Programa criado por fabricante nacional transforma resíduos industriais em novos produtos, reduz custos logísticos, fortalece a economia circular e mostra como a sustentabilidade pode gerar valor econômico real para empresas de diversos setores.
Enquanto governos, indústrias e grandes corporações buscam alternativas para reduzir o impacto ambiental de suas operações, uma empresa brasileira desenvolveu um modelo de logística reversa que vem chamando a atenção por unir sustentabilidade, eficiência operacional e viabilidade econômica.
A fabricante EkoPalete criou um sistema capaz de transformar pallets plásticos quebrados de qualquer marca em novos ativos industriais, evitando o descarte inadequado de toneladas de plástico e reduzindo significativamente o desperdício na cadeia logística. Segundo informações divulgadas pela revista especializada EmbalagemMarca, a iniciativa surgiu em 2017 e hoje já processa cerca de 80 toneladas de plástico por mês.
A proposta, conhecida como programa “Troca 7:1”, nasceu de uma necessidade prática observada dentro das operações industriais e acabou se tornando um dos exemplos mais interessantes de economia circular aplicada ao setor de embalagens e movimentação de cargas no Brasil.
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Como surgiu o programa Troca 7:1 e por que ele se tornou referência
De acordo com Cassio Drudi Junior, CEO da EkoPalete, a ideia não nasceu em uma reunião estratégica ou em um projeto de sustentabilidade planejado por consultorias especializadas.
Tudo começou quando um cliente que enfrentava elevados índices de quebra de pallets perguntou à empresa se seria possível recomprar os materiais danificados.
A pergunta levou a EkoPalete a enxergar uma oportunidade diferente.
Em vez de simplesmente comprar os pallets inutilizados, a empresa criou um modelo de troca. A regra é simples: para cada sete pallets plásticos quebrados entregues pelo cliente, independentemente da marca ou fabricante original, a empresa fornece um pallet completamente novo.
Segundo o executivo, a proporção de sete para um não foi definida aleatoriamente.
Ela representa o equilíbrio econômico necessário para cobrir todas as etapas do processo, incluindo coleta, triagem, moagem, regranulação do plástico, fabricação do novo pallet e manutenção da operação.
Na prática, o sistema permite que materiais considerados sem valor retornem à cadeia produtiva, transformando um passivo ambiental em matéria-prima reutilizável.
Além disso, o cliente passa a contar com uma solução para um problema recorrente de descarte, ao mesmo tempo em que renova parte de seus ativos logísticos.
Como a empresa consegue reciclar pallets de diferentes fabricantes
Um dos pontos mais desafiadores do programa é a capacidade de receber pallets provenientes de diferentes fabricantes e compostos por materiais distintos.
Segundo a empresa, aproximadamente 90% dos pallets recebidos vêm de clientes que já mantêm relacionamento comercial com a EkoPalete. Isso permite maior controle sobre a origem dos materiais e reduz significativamente os riscos de contaminação.
A triagem inicial é realizada manualmente por profissionais treinados para identificar diferentes tipos de polímeros utilizados na fabricação dos pallets.
Quando existem dúvidas sobre a composição do material, a empresa utiliza equipamentos portáteis capazes de identificar polímeros como polipropileno (PP), polietileno (PE) e polietileno de alta densidade (PEAD).
Após essa etapa, os materiais seguem para reciclagem e reaproveitamento industrial.
Segundo Cassio Drudi Junior, parte relevante da matéria-prima utilizada na fabricação dos novos pallets também provém do retorno de pallets seminovos importados que já passaram pelo ciclo operacional dos clientes.
O resultado é um sistema com rastreabilidade mais elevada e controle rigoroso da qualidade do material reciclado.
A empresa afirma que a fabricação dos pallets segue os parâmetros técnicos estabelecidos pela norma NBR 16242:2020, utilizada como referência para o produto acabado.
Economia circular sem elevar custos logísticos
Um dos principais desafios enfrentados por programas de logística reversa em todo o mundo está relacionado ao custo do transporte dos materiais devolvidos.
Frequentemente, o frete de retorno torna a operação economicamente inviável.
Segundo o CEO da EkoPalete, foi justamente esse problema que levou a empresa a desenvolver uma estratégia diferente.
Em vez de criar uma estrutura exclusiva para coletar pallets quebrados, a companhia passou a utilizar rotas logísticas que já existiam.
Na Grande São Paulo, por exemplo, os caminhões que realizam entregas também recolhem os pallets destinados à reciclagem durante o mesmo trajeto.
Dessa forma, o custo adicional da coleta torna-se praticamente inexistente.
Já para clientes localizados em outras regiões do país, a logística reversa costuma ser realizada por meio das próprias transportadoras utilizadas pelas indústrias.
Isso evita a necessidade de criar uma frota específica para o retorno dos materiais.
Segundo a empresa, a inteligência do modelo está justamente em aproveitar estruturas já existentes, eliminando desperdícios operacionais e tornando o programa financeiramente sustentável.
Setores rigorosos também aderem ao modelo de reciclagem
A utilização de materiais reciclados costuma gerar dúvidas especialmente em segmentos altamente regulados, como as indústrias alimentícia e farmacêutica.
Entretanto, segundo a EkoPalete, a utilização dos pallets reciclados não compromete as exigências sanitárias desses setores.
Isso porque os pallets atuam como elementos de logística secundária, ou seja, transportam embalagens que já protegem os produtos comercializados.
Além disso, o processo de reciclagem passa por etapas controladas de moagem e regranulação que preservam a qualidade do material utilizado na fabricação dos novos pallets.
A empresa destaca que mantém clientes desses segmentos operando dentro do programa há vários anos sem registros de problemas sanitários relacionados ao uso dos produtos reciclados.
Esse histórico contribuiu para aumentar a confiança de grandes empresas na adoção do sistema.
Fidelização de clientes e geração de valor a longo prazo
Embora o programa tenha forte apelo ambiental, o principal benefício empresarial identificado pela EkoPalete está relacionado ao relacionamento de longo prazo com os clientes.
Segundo Cassio Drudi Junior, as operações de troca não geram mudanças radicais no fluxo de caixa da companhia, pois cada pallet novo continua sendo comercializado dentro da margem operacional tradicional.
O diferencial está na criação de um vínculo contínuo.
Ao aderir ao programa, o cliente passa a enxergar a empresa não apenas como fornecedora de pallets, mas também como destino para os materiais danificados gerados em sua operação.
Essa relação tende a aumentar a fidelização e criar ciclos recorrentes de negócios.
Atualmente, segundo a empresa, existem grandes grupos industriais que participam do programa há anos consecutivos, utilizando a troca como parte permanente de suas estratégias de sustentabilidade e gestão de ativos logísticos.
Em um momento em que a economia circular deixa de ser apenas discurso corporativo para se tornar exigência de mercado, iniciativas como a da EkoPalete demonstram que soluções ambientalmente responsáveis podem, ao mesmo tempo, gerar eficiência operacional, reduzir desperdícios e fortalecer relações comerciais duradouras.
A informação foi divulgada pela revista EmbalagemMarca em entrevista com Cassio Drudi Junior, CEO da EkoPalete, apresentando detalhes sobre o funcionamento do programa Troca 7:1 e os resultados obtidos pela empresa desde sua criação em 2017.
Fica a pergunta: iniciativas como essa poderiam servir de modelo para outros setores industriais brasileiros que ainda enfrentam dificuldades para implementar programas de logística reversa economicamente viáveis?

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