Oficinas no Morro do Turano ensinam tecnologias de baixo custo que combatem a crise climática e ampliam o conforto térmico nas periferias do Rio de Janeiro
No alto do Morro do Turano, na zona norte do Rio de Janeiro, a crise climática deixou de ser um conceito abstrato para se tornar um desafio cotidiano. No entanto, em vez de esperar soluções externas, moradores transformaram suas próprias lajes em verdadeiros laboratórios de tecnologia sustentável. Com tinta térmica caseira, resfriamento com garrafas PET e pluviômetros artesanais, a comunidade desenvolve respostas criativas, eficientes e de baixo custo para enfrentar o aumento das temperaturas.
A iniciativa ganhou força durante a 1ª Semana Turano no Clima de Responsa, promovida no território com apoio do campeonato internacional de vela SailGP e do projeto Não Estamos no Mesmo Barco, da equipe Mubadala Brazil SailGP Team. Além disso, organizações como Nas Marés e Favela Radical participaram ativamente da mobilização.
A informação foi divulgada pelo portal Terra, em reportagem assinada por Marcos Zibordi, que detalha como oficinas práticas ensinaram moradores a aplicar tecnologias sustentáveis acessíveis e com eficiência comprovada.
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Tinta térmica caseira reduz até 25% da temperatura
Entre as soluções apresentadas, a tinta térmica artesanal chamou atenção pelo impacto imediato. Segundo Juliana Poncioni, fundadora da organização Nas Marés, a pintura branca aplicada corretamente pode reduzir em até 25% a temperatura interna dos ambientes.
A receita é simples:
- 2 kg de cimento
- 8 kg de cal
- 500 ml de cola Cascorez
- 10 litros de água
A mistura rende aproximadamente 12 metros quadrados e custa até dez vezes menos do que produtos comerciais similares. Além disso, após duas demãos, cria-se uma camada eficiente de isolamento térmico nas lajes expostas ao sol intenso.
Para muitas famílias da comunidade, essa solução representa mais do que conforto. Como destaca Nancy Regina Rios Lucas, moradora do Turano, nem todos têm condições de comprar um ar-condicionado. Portanto, alternativas sustentáveis e econômicas tornam-se essenciais para enfrentar ondas de calor cada vez mais frequentes.
Eco cooler com garrafa PET: resfriamento passivo e criatividade popular
Outra tecnologia sustentável ensinada nas oficinas foi o chamado “eco cooler”. Inspirado em modelos utilizados em regiões da África e da Índia, o sistema utiliza o princípio do resfriamento passivo.
Tradicionalmente, o método emprega cones de cerâmica instalados nas paredes. No entanto, no Turano, a solução ganhou versão ainda mais acessível: garrafas PET cortadas.
O processo funciona assim:
- As pontas das garrafas são fixadas em uma placa.
- A parte mais larga fica voltada para fora.
- A parte estreita, sem tampa, fica voltada para dentro da residência.
Quando o vento atravessa o gargalo, sua velocidade aumenta, o que reduz a temperatura do ar que entra no ambiente. Consequentemente, o espaço interno torna-se mais fresco sem consumo de energia elétrica.
Além de reduzir custos, essa tecnologia sustentável fortalece a autonomia da comunidade. Moradores aprendem, aplicam e replicam o conhecimento, multiplicando os benefícios.
Pluviômetro artesanal melhora prevenção contra enchentes

Foto: Divulgação/Nas Marés
A crise climática também se manifesta nas chuvas intensas. Por isso, durante a Semana Turano no Clima de Responsa, moradores construíram pluviômetros utilizando garrafas PET para medir a intensidade da precipitação.
O resultado surpreendeu. Enquanto o Centro de Operações do Rio (COR) realiza monitoramento por radar, não há medição específica dentro das comunidades. Dessa forma, os dados oficiais nem sempre refletem a realidade local.
No dia da oficina, choveu. E, graças ao pluviômetro artesanal, os moradores perceberam rapidamente que o volume de água indicava risco maior do que o previsto. Como consequência, tomaram providências imediatas: protegeram eletrodomésticos, armazenaram alimentos e evitaram deslocamentos desnecessários. Pouco depois, a energia elétrica foi interrompida.
Segundo Juliana Poncioni, o monitoramento local transforma percepção em dados concretos e fortalece a capacidade de resposta da comunidade.
Favela e inovação climática: tecnologia nasce da necessidade

Historicamente, periferias brasileiras enfrentam de forma mais intensa os impactos das mudanças climáticas. Casas com pouca ventilação, lajes expostas e infraestrutura limitada ampliam os efeitos do calor extremo e das chuvas intensas.
Entretanto, diante desse cenário, surgem soluções inovadoras. Ao invés de depender exclusivamente de políticas públicas externas, comunidades desenvolvem tecnologias de baixa complexidade e alto impacto social.
Além disso, a mobilização comunitária gera engajamento, aprendizado coletivo e valorização do conhecimento popular. Como ressalta Antônio Marcos e outros agentes locais envolvidos, cada objeto artesanal carrega também memória, cultura e pertencimento.
Sustentabilidade acessível pode reduzir desigualdades climáticas
As ações no Morro do Turano demonstram que tecnologia sustentável não precisa ser cara ou sofisticada. Pelo contrário: quando conhecimento técnico encontra criatividade popular, surgem soluções escaláveis e replicáveis.
Em um contexto global de aquecimento acelerado, iniciativas como essa apontam caminhos possíveis para outras comunidades urbanas. Portanto, investir em educação ambiental prática e tecnologia de baixo custo pode se tornar estratégia central para reduzir desigualdades climáticas no Brasil.
Mais do que adaptar casas, o projeto fortalece autonomia, consciência coletiva e resiliência comunitária.
Você acredita que soluções sustentáveis de baixo custo como essas poderiam ser implementadas na sua cidade para enfrentar o calor extremo?


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