Blocos modulares feitos com resíduos plásticos e biomassa avançam em projetos de construção rápida, com uso em escolas na Indonésia e proposta de reduzir etapas de obra, transporte pesado e dependência de materiais convencionais em regiões vulneráveis a desastres naturais.
Sediada em Tampere, na Finlândia, a Block Solutions desenvolveu blocos modulares feitos com plástico recuperado e resíduos biológicos para acelerar obras, diminuir etapas de construção e reduzir a dependência de materiais convencionais em projetos habitacionais, escolares e comunitários.
A tecnologia funciona por encaixe, sem adesivo cimentício entre as peças, e já foi aplicada em escolas construídas em Lombok, na Indonésia, ilha atingida por fortes terremotos em 2018 e associada a projetos de reconstrução com materiais leves.
De acordo com a empresa, os módulos fazem parte de uma solução patenteada que transforma plástico recuperado e biowaste em peças de construção, com proposta voltada à montagem rápida, ao reaproveitamento de resíduos e à redução de operações úmidas no canteiro.
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Entre os dados divulgados pela Block Solutions, os blocos são 10 vezes mais leves, três vezes mais resistentes que blocos convencionais de concreto e permitem obras até 10 vezes mais rápidas, com economia de até 80% em uma casa de 40 metros quadrados.
Como funcionam os blocos de plástico reciclado
Na prática, o sistema altera a lógica da alvenaria tradicional ao substituir parte do assentamento com argamassa por peças empilhadas e travadas por encaixe, reduzindo etapas de cura, mistura de cimento e dependência de processos mais demorados.
Em vez de montar paredes bloco a bloco com argamassa, alinhamento constante e secagem entre etapas, equipes treinadas podem encaixar os módulos de forma sequencial, o que simplifica a execução e facilita o uso em obras com estrutura limitada.
Conforme os resíduos disponíveis em cada mercado, a composição do material pode mudar, permitindo que a tecnologia aproveite insumos locais e reduza a necessidade de transportar matérias-primas convencionais por longas distâncias até o local da construção.
Uma reportagem da CHEManager, publicação especializada no setor químico, informou que os blocos podem ser feitos apenas com plástico reciclado ou como biocompósito, combinando até 50% de fibras orgânicas e 50% de plástico reaproveitado.
Entre as fibras citadas pela mesma publicação aparecem casca de coco, casca de arroz, bambu e cana-de-açúcar, resíduos que podem ser incorporados ao processo produtivo conforme a disponibilidade regional e o tipo de cadeia local de coleta.
Com essa adaptação, a fabricação se aproxima dos locais de uso, aproveita resíduos encontrados na própria região e pode reduzir a dependência de insumos importados, sem eliminar a necessidade de controle técnico, testes de desempenho e padronização industrial.
Escolas em Lombok após terremotos
Um dos exemplos mais relevantes da tecnologia aparece em Lombok, ilha da Indonésia afetada por uma sequência de terremotos em agosto de 2018, quando comunidades locais perderam casas, escolas, empresas e parte da infraestrutura essencial.
Segundo a ABC News, os abalos deixaram mais de 550 mortos, deslocaram cerca de 417 mil pessoas e destruíram estruturas públicas e privadas, criando demanda por soluções de reconstrução mais rápidas em áreas expostas a novos eventos sísmicos.
Nesse cenário, organizações educacionais e sociais passaram a usar os chamados eco-blocks para reconstruir espaços de ensino, com foco em estruturas leves, modulares e mais simples de montar em comunidades afetadas por desastres naturais.
A escola SDN 4 Taman Sari, em Lombok, foi erguida em junho de 2021 com plástico reciclado misturado a fibras de madeira e, de acordo com a ABC News, teve a estrutura construída em menos de uma semana.
Para áreas vulneráveis a terremotos, a resistência sísmica aparece como um dos argumentos centrais do sistema, já que o baixo peso das peças pode reduzir riscos associados ao colapso de estruturas muito pesadas durante abalos.
