Ferramenta criada por cientistas da Universidade de Utrecht permite inserir qualquer local do planeta e acompanhar como sua latitude mudou nos últimos 320 milhões de anos, revelando a jornada invisível do chão onde hoje ficam casas, cidades e quintais
Uma nova ferramenta digital permite descobrir como o quintal de qualquer pessoa se deslocou em latitude ao longo de 320 milhões de anos, revelando a jornada de terrenos que atravessaram milhares de quilômetros antes de chegarem à posição atual no planeta.
O site paleolatitude.org foi desenvolvido por uma equipe internacional de cientistas da Terra liderada por Douwe van Hinsbergen, professor de tectônica global e paleogeografia na Universidade de Utrecht, na Holanda. A plataforma usa o Modelo Paleogeográfico de Utrecht para reconstruir o movimento das placas tectônicas desde a época do supercontinente Pangeia.
Ao inserir um local no site, o usuário visualiza um gráfico no lado esquerdo da tela. A linha azul mostra como a latitude daquele ponto mudou ao longo de milhões de anos, com a idade indicada no eixo horizontal e a latitude no eixo vertical.
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A ferramenta não mostra alterações de longitude, ligadas ao deslocamento de leste a oeste, nem apresenta uma animação do ponto viajando pelo mundo. Mesmo assim, permite acompanhar como um lugar avançou para o norte ou para o sul durante a história profunda da Terra.
Quintal pode revelar viagem desde a Pangeia
Entre cerca de 320 milhões e 200 milhões de anos atrás, a América do Norte era contígua à África, à América do Sul e à Europa. Esses blocos formavam Pangeia, um único continente que antecedeu a configuração atual do mapa-múndi.
Depois, uma fissura de três pontas separou África, América do Sul e América do Norte. Esse processo criou uma zona de fenda vulcânica, com erupções poderosas provocadas pela passagem de magma através da crosta enfraquecida.
As erupções lançaram cinzas e detritos vulcânicos enquanto os continentes se afastavam. As lacunas abertas entre eles deram origem à bacia do Atlântico, que continuou se ampliando ao longo de milhões de anos.
Van Hinsbergen afirmou ao Gizmodo que foram necessários 10 anos de trabalho para criar a ferramenta. A expectativa do pesquisador é que o paleolatitude.org desperte interesse pela paleogeografia e ajude estudos em diferentes áreas científicas.
Modelo foi refinado com regiões deformadas
Há uma década, van Hinsbergen e seus colegas já haviam criado uma reconstrução tectônica para as principais placas. O modelo, porém, não incluía regiões intensamente deformadas, como Caribe, Himalaia e Mediterrâneo.
Essas áreas guardam relíquias de placas que existiram na superfície da Terra, mas entraram no manto. A nova reconstrução detalha essas regiões e permite relacionar rochas às placas onde se formaram originalmente.
Com isso, pesquisadores podem rastrear as viagens latitudinais dessas rochas pelo tempo profundo. O quintal atual de uma cidade, portanto, pode ter ocupado uma posição climática muito diferente no passado.
Ferramenta ajuda clima antigo e fósseis
A plataforma deve auxiliar paleoclimatologistas, que reconstroem climas antigos usando amostras geológicas. Como a latitude influencia o ângulo dos raios solares e o clima regional, localizar rochas no passado é essencial.
Na Holanda, geocientistas de Utrecht estudam características de 245 milhões de anos associadas a um clima semelhante ao atual Golfo Pérsico, com deserto próximo ao mar tropical.
A ferramenta também pode ajudar paleontólogos a analisar biodiversidade, extinções e refúgios em diferentes latitudes. Van Hinsbergen espera criar mapas que mostrem espécies fossilizadas em relação aos continentes em movimento.

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