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A 5.000 metros de profundidade, onde não há luz solar, pesquisadores acharam DNA antigo preservado na lama do Atlântico Sul e descobriram sinais de organismos que não batiam com os registros conhecidos

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Escrito por Geovane Souza Publicado em 09/07/2026 às 15:27 Atualizado em 09/07/2026 às 15:36
Pesquisadores encontram DNA antigo em sedimentos do Atlântico Sul a 5.000 metros de profundidade e ampliam estudo sobre biodiversidade marinha profunda
Pesquisadores encontram DNA antigo em sedimentos do Atlântico Sul a 5.000 metros de profundidade e ampliam estudo sobre biodiversidade marinha profunda
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Sedimentos retirados de planícies abissais revelaram fragmentos genéticos preservados por até 32,5 mil anos, indicando que o fundo do oceano guarda uma parte da biodiversidade que a ciência ainda não consegue enxergar apenas por fósseis

Cientistas encontraram DNA antigo preservado em sedimentos do Atlântico Sul, a cerca de 5.000 metros de profundidade, em uma área onde a luz solar não chega e a pressão da água torna qualquer coleta uma operação complexa.

O material estava em camadas de lama acumuladas no fundo do mar e foi associado a organismos unicelulares, principalmente foraminíferos e radiolários.

O trabalho, publicado originalmente na revista Biology Letters, analisou quatro testemunhos de sedimentos retirados de profundidades abissais no Atlântico Sul e identificou DNA eucariótico em camadas com até 32,5 mil anos, segundo o conjunto de dados depositado na plataforma científica Dryad.

O achado mostra que o fundo do oceano funciona como um arquivo biológico, capaz de preservar pistas de seres que viveram em períodos antigos e que nem sempre deixam marcas claras no registro fóssil.

A lama retirada do fundo do mar virou um arquivo genético de milhares de anos

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Veículo operado remotamente com amostras coletadas, imagem capturada pelo ROV Odysseus. (Créditos: Microbial Stowaways)

A equipe trabalhou com sedimentos compactados, retirados em colunas do leito oceânico. Esse tipo de amostra permite observar uma sequência temporal, já que as camadas mais profundas costumam guardar material mais antigo, acumulado lentamente ao longo de milhares de anos.

De acordo com o estudo, os pesquisadores buscaram fragmentos de DNA ligados a dois grupos de microrganismos marinhos, os foraminíferos e os radiolários.

Ambos são unicelulares, mas têm papel importante na reconstrução da história dos oceanos porque algumas espécies formam estruturas minerais que podem fossilizar.

A diferença é que o DNA sedimentar também alcança organismos que não entram bem no registro fóssil. Isso muda a leitura do passado marinho, porque revela grupos que poderiam passar despercebidos se os cientistas dependessem apenas de carapaças, conchas microscópicas ou vestígios minerais.

O que apareceu no DNA não batia totalmente com os bancos de dados modernos

Ao comparar as sequências recuperadas com bancos de dados genéticos, os pesquisadores encontraram sinais de diversidade que não correspondem perfeitamente aos registros conhecidos.

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Cientistas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), manuseiam um núcleo de sedimento coletado do fundo do mar. (Foto: Art Howard)

Isso não significa que cada fragmento represente uma espécie nova formalmente descrita, mas indica linhagens pouco documentadas ou ausentes das bases usadas como referência.

Como informou a revista Science em 2013, o trabalho identificou DNA de pequenos organismos unicelulares que viveram há até 32,5 mil anos no Atlântico Sul, em uma área a 5.000 metros abaixo da superfície.

A reportagem também destacou que parte das sequências não aparecia no registro fóssil tradicional, justamente porque muitos desses organismos não deixam fósseis fáceis de reconhecer.

Esse detalhe é o que torna o achado relevante para a oceanografia. A lama do fundo do mar deixa de ser apenas sedimento e passa a ser uma espécie de biblioteca natural, com dados sobre biodiversidade, temperatura, mudanças ambientais e composição dos ecossistemas antigos.

Por que o DNA conseguiu resistir em um ambiente tão extremo

A preservação do DNA no fundo do oceano depende de uma combinação de fatores. A temperatura baixa, a ausência de luz e a estabilidade física das planícies abissais reduzem parte dos processos que degradam o material genético.

Nas profundezas, a decomposição é mais lenta do que em ambientes quentes e iluminados. A lama fina também ajuda a proteger fragmentos orgânicos, isolando parte desse material do contato direto com correntes, oxigênio e microrganismos que acelerariam a degradação.

