Pesquisas experimentais indicam que verbalizar nomes, etapas e informações pode modificar o desempenho em tarefas específicas de atenção, percepção e memória de trabalho, ajudando a explicar por que a fala autodirigida aparece no cotidiano sem representar, por si só, falta de racionalidade.
Ao lembrar uma tarefa, procurar um objeto ou organizar mentalmente os próximos passos, muitas pessoas recorrem à própria voz sem perceber que esse comportamento pode cumprir uma função cognitiva específica, relacionada às exigências da atividade realizada naquele momento.
Longe de significar que qualquer pensamento pronunciado melhora o desempenho, as evidências mostram que a utilidade da fala autodirigida depende da correspondência entre as palavras utilizadas, o objetivo da tarefa e as condições controladas em cada experimento.
Falar sozinho pode ajudar na busca por objetos
Publicado em junho de 2012 no periódico Quarterly Journal of Experimental Psychology, um estudo de Gary Lupyan e Daniel Swingley investigou se repetir o nome de determinado objeto poderia alterar o desempenho de participantes durante uma tarefa de busca visual.
-
Cientistas pedem que todos se preparem para um fenômeno sem precedentes no Ártico: o degelo está desencadeando uma transformação química alarmante em áreas preservadas, e os primeiros sinais já preocupam pesquisadores do mundo inteiro
-
China colocou 198 pernas robóticas sob uma escola de 7,6 mil toneladas e fez o prédio caminhar 62 metros em 18 dias, girando a construção histórica como se uma estrutura de concreto tivesse ganhado pés para escapar da demolição
-
Distribuidora crava sobre estreia de ‘Dark Horse’, filme de Bolsonaro, em 650 salas de cinema com 99% das cópias dubladas
-
Menino de 9 anos que aguentava só 6 minutos de prancha na aula de educação física treinou sozinho por 6 meses, sem precisar de incentivo dos pais, até quebrar o recorde mundial infantil com 61 minutos e 5 segundos
Enquanto procuravam itens comuns apresentados pelos pesquisadores, os voluntários pronunciavam, em alguns momentos, o nome do alvo desejado, permitindo que os autores comparassem os resultados da verbalização com aqueles obtidos em situações nas quais a procura ocorria silenciosamente.
Os dados indicaram que a localização se tornava mais fácil principalmente quando havia uma ligação clara entre a palavra falada e a aparência do item procurado, favorecendo o reconhecimento de características visuais compatíveis com o alvo apresentado.
Nesse contexto, os rótulos verbais podem influenciar temporariamente o processamento visual, tornando determinados traços mais acessíveis e ajudando a direcionar a atenção para elementos que correspondem ao objeto mencionado durante a realização da tarefa.
Esse efeito, contudo, não apareceu de forma automática em todas as condições analisadas, pois a utilidade da verbalização diminuía quando o nome pronunciado não representava adequadamente as características visuais do item que deveria ser localizado.
Em situações com maior distância entre a palavra e a aparência do alvo, a fala chegou a prejudicar o desempenho, resultado que reforça a importância da relação entre o conteúdo verbalizado e a informação visual disponível.
Fala privada influencia a memória de trabalho
Outra investigação, publicada em novembro de 2023 na revista científica Consciousness and Cognition, examinou a associação entre fala privada e desempenho cognitivo em adultos jovens, concentrando a análise em uma tarefa específica de memória de trabalho visuoespacial.
Conduzido por Xinqi Guo e Karen Dobkins, da Universidade da Califórnia em San Diego, o estudo reuniu 103 participantes com idade média pouco superior a 20 anos e comparou o desempenho obtido em diferentes condições experimentais.
Em uma das etapas, os voluntários receberam autorização para falar consigo mesmos enquanto executavam a atividade, ao passo que, na outra condição, foram orientados a permanecer em silêncio durante a manutenção e a manipulação das informações apresentadas.
O desempenho foi melhor quando os participantes puderam utilizar a fala privada, especialmente nas etapas em que produziram maior quantidade de verbalizações enquanto acompanhavam mentalmente os elementos visuais exigidos pela tarefa proposta pelos pesquisadores.
Para modificar o nível de dificuldade, os autores ajustaram a facilidade com que as imagens poderiam ser nomeadas, observando se essa característica alteraria a relação entre a verbalização e os resultados obtidos pelos participantes ao longo da experiência.
Ainda assim, os efeitos favoráveis associados à fala privada não dependeram dessa variação específica, segundo os resultados apresentados, o que manteve a relação observada entre o uso da própria voz e o desempenho na atividade analisada.
Entre os maiores benefícios registrados estavam aqueles alcançados por participantes que falaram mais durante o experimento e por pessoas que relataram recorrer com frequência, no cotidiano, a verbalizações voltadas ao gerenciamento de tarefas e comportamentos.
Embora tenham mencionado possíveis implicações para contextos educacionais e instrucionais, os pesquisadores não afirmaram que a estratégia produza os mesmos resultados em qualquer situação, nem que possa ser aplicada indistintamente a diferentes formas de aprendizagem.
Por avaliar uma atividade cognitiva delimitada, o estudo não permite transformar a melhora observada em uma regra universal, aplicável a toda pessoa, tarefa ou circunstância em que alguém decida pronunciar os próprios pensamentos em voz alta.
Como as palavras podem orientar o pensamento
Quando uma informação interna é convertida em linguagem audível, a pessoa passa a lidar não apenas com a representação mental da tarefa, mas também com o estímulo sonoro produzido pela própria voz durante a execução da atividade.
Na busca visual, a palavra pode destacar características relacionadas ao objeto procurado e orientar a atenção, enquanto, na memória de trabalho, a verbalização pode acompanhar a manutenção das informações necessárias para completar a tarefa proposta.
Isso não significa, porém, que qualquer tipo de fala produza o mesmo efeito, já que os experimentos indicam a importância do conteúdo verbalizado e de sua relação direta com aquilo que precisa ser localizado, lembrado ou organizado.
Comentar uma sequência de ações, repetir o nome de um item ou descrever uma informação pode servir como apoio em determinadas circunstâncias, desde que as palavras contribuam para o objetivo em vez de introduzirem estímulos incompatíveis.
A utilidade da fala autodirigida depende, portanto, da tarefa e da precisão das palavras escolhidas, uma vez que a verbalização adequada pode orientar o processamento, enquanto uma expressão pouco relacionada ao alvo também pode desviar a atenção.
O alcance das pesquisas sobre falar sozinho
As evidências ajudam a afastar a interpretação de que falar sozinho seja, isoladamente, uma manifestação de irracionalidade, pois os estudos trataram esse comportamento como uma estratégia cognitiva mensurável durante tarefas comuns envolvendo atenção, percepção e memória.
Ao mesmo tempo, os experimentos não investigaram todos os motivos pelos quais uma pessoa conversa consigo mesma e tampouco autorizaram conclusões gerais sobre personalidade, comportamento social, autoconhecimento ou condições relacionadas à saúde mental.
Também não ficou demonstrado, de maneira ampla, que o hábito aumente confiança, melhore o controle emocional ou produza benefícios idênticos em qualquer indivíduo, já que os resultados se restringem às atividades e às condições efetivamente avaliadas.
Mais do que o simples ato de falar, o conteúdo da verbalização, a natureza da tarefa e a correspondência entre palavra e objetivo parecem determinar o efeito observado, estabelecendo limites importantes para a interpretação dos achados científicos.
Ao precisar localizar um objeto, acompanhar uma sequência de etapas ou manter informações ativas por alguns instantes, até que ponto dizer em voz alta aquilo que está sendo procurado ou organizado poderia modificar seu desempenho?
