1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Neblina que muita gente vê como simples “fumacinha” pode estar viva, cheia de bactérias e ainda limpando a poluição do ar sem ninguém perceber
Tempo de leitura 4 min de leitura Comentários 0 comentários

Neblina que muita gente vê como simples “fumacinha” pode estar viva, cheia de bactérias e ainda limpando a poluição do ar sem ninguém perceber

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 14/05/2026 às 23:06
Atualizado em 14/05/2026 às 23:31
Estudo revela bactérias vivas na neblina, capazes de crescer nas gotículas e ajudar a decompor poluentes do ar.
Estudo revela bactérias vivas na neblina, capazes de crescer nas gotículas e ajudar a decompor poluentes do ar.
  • Reação
1 pessoa reagiu a isso.
Reagir ao artigo

Estudo da Universidade Estadual do Arizona mostra que a neblina abriga bactérias vivas, capazes de crescer dentro das gotículas e decompor formaldeído, um poluente ligado à formação de ozônio, revelando que esse fenômeno comum pode ter papel silencioso na limpeza do ar

A neblina é um sistema vivo que abriga bactérias em crescimento e pode ajudar a limpar poluentes do ar, mostra estudo da Universidade Estadual do Arizona. A descoberta muda a visão sobre gotículas perto do solo, água, atmosfera e hidrelétricas

A pesquisa foi liderada por Thi Thuong Thuong Cao, que iniciou o projeto como doutorando na Escola de Ciências Moleculares da ASU e depois passou a atuar na Tecnologia da Virgínia. O estudo também foi publicado na revista mBio.

O ponto central é que a neblina não é apenas uma suspensão estéril de água. Ela pode funcionar como habitat, com bactérias vivas, capazes de crescer, dividir-se e usar compostos presentes no ar.

Neblina, bactérias e hidrelétricas

Cientistas já sabiam que bactérias viajam pela atmosfera, transportadas por correntes de ar, aparecem em nuvens e cruzam continentes. O que ainda era pouco claro era o que esses organismos fazem quando chegam a esses ambientes.

A dúvida era se permaneciam adormecidos, morriam lentamente ou continuavam ativos, alimentando-se, crescendo e se multiplicando. A neblina, descrita como nuvens ao nível do solo, era parte pouco estudada desse processo.

Cao buscou identificar quais bactérias estavam presentes na neblina e se elas estavam realmente vivas e crescendo dentro das gotículas. A segunda pergunta se tornou decisiva para a interpretação da equipe.

Um oceano microscópico no ar

Menos de 1% das gotículas individuais de neblina contêm alguma bactéria. A proporção parece pequena, mas a quantidade total de gotículas em um evento de neblina muda essa percepção.

Ao somar todas as gotículas, a concentração de bactérias chega ao mesmo nível do oceano, segundo Garcia-Pichel. Um dedal de água de neblina pode conter cerca de 10 milhões de bactérias.

Um grupo chamou atenção nas amostras: as metilobactérias. O ar coletado antes dos eventos de neblina continha menos desses microrganismos do que o ar coletado depois, indicando estímulo à multiplicação.

Essas bactérias consomem compostos simples de carbono, incluindo formaldeído. Esse poluente comum contribui para a poluição atmosférica de ozônio e está associado a danos à saúde humana.

Como micróbios reduzem poluentes

Para entender o que ocorria dentro das gotículas, Cao coletou amostras no campo, na Pensilvânia, acordando antes do amanhecer para capturar a neblina enquanto ela se formava.

No laboratório, as amostras foram colocadas sob microscópio. A pesquisadora observou bactérias ficando maiores e se dividindo, sinal de crescimento. A equipe também identificou que elas usavam formaldeído como alimento.

A remoção do formaldeído ocorria tão rapidamente que a simples alimentação não explicava tudo. Em altas concentrações, esse composto se torna tóxico para as bactérias, que passam a quebrá-lo em dióxido de carbono.

Assim, os microrganismos não apenas consomem um poluente. Eles desintoxicam o ar como forma de autopreservação e, durante esse processo, deixam o ambiente mais limpo para os demais seres vivos.

O desafio de seguir a mesma massa de ar

Investigar a neblina apresenta uma dificuldade prática. Para acompanhar mudanças nas populações bacterianas durante um evento, é preciso amostrar a mesma parcela de ar antes, durante e depois da formação da névoa.

O vento torna essa tarefa quase impossível, porque o ar coletado minutos antes costuma se deslocar. A solução foi focar na neblina de radiação, formada em noites calmas e paradas.

Esse tipo de neblina ocorre quando o solo esfria, o ar logo acima também esfria e a umidade condensa perto da superfície. O fenômeno tende a surgir em vales tranquilos.

Nessas condições, a mesma massa de ar permanece no local por tempo suficiente para coletas ao longo do evento. A estratégia permitiu comparar o antes, o durante e o depois da neblina.

Água da neblina exige cuidado

A coleta de neblina como água potável tem sido explorada por comunidades em regiões com escassez de água. O estudo sugere que essa fonte seja tratada como qualquer outra água: testada e purificada antes do consumo.

A água da neblina não é estéril. Ela contém bactérias vivas que decompõem poluentes químicos, e ainda não se sabe exatamente quais elementos estão presentes nem em quais concentrações.

Atividade noturna e novas perguntas

Os modelos usados para compreender a química atmosférica se baseiam, em grande parte, em reações impulsionadas pela luz solar. As bactérias, porém, não interrompem sua atividade quando anoitece.

Cao acrescentou que é necessário considerar não apenas reações químicas, mas também o crescimento bacteriano dentro das gotículas. Para ela, isso pode alterar a forma como os modelos atmosféricos são construídos.

Ainda não se sabe se nevoeiros de diferentes lugares abrigam comunidades microbianas distintas, o que mais essas bactérias consomem nem quanto a neblina contribui para limpar o ar urbano.

A principal conclusão é que a neblina deve ser entendida como sistema vivo, ativo e capaz de realizar trabalho silencioso no ar. Como rios usados por hidrelétricas, a névoa mostra processos invisíveis, úteis e ainda pouco compreendidos pela ciência atual.

O estudo foi conduzido por Universidade Estadual do Arizona (ASU).

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x