A trajetória de Miriam Adrielly mostra como uma escolha feita aos 15 anos mudou sua relação com os estudos: com apoio da família, acesso a um computador e preparação online, a estudante avançou em uma competição nacional de matemática até conquistar medalhas na escola pública.
Ela escolheu estudar.
No lugar da festa tradicional de 15 anos, com salão, vestido e convidados, uma adolescente do interior da Paraíba fez um pedido diferente à família. Queria um notebook e um curso online. Não era capricho, nem moda. Era uma tentativa concreta de estudar melhor para a OBMEP, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas.
A escolha parecia pequena para quem olhava de fora. Mas, para Miriam Adrielly Silva de Brito, então aluna do 9º ano da escola pública, aquele presente tinha outro peso. Era a ferramenta que poderia aproximá-la de um objetivo que já havia começado a mudar sua rotina: conquistar uma medalha em uma das maiores competições estudantis do país.
-
769 BMWs de uma vez: navio atraca em cidade de Santa Catarina e leva o porto à marca de 16,2 mil veículos recebidos só em 2026, na retomada das operações de carga
-
Três adolescentes que vendiam camisetas no intervalo das aulas de um colégio de São Paulo criaram em 1988 a Track&Field, e a marca que nasceu de um “hobby” hoje fatura R$ 1,4 bilhão, soma mais de 360 lojas e virou sinônimo de moda esportiva premium no Brasil
-
Em 1957, a mãe dela transformou em camisas um tecido que o marido comprou por engano num armazém do interior de Santa Catarina, e a filha que vendia de caminhãozinho de cidade em cidade levou a Dudalina a faturar R$ 416 milhões e a dominar 80% das exportações brasileiras de camisas
-
Dois irmãos engenheiros da USP começaram em 2011 com um investimento inicial de US$ 100 fazendo joguinhos de celular, e a Wildlife virou o estúdio de games mais valioso da América Latina, avaliado em US$ 3 bilhões, com jogos como “Sniper 3D” somando bilhões de downloads no mundo
O aniversário que virou ponto de virada

Adrielly completou 15 anos em 21 de setembro de 2022. Segundo o IMPA, instituto responsável pela OBMEP, os pais perguntaram se ela queria uma festa ou uma viagem. A resposta surpreendeu: ela preferiu investir nos estudos.
Mesmo assim, a família preparou uma comemoração surpresa para cerca de 15 familiares. O tema não foi princesa, celebridade ou balada. Foi a própria OBMEP, com bolo personalizado e clima de incentivo.
Por trás daquela cena simples havia uma decisão incomum. A estudante havia recebido menção honrosa na 16ª edição da olimpíada e percebeu que podia ir além. O resultado não era uma medalha, mas serviu como sinal. Ela entendeu que, com preparação, poderia disputar de verdade.
Quando a matemática saiu do improviso
Antes, Adrielly contou ao IMPA que passou para a segunda fase sem saber exatamente o tamanho da OBMEP. Depois da menção honrosa, a relação com a matemática mudou.
Em 2022, a preparação ganhou método. Ela passou a estudar provas antigas, acompanhar o curso online e enfrentar o banco de questões. Não era uma rotina glamourosa. Era repetição, tentativa, erro e persistência.
A dificuldade não estava apenas no conteúdo. Estudar para uma olimpíada científica exige tempo, orientação e acesso a materiais. Para muitos alunos da escola pública, essa distância começa antes mesmo da prova. Falta computador, falta internet de qualidade, falta alguém dizendo que aquela disputa também é para eles.
No caso de Adrielly, o notebook virou uma ponte. O curso online virou direção. E a decisão da família transformou o aniversário em investimento.
O bronze veio primeiro

O esforço apareceu na 17ª OBMEP. Adrielly conquistou medalha de bronze, resultado confirmado na lista oficial de premiados da olimpíada. Naquele ano, a competição havia alcançado 18,1 milhões de alunos na primeira fase, segundo o IMPA.
O número ajuda a entender o tamanho da conquista. Não se tratava de uma prova pequena, restrita a poucas escolas. A OBMEP chegou a mais de 54 mil instituições e a quase todos os municípios brasileiros naquela edição.
Para uma estudante de Conceição, no interior da Paraíba, aparecer entre os medalhistas nacionais significava mais do que um certificado. Era a prova de que a escolha feita no aniversário tinha produzido consequência real.
A história não parou na primeira medalha
O detalhe mais forte dessa trajetória veio depois. Adrielly não ficou apenas no bronze.
Na 18ª OBMEP, já como estudante da EEEFM Maestro José Siqueira, em Conceição, ela apareceu na lista oficial com medalha de prata. Na 19ª edição, voltou a conquistar prata, também registrada na premiação nacional.
O percurso ganhou novo peso na 20ª OBMEP 2025. A lista oficial de premiados de escolas públicas registrou Miriam Adrielly Silva de Brito com medalha de ouro.
A sequência mostra uma transformação rara: menção honrosa, bronze, prata, prata e ouro. Não foi um resultado isolado, nem uma história de sorte. Foi continuidade.
Um presente simples expôs uma oportunidade maior
A história de Adrielly chama atenção porque começa com uma escolha comum na vida de muitas famílias: como marcar os 15 anos de uma filha. Mas o desfecho revela algo maior.
Quando uma estudante de escola pública troca uma festa por uma ferramenta de estudo e consegue avançar em uma olimpíada nacional, o caso deixa de ser apenas uma curiosidade bonita. Ele mostra o impacto que acesso, incentivo familiar e oportunidade podem ter quando chegam no momento certo.
O notebook não fez a medalha sozinho. O curso não substituiu o esforço. Mas ambos abriram caminho para que uma adolescente do interior da Paraíba transformasse uma decisão de aniversário em uma trajetória de bronze, prata e ouro.
