No Sertão do Pajeú, estudantes de escola pública criaram o Filtropinha para tratar a manipueira da mandioca, usando materiais simples, impressão 3D e testes ambientais ligados a casas de farinha.
No sertão de Pernambuco, quatro estudantes de uma escola pública técnica criaram um filtro de baixo custo para tratar a manipueira, líquido tóxico gerado na produção da farinha de mandioca.
O projeto, chamado Filtropinha, usa camadas de algodão, papel filtro, carvão ativado feito com cascas de pinha e uma peça produzida em impressora 3D para reduzir a toxicidade do resíduo e permitir seu reaproveitamento.
A ideia nasceu em Carnaíba, no Sertão do Pajeú, a partir de um problema observado em casas de farinha ligadas ao Quilombo do Caroá.
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Nessas unidades, a mandioca é processada para virar alimento e fonte de renda, mas também gera um líquido amarelado que pode contaminar o solo, afetar a água e causar sintomas em trabalhadores expostos, segundo reportagens da Secretaria de Educação de Pernambuco e do Consed.
O projeto foi desenvolvido por Angela Rafaela, Beatriz Vitória de Assis, Eduardo da Silva Oliveira e Luana Noêmia da Silva, estudantes da Escola Técnica Estadual Professor Paulo Freire.
A orientação ficou com os professores Gustavo Santos Bezerra e Carla Robecia.
Em dezembro de 2024, o Filtropinha venceu a 11ª edição do Solve for Tomorrow Brasil, programa da Samsung voltado a soluções de ciência, tecnologia, engenharia e matemática criadas por estudantes de escolas públicas.
Em 2025, o projeto recebeu novo reconhecimento ao vencer o Prêmio Criativos Escola + Natureza na categoria Caatinga, segundo a Secretaria de Educação de Pernambuco.
O caso se destaca pela relação entre um problema local e uma solução criada dentro da escola.
Um resíduo comum na produção da mandioca, muitas vezes descartado sem tratamento, serviu de base para testes com materiais simples, germinação de sementes e desenho de peça em 3D.
Manipueira da mandioca e risco ambiental
A manipueira é o líquido liberado durante o processamento da mandioca.
Nas casas de farinha, ela aparece depois que a raiz é lavada, prensada ou preparada para a produção de farinha.
Apesar de estar ligada a uma cadeia tradicional de alimento e renda, a manipueira pode oferecer riscos quando descartada de forma inadequada.
O líquido contém compostos tóxicos, como ácido cianídrico, e pode causar danos ao ambiente e à saúde de quem trabalha próximo ao resíduo.
Segundo o Consed, trabalhadores da comunidade relataram sintomas como dores de cabeça, tontura e falta de ar.
O professor Gustavo Bezerra afirmou que, em muitos casos, pessoas que atuam nas casas de farinha não usam equipamentos de proteção e desconhecem os riscos do descarte incorreto.
Os efeitos ambientais também foram observados pela equipe durante a pesquisa.
Em relato publicado pelo Solve for Tomorrow Latam, o professor disse que os estudantes identificaram degradação ao redor da casa de farinha visitada, em uma área onde nada crescia perto do local de descarte do rejeito.
A partir dessa observação, os alunos passaram a estudar uma forma de reduzir a carga poluente da manipueira e permitir o reaproveitamento da água usada no processo.
Como funciona o filtro Filtropinha
O Filtropinha é formado por camadas de materiais simples e uma estrutura adaptada para uso em recipientes de armazenamento.
Segundo o Consed, o protótipo tem algodão, papel filtro, farinha de cascas de pinha, carvão ativado produzido a partir da queima dessas cascas e um modelo construído em impressora 3D.
A peça impressa em 3D inclui uma rosca pensada para facilitar a instalação em caixas d’água onde a manipueira fica armazenada nas casas de farinha.
A proposta é que o líquido passe pelo filtro antes de ser descartado ou reaproveitado.
O carvão ativado entra como parte relevante da filtragem por causa de sua estrutura porosa.
De acordo com o material do Solve for Tomorrow Latam, os estudantes testaram o filtro apenas com casca de pinha, depois apenas com carvão, e o melhor resultado foi registrado com a combinação dos dois materiais.
A publicação informa que o protótipo conseguiu reduzir em até 80% o nível de toxicidade da manipueira.
O concentrado retido no processo também pode ser usado na fabricação de adubo orgânico, segundo a descrição do projeto.
Essa etapa explica a lógica de reaproveitamento apresentada pelos estudantes.
A intenção declarada não é apenas tratar um líquido contaminante, mas transformar parte do que antes era rejeito em insumo para uso agrícola.
