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Enquanto secas históricas ameaçam plantações e cidades, Marrocos acelera plano bilionário para transformar água do oceano em água potável, construir a maior usina de dessalinização da África e abastecer milhões até 2030

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 18/06/2026 às 17:00
Atualizado em 18/06/2026 às 17:05
Assista o vídeoUsina de dessalinização no Marrocos com estruturas industriais, oceano ao fundo e parque eólico utilizado para geração de energia renovável.
Marrocos amplia investimentos em dessalinização e energia renovável para garantir abastecimento de água diante das mudanças climáticas.
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Com investimentos que ultrapassam US$ 14 bilhões e uma estratégia baseada em dessalinização, energia renovável e grandes obras de infraestrutura hídrica, o país africano busca enfrentar os efeitos das mudanças climáticas e reduzir sua dependência das chuvas em uma das regiões mais vulneráveis à escassez de água no planeta.

À medida que o mundo enfrenta os impactos cada vez mais severos das mudanças climáticas, a busca por soluções para garantir o abastecimento de água tornou-se uma prioridade estratégica para diversos países. Entre eles, o Marrocos desponta como um dos exemplos mais ambiciosos da atualidade ao apostar na dessalinização da água do mar como ferramenta central para enfrentar a escassez hídrica.

Segundo informações divulgadas pela CNN, o governo marroquino pretende obter cerca de 60% de toda a sua água potável a partir do oceano até 2030. A iniciativa integra um amplo plano nacional que busca aumentar a segurança hídrica, fortalecer a agricultura e preparar o país para um futuro marcado por secas mais frequentes e temperaturas mais elevadas.

A estratégia ganhou ainda mais relevância após o país enfrentar uma das piores secas de sua história recente. Embora o governo tenha declarado em janeiro o fim de um período de estiagem que durou sete anos, graças às fortes chuvas registradas durante o inverno, as autoridades consideram que a crise hídrica deixou de ser um evento excepcional para se tornar uma realidade permanente.

Para o ministro de Equipamentos e Água do Marrocos, Nizar Baraka, depender exclusivamente das chuvas e dos reservatórios já não é suficiente diante da transformação estrutural observada no ciclo climático da região.

Marrocos quer transformar o Atlântico em fonte de água potável

O plano marroquino consiste em utilizar a água do Oceano Atlântico para abastecer as cidades costeiras e parte do setor agrícola, enquanto a água armazenada em barragens e reservatórios continuará sendo direcionada para regiões do interior mais vulneráveis à seca.

No centro dessa estratégia está uma gigantesca usina de dessalinização em construção a aproximadamente 40 quilômetros ao sul de Casablanca.

Avaliado em cerca de US$ 650 milhões, o empreendimento deverá se tornar a maior usina de dessalinização da África e, segundo seus desenvolvedores, a maior instalação do mundo alimentada integralmente por fontes renováveis de energia.

A eletricidade utilizada será fornecida por um parque eólico com capacidade de 360 megawatts localizado no Saara Ocidental. A primeira fase do projeto está prevista para entrar em operação em fevereiro de 2027, enquanto a segunda etapa deverá ser concluída em agosto de 2028.

Quando atingir sua capacidade máxima, a planta será capaz de fornecer aproximadamente 79 bilhões de galões de água potável por ano. O volume será suficiente para abastecer cerca de 7,5 milhões de pessoas na região de Casablanca, além de irrigar aproximadamente 20 mil acres de áreas agrícolas.

O projeto integra um programa muito maior. Atualmente, o Marrocos já opera 17 usinas de dessalinização responsáveis por produzir cerca de 108 bilhões de galões de água por ano, um volume nove vezes superior ao registrado em 2021. Outras 11 unidades estão em construção ou em fase de planejamento.

Além das usinas, o país também investe na construção de barragens, reaproveitamento de águas residuais e criação de uma ampla rede de dutos conhecida como “rodovias hídricas”, destinada a transportar excedentes de água das regiões mais úmidas para áreas mais secas.

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Energia renovável busca reduzir custos e impactos ambientais

Embora a dessalinização seja considerada uma solução promissora para regiões áridas, a tecnologia ainda enfrenta desafios importantes.

A maioria das instalações modernas utiliza o processo de osmose reversa da água do mar, conhecido internacionalmente pela sigla SWRO. Nesse sistema, bombas de alta pressão forçam a água através de membranas especiais que removem o sal e outras impurezas.

O principal problema é o elevado consumo de energia. Em muitos países, as usinas funcionam utilizando combustíveis fósseis, o que aumenta as emissões de carbono e gera críticas ambientais.

