Projeto da Longshot Space propõe usar gás comprimido e uma estrutura terrestre gigantesca para acelerar cargas rumo ao espaço, em uma abordagem que retoma ideias antigas da engenharia aeroespacial com novos protótipos.
A startup norte-americana Longshot Space desenvolve um sistema de lançamento cinético que pretende acelerar cargas em solo antes de enviá-las à órbita baixa da Terra.
A proposta, apresentada pelo fundador e CEO Mike Grace em entrevistas a veículos especializados, prevê uma estrutura de cerca de 10 km de extensão capaz de disparar objetos a velocidades próximas de Mach 23, em uma tentativa de reduzir parte da dependência de foguetes convencionais.
O projeto ainda está em fase de desenvolvimento e não colocou cargas em órbita.
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Segundo registros do programa norte-americano SBIR, voltado ao apoio a pequenas empresas inovadoras, a Longshot já testou um sistema de múltiplas injeções de gás e acelerou um projétil de 500 gramas a Mach 2,5 em uma estrutura de 75 pés, cerca de 23 metros.
Reportagens especializadas também citam testes posteriores em protótipos maiores, com velocidades acima de Mach 4.
A tecnologia busca transferir para uma infraestrutura fixa parte da energia que hoje precisa ser produzida por foguetes durante o lançamento.
Em vez de carregar todo o combustível e os sistemas de propulsão desde a plataforma, a carga receberia impulso dentro de um tubo longo, por meio de gás comprimido liberado em sequência.
Depois de deixar a estrutura, o objeto ainda precisaria seguir uma trajetória adequada para permanecer em órbita.
O conceito não elimina todos os desafios do lançamento espacial.
Para chegar à órbita baixa da Terra, não basta atingir altitude elevada.
A carga precisa ganhar velocidade horizontal suficiente para não cair de volta ao planeta.
Esse ponto diferencia uma trajetória orbital de um disparo suborbital, que pode ultrapassar a fronteira convencional do espaço, mas não se mantém ao redor da Terra.
Como funcionaria o canhão espacial da Longshot
O sistema descrito pela Longshot não opera como um canhão comum, movido por uma única explosão.
A proposta usa uma série de tanques de gás pressurizado distribuídos ao longo do tubo.
À medida que o veículo avança, discos de ruptura liberam jatos de gás em momentos calculados para empurrar a carga repetidas vezes.
Essa arquitetura é chamada pela empresa de aceleração por múltiplas injeções.

Segundo o registro do SBIR, a divisão do impulso em vários eventos permite acelerar projéteis a velocidades hipersônicas com forças menores sobre a carga do que as geradas por um disparo convencional concentrado em uma única etapa.
Na descrição feita por Mike Grace à New Atlas, o veículo teria uma parte traseira projetada para receber a pressão dos jatos laterais de gás.
Cada liberação acrescentaria velocidade ao conjunto dentro do tubo, até que a carga alcançasse a velocidade prevista para sair da estrutura.
A empresa ainda trabalha com protótipos em escala reduzida.
De acordo com a Payload, a Longshot apresentou um protótipo de 70 pés, cerca de 21 metros, capaz de acelerar cargas a pouco mais de Mach 4, e planejava avançar para estruturas maiores, incluindo versões de 180 pés e 1.800 pés para testes hipersônicos.
Por que Mach 23 é um desafio para cargas espaciais
Mach 23 corresponde a uma velocidade hipersônica muito acima da velocidade do som.
Em condições atmosféricas, esse regime cria aquecimento intenso por compressão e atrito com o ar, o que exige proteção térmica adequada.
Para equipamentos eletrônicos, o problema não se limita à temperatura: a aceleração, a vibração e as cargas estruturais também precisam ser suportadas.
A Longshot afirma que pretende lançar cargas projetadas para esse ambiente, e não passageiros.
Mesmo em cenários com estruturas muito longas, as forças de aceleração seguiriam acima do limite tolerável para seres humanos.
Por isso, a aplicação inicial mais citada envolve objetos resistentes, componentes de teste, materiais, suprimentos ou satélites desenhados especificamente para suportar o disparo.
Em entrevistas, Grace argumenta que cargas maiores podem melhorar a relação entre massa e área exposta, o que reduziria proporcionalmente a quantidade de material perdido por aquecimento na travessia atmosférica.
Essa avaliação, porém, ainda depende de demonstrações em escala compatível com lançamento orbital.
A proposta também pressupõe algum tipo de etapa complementar após a saída do tubo.
Para circularizar órbita, corrigir trajetória ou ajustar altitude, uma carga lançada por aceleração terrestre poderia precisar de propulsão própria.