A ABC News informou que a elasticidade dos blocos permite que as paredes flexionem em vez de romperem de forma rígida, enquanto a leveza do material diminui o impacto potencial de desabamentos em escolas e espaços comunitários.
Construção modular com reaproveitamento de resíduos
Responsável por projetos educacionais em áreas vulneráveis, a Classroom of Hope informa que mantém parceria com a Block Solutions Indonesia no programa Block Schools, iniciativa voltada à construção de escolas com blocos produzidos a partir de resíduos plásticos.
Segundo material institucional atualizado em 2025, os módulos usados no programa são feitos com resíduos plásticos da Indonésia, podem durar de 50 a 100 anos e foram projetados para desmontagem, reconstrução e reaproveitamento em outras estruturas.
Em Jacarta, no ano de 2023, a Happy Hearts Indonesia anunciou a conclusão das duas primeiras Block Schools feitas com matéria-prima reciclada em Lombok, chamadas RA Batu Rakit e TK IT Bina Insani.
O projeto reuniu a Happy Hearts Indonesia, a Block Solutions Indonesia e o apoio da Our Goals, consultoria voltada a impacto ambiental e social, em uma ação direcionada à reconstrução de espaços educacionais na ilha.
Segundo a organização indonésia, cada sala de aula construída com esse sistema pode retirar de uma a duas toneladas de plástico do ambiente, transformando resíduos descartados em componentes de construção para uso comunitário.
A entidade também informou que os blocos usados nas escolas incluem PP, PET e HDPE, tipos de plástico comuns em embalagens, recipientes e outros produtos descartados que costumam pressionar sistemas locais de coleta e reciclagem.
Fábrica local e casas de demonstração
Além das escolas, a tecnologia aparece em construções menores de demonstração, usadas para apresentar o potencial dos módulos em moradias compactas e estruturas comunitárias que precisam de montagem rápida e menor dependência de materiais tradicionais.
A Classroom of Hope informou que a fábrica da Block Solutions em Lombok inaugurou um modelo de casa de 24 metros quadrados, construído por uma empreiteira local em seis dias e associado à remoção de 1,5 tonelada de plástico doméstico do ambiente.
Inaugurada oficialmente em 26 de junho de 2023, a unidade de Lombok foi apresentada pela Classroom of Hope como a primeira fábrica desse tipo na região Ásia-Pacífico, com foco em produção local e redução de importações.
Ao fabricar os blocos na própria ilha, a iniciativa reduz a necessidade de trazer módulos da Finlândia, encurta a cadeia de fornecimento e cria espaço para treinamento de equipes e trabalhadores ligados à construção local.
O modelo também se conecta a um problema ambiental amplo, já que o material da Classroom of Hope aponta que a Indonésia gera cerca de 24,5 mil toneladas de resíduos plásticos por dia e recicla apenas uma parte pequena desse volume.
Parte desse descarte ainda chega ao ambiente, rios e áreas costeiras, o que aumenta o interesse por soluções capazes de transformar resíduos em produtos duráveis, especialmente quando associadas a obras de interesse social e infraestrutura pública.
Desafios para adoção em outros países
Apesar do apelo ambiental e da rapidez de montagem, a adoção em outros países depende de normas técnicas, licenciamento, testes de desempenho e aceitação por códigos locais de construção, especialmente em obras permanentes e de uso coletivo.
No Brasil, onde blocos cerâmicos, concreto e argamassa seguem predominantes na construção civil, qualquer comparação exigiria análise de resistência, durabilidade, segurança contra fogo, custo logístico, manutenção e compatibilidade com as normas brasileiras.
O avanço da Block Solutions mostra como resíduos plásticos podem ganhar uso de longa duração em estruturas modulares, sobretudo em projetos sociais, escolas, moradias compactas e equipamentos comunitários localizados em áreas com necessidade de reconstrução rápida.
A escala da solução, no entanto, depende de certificações, cadeias locais de coleta e fabricação, além de comprovação técnica em cada mercado onde os blocos forem usados como alternativa ou complemento aos métodos tradicionais.

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