Para evitar esse cenário, o governo marroquino decidiu integrar os novos projetos aos seus parques solares e eólicos. A medida busca reduzir os custos operacionais ao longo do tempo e diminuir significativamente a pegada de carbono associada à produção de água potável.

Em 2024, pouco mais de um quarto da eletricidade consumida no país já era proveniente de fontes renováveis.

No entanto, a questão ambiental não se resume apenas ao consumo energético.

O processo gera grandes quantidades de salmoura, uma mistura altamente concentrada de sal e resíduos químicos que permanece após a retirada da água doce. Para cada galão produzido, podem ser gerados entre um e um galão e meio de salmoura.

Especialistas alertam que o descarte inadequado desse material pode causar danos significativos aos ecossistemas marinhos, reduzindo níveis de oxigênio e afetando espécies essenciais para o equilíbrio dos oceanos.

A nova usina de Casablanca contará com um sistema de descarga projetado para diluir a salmoura antes de sua liberação no mar, reduzindo os riscos ambientais associados à operação.

Agricultura pode ser a principal beneficiada — mas há desafios

O setor agrícola é responsável por aproximadamente 87% do consumo de água em Marrocos e emprega quase um terço da força de trabalho nacional.

Durante os sete anos de seca, a produção de cereais caiu pela metade em diversas regiões, provocando perdas econômicas significativas e aumento do desemprego rural.

Nesse contexto, a dessalinização surge como uma alternativa para garantir o fornecimento de água para áreas agrícolas estratégicas.

Na região de Souss-Massa, responsável por cerca de 85% das exportações marroquinas de frutas e vegetais, a usina de Chtouka Aït Baha já abastece aproximadamente 1.500 agricultores.

O impacto tem sido expressivo. Agricultores locais relatam expansão da produção e aumento das exportações graças ao fornecimento contínuo de água dessalinizada.

Apesar disso, especialistas alertam que os custos permanecem elevados.

Youssef Brouziyne, representante regional para Oriente Médio e Norte da África do Instituto Internacional de Gestão da Água (IWMI), afirmou à CNN que a dessalinização ainda pode custar entre 1,5 e 4 vezes mais do que fontes tradicionais de água doce.

Segundo ele, a tecnologia funciona especialmente bem para cultivos de alto valor agregado, como frutas e hortaliças destinadas à exportação. Já para culturas básicas, como trigo e cereais, os custos ainda representam um obstáculo importante.

Por essa razão, especialistas defendem a adoção de subsídios direcionados, sistemas híbridos que combinem diferentes fontes de água e investimentos contínuos em inovação tecnológica para ampliar o acesso dos pequenos produtores.

Modelo marroquino desperta interesse em toda a África

A experiência do Marrocos tem chamado a atenção de diversos países africanos que enfrentam desafios semelhantes.

Durante o Congresso Mundial da Água realizado em Marrakech, em dezembro do ano passado, representantes do governo defenderam que a integração entre segurança hídrica, segurança energética e produção de alimentos pode servir como referência para outras nações.

A expansão da dessalinização já é visível em diferentes partes do continente. A Argélia opera um dos maiores programas de dessalinização do Mediterrâneo, enquanto o Egito amplia rapidamente sua capacidade instalada.

O Senegal também assinou recentemente um contrato de aproximadamente US$ 800 milhões para construir uma nova usina alimentada por energia renovável nas proximidades de Dakar.

Países como Namíbia e África do Sul já utilizam a tecnologia há mais de uma década e seguem desenvolvendo projetos menores movidos por energia solar.

Especialistas acreditam que a combinação entre redução dos custos tecnológicos e expansão das energias renováveis poderá tornar a dessalinização cada vez mais acessível nos próximos anos.

Ainda assim, os desafios permanecem.

Para Youssef Brouziyne, a verdadeira segurança hídrica não depende apenas da produção de mais água, mas da capacidade de gerar resiliência econômica, sustentabilidade ambiental e acesso equitativo aos recursos disponíveis.

Em outras palavras, a tecnologia pode representar uma parte importante da solução, mas seu sucesso dependerá da forma como governos, empresas e agricultores conseguirão equilibrar custos, impactos ambientais e benefícios sociais.

Diante do avanço das mudanças climáticas e da crescente pressão sobre os recursos hídricos globais, a aposta do Marrocos pode se transformar em um dos maiores laboratórios mundiais para o futuro da gestão da água.

E você, acredita que a dessalinização poderá se tornar uma solução viável para enfrentar a escassez de água em larga escala nas próximas décadas?

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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