Caso relatado pela BBC News Brasil expõe o avanço da pobreza extrema no Afeganistão, onde famílias sem renda enfrentam fome, falta de atendimento médico e baixa ajuda humanitária, enquanto meninas seguem vulneráveis a acordos de casamento infantil em meio à crise.
O afegão Saeed Ahmad afirmou ter aceitado entregar a filha de 5 anos, Shaiqa, a um parente para conseguir pagar uma cirurgia urgente da criança na província de Ghor, no Afeganistão, segundo reportagem da BBC News Brasil.
A menina havia desenvolvido apendicite e um cisto no fígado, mas a família não tinha dinheiro para custear o tratamento médico.
“Eu não tinha dinheiro para pagar as despesas médicas. Então vendi minha filha para um parente”, afirmou Saeed, em relato publicado pela BBC em maio deste ano de 2026.
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O acordo foi fechado por 200 mil afeganes, valor equivalente a cerca de US$ 3,2 mil e aproximado a R$ 17 mil.
A cirurgia foi realizada com sucesso, mas a negociação prevê que Shaiqa deixe a família dentro de cinco anos para se casar com um dos filhos do parente que pagou pelo procedimento.
O caso ganhou repercussão por expor a combinação de pobreza extrema, desemprego, falta de acesso à saúde e baixa ajuda humanitária em um país onde grande parte da população não consegue atender necessidades básicas.
Saeed disse ainda que evitou receber todo o valor de uma vez porque, caso aceitasse a quantia integral naquele momento, o parente teria levado a criança imediatamente.
“Se eu tivesse aceitado o valor inteiro naquele momento, ele a teria levado imediatamente”, declarou o pai, ao explicar o acordo feito com o familiar.
Cirurgia urgente foi paga após acordo familiar

De acordo com Saeed, a família não tinha recursos para bancar a operação e viu no acordo a única alternativa para garantir que a menina recebesse atendimento médico.
O pai afirmou que pediu apenas o valor suficiente para o tratamento naquele momento, deixando o restante do pagamento para os cinco anos seguintes.
A intenção, segundo ele, era impedir que a filha fosse retirada da casa logo após a cirurgia.
Ainda assim, o compromisso assumido mantém a previsão de que Shaiqa será entregue no futuro, quando deverá se tornar nora da família que financiou o tratamento.
“Se eu tivesse dinheiro, jamais teria tomado essa decisão”, disse Saeed.
Em seguida, ele justificou a escolha ao afirmar que temia perder a filha caso não conseguisse pagar a operação.
“Mas então pensei: e se ela morresse sem a cirurgia? Assim, pelo menos, ela estará viva”, afirmou.
A história foi registrada em Ghor, província afegã marcada por pobreza intensa e falta de trabalho.
Na reportagem, a BBC descreveu homens reunidos ao amanhecer em Chaghcharan, capital provincial, à espera de qualquer oportunidade de emprego diário.
Pobreza extrema no Afeganistão pressiona famílias
A situação de Saeed não aparece como um caso isolado no cenário descrito pela BBC News Brasil.
Outro morador de Ghor, Abdul Rashid Azimi, afirmou estar disposto a vender uma das filhas gêmeas de 7 anos para conseguir alimentar o restante da família.
O relato também foi associado à falta de emprego, ao endividamento e à dificuldade de comprar comida.
Na mesma apuração, moradores contaram que crianças foram dormir com fome e que famílias sobrevivem com alimentação mínima.
Uma mulher identificada como Kayhan, mãe de uma das famílias ouvidas, disse que em casa havia apenas pão e água quente, “nem mesmo chá”.