Esse ponto mantém parte da complexidade associada aos sistemas espaciais convencionais.
Ideia de lançamento por canhão vem do século 19
A tentativa de usar canhões ou aceleradores terrestres para alcançar o espaço não surgiu com a Longshot.
A ideia aparece na literatura desde o século 19, quando Júlio Verne publicou “Da Terra à Lua”, em 1865.
No romance, uma cápsula é lançada por um enorme canhão, em uma representação fictícia da viagem espacial antes da existência de foguetes orbitais.
No século 20, projetos reais testaram limites semelhantes com objetivos científicos e militares.
Um dos casos mais conhecidos foi o Projeto HARP, sigla para High Altitude Research Project, conduzido nos anos 1960 com participação do engenheiro canadense Gerald Bull.
O programa usou tubos de canhões navais modificados para lançar projéteis a grandes altitudes.
Os disparos do HARP conseguiram superar a altitude geralmente associada ao início do espaço, mas não alcançaram órbita.
A limitação principal estava na velocidade horizontal.
Sem velocidade lateral suficiente, o objeto sobe, perde energia e retorna à Terra, em vez de continuar em trajetória orbital.
A Longshot retoma essa linha de pesquisa com outro arranjo técnico.
Em vez de usar explosivos convencionais em um disparo único, aposta em gás comprimido e aceleração progressiva.
A empresa também se aproxima de propostas anteriores de canhões de gás leve e aceleradores para testes hipersônicos.
Testes hipersônicos e estágio atual do projeto
A parte comprovada publicamente do projeto está nos protótipos e nos contratos de pesquisa.
O portfólio da Longshot no SBIR informa que a empresa desenvolveu um canhão supersônico de múltiplas injeções e associa a tecnologia a aplicações em testes hipersônicos, defesa antimísseis e lançamento espacial.
Essas aplicações ajudam a explicar por que a empresa pode ter utilidade antes de demonstrar um lançamento orbital.
Ensaios hipersônicos são usados para avaliar materiais, sensores, veículos e componentes submetidos a velocidades extremas.
Uma estrutura terrestre reutilizável poderia oferecer uma forma diferente de produzir esse ambiente de teste, desde que alcance repetibilidade, segurança e custo compatível.
A chegada à órbita, no entanto, exige uma escala maior.
Para transformar o conceito em sistema de lançamento, a Longshot teria de validar a aceleração de cargas úteis em massa relevante, a proteção térmica após a saída do tubo, a precisão de trajetória e a integração com sistemas de controle e propulsão complementar.
Também existem questões externas à engenharia do disparo.
Uma estrutura de quilômetros de extensão exigiria local adequado, licenciamento, análise de riscos, controle de área, avaliação ambiental e procedimentos de segurança.
Esses fatores ainda não têm detalhamento público suficiente para confirmar quando ou onde um sistema orbital poderia ser instalado.
Tecnologia poderia complementar foguetes tradicionais
A proposta da Longshot não se apresenta como substituição integral dos foguetes.
Pela própria natureza do método, cargas sensíveis ou missões tripuladas não se encaixam no perfil do sistema.
Satélites convencionais, grandes estruturas frágeis e equipamentos que não toleram aceleração extrema continuariam dependendo de arquiteturas de lançamento mais tradicionais.
O nicho mais plausível, segundo as aplicações descritas pela empresa e por reportagens especializadas, envolve cargas robustas, materiais, componentes padronizados e testes em ambiente hipersônico.
Em um cenário de maturidade tecnológica, o sistema também poderia lançar objetos projetados desde o início para suportar aceleração intensa.
Outra possibilidade técnica é o uso combinado com pequenos estágios propulsivos.
Nesse modelo, o acelerador terrestre forneceria parte da energia inicial, enquanto a carga usaria propulsão própria para completar ajustes orbitais.
Esse arranjo preserva elementos dos foguetes, mas desloca uma parcela do impulso para o solo.
O interesse no projeto ocorre em um momento de expansão da economia espacial, com aumento na demanda por satélites, testes hipersônicos e infraestrutura orbital.
Ainda assim, a distância entre protótipos terrestres e lançamentos comerciais permanece significativa.
A própria documentação pública disponível aponta a tecnologia como uma etapa de pesquisa e desenvolvimento, não como um sistema operacional de acesso ao espaço.
A pergunta central, portanto, não é apenas se um tubo de 10 km pode acelerar uma carga a Mach 23.
O ponto decisivo é saber se essa carga sairia da estrutura em condições de sobreviver à atmosfera, completar a inserção orbital e cumprir uma missão útil no espaço.


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