Teste com sementes e biofertilizante
Um dos testes citados pelo Consed envolveu germinação de sementes.
Com a manipueira tratada pelo Filtropinha, a taxa de germinação chegou a 80%; com o líquido em estado natural, caiu para 20%, segundo as pesquisas realizadas pela equipe.
A estudante Beatriz Vitória, moradora do Quilombo do Caroá, explicou que o solo contaminado pelo descarte incorreto da manipueira dificulta a germinação.
Segundo ela, a manipueira tratada pode ser reutilizada na lavagem das raízes da mandioca, ajudando a evitar nova contaminação do solo.
O projeto também dialoga com o consumo de água nas farinheiras.
De acordo com o Consed, as pesquisas dos estudantes indicaram que essas unidades podem gastar de 15 mil a 20 mil litros de água por produção.
Nesse contexto, o reaproveitamento da água tratada pode reduzir parte da pressão sobre recursos hídricos, especialmente em uma região de clima semiárido.
Como o projeto ainda é apresentado como protótipo, a aplicação em larga escala depende de novos testes, ajustes e implementação nas casas de farinha.
Projeto nasceu no Quilombo do Caroá
O Filtropinha foi pensado para o Quilombo do Caroá, comunidade próxima à escola onde estudam os jovens envolvidos.
Parte das integrantes do grupo tem ligação direta com o território, o que aproximou o projeto de um problema observado na rotina local.
Antes da premiação nacional, os estudantes visitaram casas de farinha, conversaram com produtores e apresentaram o filtro aos moradores.
Segundo Luana Noêmia, o interesse da comunidade apareceu durante essas visitas.
“Visitamos a comunidade quilombola, falamos da problemática do mau descarte da manipueira e apresentamos o nosso filtro como uma possibilidade. Os moradores do Quilombo do Caroá demonstraram muita curiosidade e interesse em aplicar o projeto no dia a dia”, afirmou Luana ao Consed.
Em 3 de dezembro de 2024, a Samsung anunciou o Filtropinha como primeiro colocado na categoria Vencedores Nacionais do Solve for Tomorrow Brasil.
A edição premiou projetos de estudantes de Pernambuco, Bahia, Ceará e São Paulo.
Segundo a Samsung, os vencedores foram escolhidos por uma banca com representantes da empresa, do Cenpec, da OEI, da Unesco no Brasil, da Secretaria da Educação de São Paulo, da ONG Todos Pela Educação, do Colégio Bandeirantes, além de especialistas de universidades e profissionais das áreas de educação, ciência e tecnologia.
Prêmios de inovação estudantil
Em junho de 2025, o projeto recebeu outro reconhecimento.
A Secretaria de Educação de Pernambuco informou que o Filtropinha venceu o Prêmio Criativos Escola + Natureza na categoria Caatinga.
A premiação, ligada ao programa Criativos da Escola, do Instituto Alana, selecionou seis iniciativas, uma para cada bioma brasileiro.
Segundo a Undime, a edição recebeu 1.593 inscrições, mobilizou mais de 60 mil estudantes e mais de 5 mil educadores de 738 municípios.
De acordo com a Secretaria de Educação de Pernambuco, o prêmio incluiu R$ 12 mil para desenvolver o projeto e a oportunidade de participação em atividades relacionadas à COP30, em Belém.
O novo reconhecimento mostra que o Filtropinha continuou em circulação pública após a vitória no Solve for Tomorrow.
Ainda assim, não há confirmação pública segura de que o filtro já tenha sido produzido em larga escala ou instalado de forma permanente nas casas de farinha do Quilombo do Caroá.
Escola técnica e ciência aplicada
A ETE Professor Paulo Freire aparece nas reportagens como uma escola com histórico de projetos científicos.
O Consed cita iniciativas anteriores ligadas a fralda biodegradável e a uma luva para estabilizar tremores em pessoas com Parkinson.
No caso do Filtropinha, o projeto nasceu dentro da disciplina Produções Sustentáveis, que trabalha problemas do entorno dos estudantes e busca soluções alternativas.
A proposta levou os alunos a unir química, educação ambiental, tecnologia e observação de campo.
O professor Gustavo Bezerra afirmou, em texto publicado pela Secretaria de Educação de Pernambuco, que o prêmio ajudou os estudantes a enxergar um problema negligenciado na própria comunidade e a propor uma alternativa economicamente viável.
A estudante Angela Rafaela, moradora do Quilombo do Caroá, também relacionou a conquista ao território.
Segundo ela, a expectativa futura era implementar o filtro nas casas de farinha da comunidade.
