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Uma das primeiras fazendas do Rio Grande do Sul, a Fazenda do Socorro já teve 22 mil hectares e gerou o município de Vacaria; séculos de casamentos entre primos trouxeram infertilidade, disputas por herança e até assassinato pela terra

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 14/06/2026 às 17:27
Assista o vídeoA Fazenda do Socorro, uma das primeiras sesmarias do Rio Grande do Sul, deu origem a Vacaria, virou parada de tropeiros e foi reinventada por Maria de Lourdes.
A Fazenda do Socorro, uma das primeiras sesmarias do Rio Grande do Sul, deu origem a Vacaria, virou parada de tropeiros e foi reinventada por Maria de Lourdes.
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Nos Campos de Cima da Serra, a Fazenda do Socorro foi uma das primeiras sesmarias do Rio Grande do Sul e deu origem ao município de Vacaria. Em seus 22 mil hectares originais cabem capítulos de glória e de tragédia, dos tropeiros às disputas de família, passando por uma mulher à frente do seu tempo.

Uma das primeiras fazendas do Rio Grande do Sul, a Fazenda do Socorro já teve cerca de 22 mil hectares e foi o berço do município de Vacaria. Mas a história dela não é só bonita. Entre um capítulo e outro aparecem casamentos entre primos, infertilidade, brigas por herança e até assassinato pela posse da terra.

De acordo com o programa Vale Agrícola, tudo começou por volta de 1770, quando aquela parte da Serra Gaúcha era vista como um vazio demográfico. As terras foram doadas, no sistema de sesmarias da Coroa Portuguesa, a João de Campos Brandemburgo, com a missão de povoar a região e criar gado. A criação de gado, aliás, era a principal fonte de renda da propriedade.

A fazenda que virou parada dos tropeiros

A Fazenda do Socorro, uma das primeiras sesmarias do Rio Grande do Sul, deu origem a Vacaria, virou parada de tropeiros e foi reinventada por Maria de Lourdes.
No começo, tudo girava em torno do gado. 

A Fazenda do Socorro chegou a ter cerca de 22 mil hectares e fazia divisa com três rios, entre eles o rio Pelado e o rio Socorro.

Com o tempo, virou um ponto de parada conhecido na rota dos tropeiros.

E que rota. Saindo de Cruz Alta, passava por Passo Fundo, Vacaria e Lages até chegar a Sorocaba, em São Paulo, num caminho de mais de mil quilômetros que levava meses.

A fazenda funcionava como um porto seguro para os tropeiros descansarem.

A região era considerada segura, protegida por rios, e por isso os jesuítas levaram para ali o gado que criavam mais perto do litoral, área que sofria saques constantes.

Charque, trabalho e escravidão no século 19

A Fazenda do Socorro, uma das primeiras sesmarias do Rio Grande do Sul, deu origem a Vacaria, virou parada de tropeiros e foi reinventada por Maria de Lourdes.
No século 19, a força da Fazenda do Socorro estava no gado e em seus derivados, como o charque. 

Esse foi um período em que a propriedade também teve pessoas escravizadas, no auge de sua produção. É uma parte da história que não pode ser apagada.

A estrutura de trabalho, porém, era diferente da dos grandes engenhos. 

Ao contrário das fazendas de cana e café da Bahia, de São Paulo e do Rio de Janeiro, que exigiam enormes contingentes de mão de obra, ali o trabalho girava em torno da lida com o gado.

Segundo o relato registrado pelo programa, não havia senzala, e os trabalhadores viviam em galpões.

Casamentos entre primos, infertilidade e morte

A partir de 1770, a fazenda foi encolhendo e virou motivo de briga. 

As terras passavam de mão em mão entre os herdeiros dos Brandemburgo, e aí mora um detalhe sombrio.

Como muitos casamentos aconteciam entre parentes, inclusive primos, eram comuns os problemas de infertilidade.

Sem filhos, a herança ia parar com um sobrinho, depois outro também queria, e a disputa esquentava. 

O resultado, segundo o programa, chegou a incluir assassinato pela posse da terra.

Em 1913, Marcos de Flores Noronha comprou a fazenda de um herdeiro, quando ela já tinha cerca de 11 mil hectares, metade do tamanho original.

Maria de Lourdes, a mulher que reinventou a fazenda

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No meio de tantos homens, foi uma mulher que mudou a história do lugar. 

Maria de Lourdes Noronha herdou a Fazenda do Socorro do pai em 1929 e estava muito à frente do seu tempo.

O pai já havia trazido gado Jersey puro dos Estados Unidos, e ela foi além, transformando a propriedade em uma das mais completas do Rio Grande do Sul.

Os detalhes impressionam. Em 1948, a fazenda já tinha uma usina hidrelétrica própria, quando nem a cidade tinha energia elétrica.

Maria de Lourdes montou um açougue dentro das normas de higiene e tornou o lugar autossuficiente, com queijo, requeijão, salame e conservas feitos ali mesmo.

As construções em estilo português colonial, com azulejos e vitrais trazidos da Europa, completavam o cenário.

O acervo, o sonho do museu e a fazenda hoje

Ela também juntou um acervo enorme de peças antigas. 

Eram cerca de 5 mil itens, de ferramentas a sapatos, berços, roupas e chapéus, muitos vindos da Europa.

Em uma entrevista de TV da época, Maria de Lourdes contou que sonhava em abrir um museu para que o povo do estado conhecesse tudo aquilo, mas esbarrou na falta de apoio das autoridades.

O museu nunca saiu do papel.

Hoje, boa parte das peças segue exposta na própria fazenda. 

A Fazenda do Socorro foi comprada pela família de Patrícia em 2006, dos herdeiros dos Noronha, e recebe turistas, cavalgadas e excursões de escolas em datas marcadas.

A manutenção, porém, é um sacrifício, já que não há verba pública e tudo sai do bolso dos donos, que tiram parte da renda da agricultura para preservar o lugar.

Mais do que terra e gado, a Fazenda do Socorro guarda séculos de história gaúcha. 

Do nascimento de Vacaria às rotas dos tropeiros, das disputas de família à ousadia de Maria de Lourdes, ela atravessou o tempo carregando glórias e feridas. E segue de pé, hoje preservada quase que no esforço dos próprios donos.

E você, conhecia a história da Fazenda do Socorro e o papel dela na formação de Vacaria? Visitaria um lugar com tanta memória assim? Conte nos comentários, com respeito às diferentes opiniões e experiências, e compartilhe esta matéria com aquele amigo apaixonado por história e pelo interior do Brasil.

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Bruno Teles

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