A Noruega tirou o Brasil da Copa do Mundo dentro de campo, mas mantém fora dele uma das principais parcerias ambientais do país, com recursos voltados à proteção de florestas tropicais e da Amazônia.
A eliminação do Brasil pela Noruega nas oitavas da Copa do Mundo de 2026 marcou o encontro recente mais visível entre os dois países para milhões de torcedores.
Fora do futebol, porém, a relação bilateral segue em outra frente: a cooperação ambiental voltada à proteção de florestas tropicais.
A Noruega renovou essa parceria ao anunciar, em 06 de novembro de 2025, durante a Cúpula de Líderes da COP30, em Belém, um compromisso de até US$ 3 bilhões para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, conhecido pela sigla TFFF.
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O valor foi apresentado pelo governo norueguês como empréstimos de longo prazo, equivalentes a 30 bilhões de coroas norueguesas, e não como uma doação direta no modelo tradicional de financiamento climático.
O anúncio incluiu a Noruega entre os países que declararam apoio financeiro ao mecanismo proposto pelo Brasil para financiar a proteção de florestas tropicais.
A iniciativa busca criar uma fonte permanente de recursos para países que conservam áreas florestais, como Brasil, Indonésia e República Democrática do Congo, usando retornos de investimento para remunerar a manutenção da floresta em pé.
O primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, afirmou no evento que a interrupção do desmatamento é necessária para reduzir impactos das mudanças climáticas e conter a perda de biodiversidade.
Ele também disse que “não temos tempo a perder” e defendeu que o TFFF pode oferecer “financiamento estável e de longo prazo” aos países participantes.
Como funciona o Fundo Florestas Tropicais para Sempre
O TFFF foi desenhado para operar de forma diferente dos fundos baseados exclusivamente em doações.
A proposta é reunir recursos públicos e privados, aplicar o capital em instrumentos financeiros e usar parte dos rendimentos para pagar países que mantêm florestas tropicais conservadas.
Segundo o Ministério da Fazenda do Brasil, a lógica do mecanismo é remunerar serviços ambientais prestados por esses biomas.
No caso norueguês, os recursos devem ser liberados gradualmente até 2035 e reembolsados até 2075.
O governo da Noruega condicionou o desembolso a critérios como a entrada de recursos de outros financiadores, o limite de participação norueguesa no total arrecadado e a manutenção de um modelo financeiro considerado sustentável e com risco aceitável.
A estrutura foi apresentada pelos governos envolvidos como uma tentativa de dar previsibilidade ao financiamento de longo prazo.
Para países com grandes áreas de floresta tropical, o mecanismo pode apoiar o planejamento de ações contínuas de monitoramento, fiscalização, conservação e desenvolvimento sustentável, desde que os recursos sejam efetivamente mobilizados e distribuídos conforme as regras do fundo.
O próprio governo norueguês informou que o início dos pagamentos aos países florestais depende da adesão de outros financiadores e da estruturação operacional do TFFF.
Dessa forma, o compromisso anunciado em Belém representa uma etapa de formação do fundo, e não a liberação imediata de todo o valor aos países beneficiários.
Fundo Amazônia segue como eixo da cooperação entre Brasil e Noruega
A cooperação ambiental entre Brasil e Noruega também passa pelo Fundo Amazônia, criado em 2008 e administrado pelo BNDES.
O fundo recebe doações não reembolsáveis e destina recursos a ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento, além de projetos de conservação e uso sustentável das florestas na Amazônia Legal.
Em 17 de novembro de 2024, a Noruega anunciou uma nova doação de US$ 60 milhões ao Fundo Amazônia, valor estimado à época em cerca de R$ 348 milhões.
O anúncio foi feito por Jonas Gahr Støre durante a Conferência Global Citizen Now, no Rio de Janeiro, em reconhecimento à redução do desmatamento na Amazônia em 2023, segundo o BNDES.
Antes disso, em junho de 2024, o BNDES e o governo norueguês já haviam formalizado outra doação, de US$ 50 milhões, equivalente a mais de R$ 270 milhões naquele momento.
Na ocasião, o banco informou que a Noruega permanecia como maior doadora histórica do Fundo Amazônia, com recursos superiores a R$ 3 bilhões desde o primeiro acordo de doação, assinado em 2009.
A diferença entre os dois instrumentos ajuda a explicar a renovação da parceria.
Enquanto o Fundo Amazônia opera com doações aplicadas em projetos aprovados pelo BNDES, o TFFF propõe um mecanismo financeiro permanente, com empréstimos e investimentos voltados à geração de rendimento.
Na prática, os dois fundos têm formatos distintos e podem financiar frentes diferentes de conservação florestal.
Relação bilateral começou no comércio e chegou à agenda climática
A relação entre Brasil e Noruega tem registros desde o século 19.
Segundo documento do governo norueguês, o primeiro navio de registro norueguês chegou ao Rio de Janeiro em 1842 carregado de bacalhau e retornou à Europa com café.
A viagem do Estrela do Norte marcou o início de uma relação comercial que, ao longo das décadas, passou a incluir energia, meio ambiente, pesquisa, política externa e transição verde.
O governo norueguês classifica o Brasil como seu principal parceiro na América Latina.
Mais de 230 empresas norueguesas estão presentes no país, e o mercado brasileiro é apontado pela Noruega como o principal destino de investimentos de suas empresas fora da Europa e dos Estados Unidos, conforme estratégia oficial publicada pelo Ministério das Relações Exteriores norueguês.
A presença de grandes áreas de floresta tropical no território brasileiro está entre os fatores citados pela Noruega para justificar a cooperação ambiental.
A estratégia oficial do país para o Brasil afirma que o território brasileiro abriga um terço das florestas tropicais remanescentes do mundo e que a cooperação bilateral em clima e florestas ocorre desde 2008.
A presidência brasileira do G20 também abriu espaço para novos contatos entre os dois governos.
Em dezembro de 2023, o Brasil convidou a Noruega para participar como país convidado do grupo em 2024.
Na ocasião, Støre classificou o convite como “um grande voto de confiança” e relacionou a presença norueguesa à cooperação bilateral em florestas, clima, energia e segurança alimentar.
Brasil e Noruega passam a dividir liderança no TFFF
A parceria teve novo desdobramento em 17 de abril de 2026, quando a Noruega passou a atuar ao lado do Brasil na liderança do TFFF.
O governo norueguês informou que o país se juntou ao Brasil como copresidente do novo fundo internacional para florestas tropicais, em anúncio feito em Washington, nos Estados Unidos.
Com a mudança, a relação bilateral passou a envolver também a governança de uma iniciativa internacional.
O objetivo declarado do TFFF é mobilizar recursos em escala para remunerar a preservação de florestas tropicais em diferentes países, com pagamentos associados à manutenção da cobertura florestal e ao cumprimento das regras previstas pelo mecanismo.
Para o Brasil, a adesão norueguesa amplia o número de países envolvidos em uma proposta apresentada pelo governo brasileiro na agenda de financiamento climático.
Para a Noruega, o compromisso mantém uma linha de cooperação externa voltada a florestas tropicais, área em que o país atua com o Brasil desde a criação do Fundo Amazônia.
A implementação do TFFF ainda depende de captação adicional, definição operacional e cumprimento das condições estabelecidas pelos financiadores.
O avanço do fundo será medido pela capacidade de transformar compromissos financeiros em pagamentos verificáveis para países que preservam florestas tropicais.