Segundo a ONU, citada na reportagem, três em cada quatro pessoas no Afeganistão não conseguem suprir suas necessidades básicas, como alimentação adequada.
O país enfrenta uma crise prolongada desde a retomada do poder pelo Talibã, em agosto de 2021, agravada por desemprego, isolamento econômico, restrições sociais e cortes de financiamento externo.
A Afghanistan International informou, com base na reportagem da BBC, que o desemprego se tornou generalizado, o sistema de saúde passa por forte deterioração e a ajuda que antes cobria necessidades essenciais de milhões de pessoas foi reduzida drasticamente.
Ajuda humanitária caiu
A redução da ajuda internacional é um dos pontos centrais para entender o agravamento da crise afegã. Os Estados Unidos, que antes eram o principal doador do Afeganistão, cortaram quase toda a ajuda ao país no ano passado.
Segundo a BBC, muitos outros doadores importantes também reduziram significativamente suas contribuições, incluindo o Reino Unido.
Ainda de acordo com a matéria, a ajuda destinada ao Afeganistão em 2026 caiu cerca de 70% em relação ao ano anterior, em um momento em que pobreza, fome e falta de atendimento médico pressionam famílias em várias regiões do país.
A queda no financiamento afeta diretamente a oferta de comida, saúde, abrigo e proteção social. Em áreas mais vulneráveis, a ausência de renda e de serviços básicos amplia a dependência de acordos informais, empréstimos e decisões familiares extremas.
Organizações humanitárias e entidades de direitos humanos afirmam que as restrições impostas pelo Talibã a mulheres e meninas também contribuíram para reduzir o interesse de doadores internacionais.
O grupo, por outro lado, rejeita essa relação e diz que a ajuda humanitária não deveria ser politizada, conforme resposta atribuída ao porta-voz adjunto do Talibã, Hamdullah Fitrat, na reportagem.
Além da queda de recursos, a crise afegã é agravada pela falta de emprego regular.
Em Ghor, homens dependem de trabalhos ocasionais para conseguir levar pão para casa, e muitos retornam sem qualquer pagamento após horas de espera.
Casamento infantil segue como risco em meio à fome
A entrega de meninas em acordos familiares aparece em um contexto de casamento infantil ainda presente em partes do Afeganistão.
Em situações de pobreza extrema, famílias endividadas podem recorrer a arranjos que envolvem pagamentos, promessas de casamento ou entrega futura de crianças.
A prática atinge especialmente meninas, que ficam mais expostas quando há fome, falta de escola, dependência econômica e ausência de proteção institucional.
A proibição do Talibã à educação de meninas também é citada por veículos que republicaram o material da BBC como um fator que agrava a vulnerabilidade de crianças e adolescentes do sexo feminino.
No caso de Shaiqa, a cirurgia bem-sucedida resolveu a emergência médica imediata, mas não encerrou o impacto do acordo firmado por Saeed.
A menina permanece com os pais por enquanto, enquanto o compromisso assumido mantém em aberto a possibilidade de separação familiar nos próximos anos.
O relato do pai resume o dilema enfrentado por famílias sem renda, sem acesso regular a tratamento médico e sem rede de proteção suficiente.
Ao explicar a decisão, Saeed afirmou ter visto no acordo a única forma de impedir que a filha morresse sem atendimento.

Muito triste
Poderia ter uma forma de ajudar essa pai a pagar essa divida e não entregar o bem mais precioso que ele tem, que é a sua filha, isso me dói, sou mãe de 03 meninas, nossos filhos não são produtos.
Triste mesmo, não há como mensurar. Entretanto, foi apenas um adiamento da provável morte, sim, pois quando aos 10 anos for violada por um adulto, o parente, o marido, pode ocorrer. Imaginem o terror que ela viverá!!! 10 anos!!!! Nojo! Fato igual ocorreu a pouco tempo com uma outra “noiva” de 8 anos, morta na “noite de núpcias”. Enfim, essa é a cultura daquele país…haja Talibã ou não, haja ajuda humanitária ou não, haja EUA ou não. Eles casam crianças. É pedofilia cultural. Meninos, meninas…É ****, mas é real lá! É muito mais comum do que vcs possam crer. Leiam e pesquisem, e abram os olhos para o que ocorre aqui ( e muitos figem não saber) e no mundo. Onde há miséria, morre a lógica, morrer o amor…entra a lei da sobrevivência!