Memória da Eletricidade.
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De acordo com reportagem da CNN Brasil publicada em 7 de julho de 2026, a mostra reúne fotografias históricas, documentos técnicos, vídeos e diários de bordo da embarcação.
O projeto nasceu quando os Estados Unidos queriam levar eletricidade para zonas de guerra

A origem do navio está ligada a Walker Cisler, engenheiro convocado nos Estados Unidos, nos anos 1940, para liderar um projeto de usinas elétricas flutuantes. A ideia era simples no papel e complexa na prática: criar embarcações capazes de cruzar oceanos e gerar energia perto de frentes militares.
Segundo a Memória da Eletricidade, quatro navios movidos a vapor nasceram desse programa: Impedance, Inductance, Resistance e Seapower.
Eles foram construídos pela Bethlehem Steel Company, na Pensilvânia, com estrutura preparada para operar no mar e resistir às condições da guerra.
O Seapower foi lançado em 1943, em Charleston, com caldeiras a óleo e turbinas a vapor. Durante a Segunda Guerra, cruzou o Atlântico sob ameaça de submarinos alemães e prestou apoio energético a forças aliadas na Europa, antes de perder sua função militar com o fim do conflito.
A chegada ao Rio mostrou como a crise elétrica afetava a então capital federal
Em 1950, a Brazilian Hydroelectric Company, ligada ao grupo Light, trouxe a embarcação para o Rio de Janeiro. O antigo Seapower foi rebatizado como Piraquê e incorporado ao sistema elétrico da então capital federal, em um momento de crescimento urbano e aumento da demanda por energia.
A exposição do Google Arts & Culture informa que a usina foi instalada na Enseada do Caju e conectada à subestação de Campo Grande.
Com isso, acrescentou 7,6% de capacidade ao sistema Rio Light, um reforço relevante para uma cidade que já sofria com interrupções e limitações no fornecimento.
Mas a solução também gerou críticas. Parte da energia teria priorizado áreas turísticas e de maior visibilidade, como Copacabana e a região do Jóquei Club, na Gávea, enquanto outros pontos da cidade seguiam no escuro.
Em 1954, a Piraquê foi deslocada para Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara. Sem propulsão própria, dependia de rebocadores para se movimentar entre os pontos de operação.
Depois do Rio, a usina flutuante foi parar no Guaíba durante uma estiagem severa

A trajetória da embarcação não terminou no Sudeste. Em 1968, a usina foi vendida para a Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul, a CEEE, e rebocada até Porto Alegre.
O Rio Grande do Sul enfrentava uma estiagem forte, com reservatórios em níveis baixos. Nesse contexto, a antiga usina de guerra passou a operar no Guaíba como fonte complementar para a região metropolitana.
A embarcação começou a abastecer Porto Alegre no fim dos anos 1960 e permaneceu em operação até 1975. Era uma solução cara, antiga e dependente de manutenção pesada, mas ainda útil em um sistema elétrico pressionado pela seca e pelo aumento do consumo.
Na Amazônia, a Piraquê virou Poraquê e passou a atender o crescimento de Manaus
Depois do período no Sul, a usina foi vendida à Companhia de Eletricidade de Manaus. Na Amazônia, ganhou o nome Poraquê, referência ao peixe-elétrico capaz de produzir descargas fortes nos rios da região.
A mudança de nome combinava com o novo papel da embarcação. Manaus vivia expansão urbana e industrial impulsionada pela Zona Franca, e a rede elétrica precisava acompanhar fábricas, bairros novos e consumo crescente.
A Poraquê atuou ao lado da Usina de Mauá e de outras térmicas locais. Seu papel era ajudar a evitar apagões em uma cidade distante dos grandes sistemas interligados que se consolidariam depois.
O problema era o desgaste. A usina havia sido projetada para operar em outras condições climáticas. Na Amazônia, calor, umidade, falta de peças e caldeiras antigas tornaram a operação cada vez mais difícil.
Belém foi a última tentativa antes do navio perder espaço para as grandes hidrelétricas
Em 1978, a Poraquê foi transferida para a recém-criada Eletronorte e levada para Belém. A expectativa era reforçar o fornecimento de energia na capital paraense, mas a máquina já carregava décadas de uso.
Relatos reunidos em conteúdo da Agência Memória da Eletricidade, hospedado no Estadão Blue Studio, apontam que a chegada ao Pará gerou expectativa, mas também expôs limitações técnicas. Faltavam peças, cabos e componentes compatíveis com uma embarcação criada nos anos 1940.
Técnicos tiveram de buscar soluções improvisadas, inclusive equipamentos antigos em outros estados. O custo de manter a operação subia, enquanto a idade da usina pesava contra sua continuidade.
Nos anos 1980, com a entrada de grandes hidrelétricas na região, como Tucuruí, a Poraquê perdeu função. Ficou parada no porto de Belém até receber um destino incomum.
O fim da usina foi no fundo do rio Tocantins, protegendo a orla de Cametá
Em 1991, o navio foi doado à cidade de Cametá, no Pará. Em vez de virar sucata comum, foi afundado de forma controlada no rio Tocantins para ajudar a conter a erosão da margem.
A embarcação que nasceu para gerar energia em guerra, iluminou cidades brasileiras e atravessou diferentes sistemas elétricos passou a funcionar como barreira física. O objetivo era proteger a orla e construções históricas da cidade.
Hoje, a Poraquê não produz eletricidade, mas segue como vestígio material de um período em que o Brasil recorria a soluções móveis para enfrentar crises de abastecimento. Sua história mostra como energia, território e infraestrutura se misturaram em decisões tomadas sob pressão.
A exposição virtual preserva parte desse percurso com fotografias, registros técnicos, vídeos e entrevista com o historiador Andrey Martin, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Para quem acompanha temas de energia e engenharia, o caso da Poraquê revela uma solução pouco lembrada: uma usina que navegava para onde a rede elétrica não dava conta.
Você já conhecia a história da usina flutuante Poraquê? Deixe seu comentário contando se esse tipo de solução móvel ainda faria sentido em regiões isoladas do Brasil ou se hoje o país deveria apostar apenas em redes fixas, baterias e geração local.