A NOAA explica que o DNA ambiental, conhecido como eDNA, é o material genético liberado por organismos no ambiente, por meio de partículas de tecido, muco, fezes ou outros vestígios. Depois de coletadas, as amostras passam por filtragem, preservação e sequenciamento para comparação com bancos de dados genéticos.

No caso do Atlântico Sul, a importância está no uso desse princípio em sedimentos antigos. Em vez de procurar apenas DNA presente na água atual, os cientistas analisam camadas acumuladas no passado, o que permite reconstruir parte da vida marinha em períodos anteriores.

A descoberta mostra o quanto o oceano profundo ainda é pouco conhecido

O oceano cobre cerca de 70% da superfície da Terra, tem profundidade média de 3.682 metros e segue pouco explorado em detalhe. Segundo a NOAA, até abril de 2026, 28,7% do fundo oceânico global havia sido mapeado com tecnologia moderna de alta resolução, e menos de 0,001% do fundo do oceano profundo tinha sido observado visualmente.

Esse dado ajuda a explicar por que uma amostra de lama pode revelar tanta coisa. O oceano profundo é maior do que qualquer bioma terrestre, mas ainda depende de navios, veículos operados remotamente, sensores, robôs e análises laboratoriais caras para ser estudado com precisão.

A leitura genética amplia esse alcance. Ela não substitui câmeras, redes, perfurações ou microscópios, mas acrescenta uma camada de informação que pode detectar organismos invisíveis em vídeo ou ausentes das amostras físicas tradicionais.

O DNA sedimentar também pode ajudar a reconstruir mudanças climáticas antigas

Um artigo de revisão publicado na Frontiers in Marine Science em 2023 descreve o DNA antigo em sedimentos marinhos como uma ferramenta para reconstruir a história dos ecossistemas ao longo do tempo geológico.

O texto ressalta que o método amplia a análise para além dos organismos preservados como fósseis, embora ainda existam limitações técnicas e risco de interpretações erradas quando as amostras não são bem controladas.

Esse cuidado é necessário porque o DNA antigo costuma estar fragmentado. Ele pode se misturar a material mais recente, sofrer degradação química ou ser contaminado durante coleta e laboratório. Por isso, estudos desse tipo precisam de protocolos rígidos e comparação com diferentes linhas de evidência.

Mesmo com essas limitações, os sedimentos abissais podem guardar sinais de mudanças na temperatura da água, na composição do plâncton e na circulação oceânica. Cada camada funciona como uma fotografia parcial de um período, com resolução suficiente para mostrar mudanças que o registro fóssil sozinho não alcança.

O avanço da mineração submarina torna esse mapeamento mais urgente

O interesse por minerais no fundo do mar aumentou nos últimos anos, principalmente por metais usados em baterias, equipamentos eletrônicos e tecnologias de energia. Esse avanço pressiona áreas profundas que ainda não foram mapeadas biologicamente com o mesmo detalhe que suas reservas minerais.

A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos lista publicações sobre mineração, proteção ambiental e uso de DNA ambiental para ampliar o conhecimento da biodiversidade em áreas profundas.

Em 2024, o órgão incluiu entre seus documentos um policy brief sobre o potencial dos estudos de DNA ambiental para melhorar a compreensão da vida no fundo do mar.

O problema prático é simples. Se uma área for revolvida antes de ter sua biodiversidade estudada, espécies microscópicas podem desaparecer sem nome, sem registro e sem função ecológica compreendida. O DNA antigo ajuda a mostrar que até sedimentos aparentemente pobres podem carregar informação biológica valiosa.

O fundo do Atlântico Sul não revelou monstros, mas mostrou algo talvez mais raro

O achado no Atlântico Sul chama atenção justamente por contrariar a ideia de que as planícies abissais são vazias. A 5.000 metros de profundidade, onde não há luz e a pressão limita a presença humana, o sedimento preservou rastros genéticos de organismos antigos e pouco conhecidos.

A descoberta também reforça uma mudança de método na ciência marinha. Em vez de depender apenas do que pode ser visto, fotografado ou fossilizado, os pesquisadores passam a ler fragmentos químicos deixados por seres minúsculos. É uma investigação lenta, de laboratório, mas capaz de abrir novas perguntas sobre evolução, clima e biodiversidade.

A lama escura do fundo do mar, retirada longe da costa e abaixo de quilômetros de água, mostrou que a história da vida marinha ainda está incompleta. E parte dela pode estar guardada em camadas finas de sedimento, esperando tecnologia suficiente para ser lida.

Deixe seu comentário sobre essa descoberta. Você acha que o fundo do oceano deve ser mapeado antes de qualquer avanço de mineração submarina? A ciência ainda conhece pouco das áreas profundas, e a opinião dos leitores ajuda a ampliar esse debate.

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Geovane Souza

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