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Noruega vai escavar 3 milhões de metros cúbicos de rocha para abrir túnel marítimo de 1.700 metros, onde navios passarão por dentro de uma montanha em 10 minutos, escapando de trecho que matou mais de 30 pessoas desde 1900

Publicado em 16/06/2026 às 00:51
Atualizado em 16/06/2026 às 00:53
A Noruega quer abrir o primeiro túnel marítimo em escala real do mundo, escavando 3 milhões de m³ de rocha para tirar navios do perigoso trecho de Stadhavet.
A Noruega quer abrir o primeiro túnel marítimo em escala real do mundo, escavando 3 milhões de m³ de rocha para tirar navios do perigoso trecho de Stadhavet.
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O túnel marítimo cortaria a península de Stad e tiraria cruzeiros e cargueiros do mar aberto, e até 81% do tráfego local poderia usar a passagem. A obra, porém, foi suspensa em maio por custo de NOK 8,6 bilhões e depende de uma votação no Parlamento marcada para 19 de junho.

A Noruega se prepara para construir o Stad Ship Tunnel, o primeiro túnel marítimo em escala real do mundo, uma passagem aberta dentro de uma montanha para que navios escapem do trecho mais perigoso da sua costa, com mais de 3 milhões de metros cúbicos de rocha a serem escavados. As dimensões e os dados do projeto vêm da Administração Costeira Norueguesa, a Kystverket, enquanto o calendário da obra depende de uma decisão do Parlamento do país, o Storting.

Defendida há mais de um século por engenheiros e marinheiros, a obra ainda não é uma decisão fechada. O projeto foi suspenso em maio de 2026 pelo governo de Jonas Gahr Støre depois que o custo estimado saltou de cerca de NOK 5 bilhões, em 2024, para NOK 8,6 bilhões. No início de junho, os partidos de centro e de esquerda chegaram a um acordo para incluir o financiamento no orçamento nacional revisado, com votação final marcada para 19 de junho, segundo informações divulgadas pelo NSC, e, se aprovada, a construção começa no início de 2027 e tem conclusão prevista para 2031.

Por que o trecho de Stadhavet é tão perigoso

O Stadhavet mata pessoas regularmente. Cada acidente marítimo evitado tem valor humano que ultrapassa qualquer cálculo financeiro. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)
O Stadhavet mata pessoas regularmente. Cada acidente marítimo evitado tem valor humano que ultrapassa qualquer cálculo financeiro. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)

O mar diante da península de Stad é tido como o pedaço mais traiçoeiro da navegação costeira norueguesa. Sem ilhas próximas para servir de barreira natural, o trecho de Stadhavet, no oeste do país, fica totalmente exposto a tempestades, ventos fortes e ondas que chegam de várias direções ao mesmo tempo. É justamente essa exposição que o túnel marítimo pretende eliminar.

Os números ajudam a medir o tamanho do risco. O farol de Kråkenes, perto de Stad, registra mais de 100 dias de tempestade por ano, e a combinação de correntes oceânicas com a topografia submarina gera o chamado mar cruzado, com ondas altíssimas vindas de pontos diferentes, especialmente perigoso para as embarcações. As condições adversas podem durar dias e obrigam navios a esperar ou mudar de rota, e, desde 1900, mais de 30 pessoas morreram em acidentes na região, segundo registros oficiais, além de dezenas de embarcações naufragadas durante e após a Segunda Guerra Mundial.

O que será o túnel marítimo de Stad

O túnel elimina a exposição a um dos mares mais perigosos da Europa. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)
O túnel elimina a exposição a um dos mares mais perigosos da Europa. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)

O Stad Ship Tunnel atravessa a península de lado a lado, ligando o mar de uma ponta à outra. A ideia é criar uma passagem subterrânea de mar a mar que permita às embarcações evitar por completo o trecho perigoso de Stadhavet. Pelas dimensões oficiais da Kystverket, o túnel marítimo terá 1.700 metros no trecho principal, ou 2.200 metros com toda a estrutura de aproximação, além de 49 a 50 metros de altura interna, 36 metros de largura e profundidade suficiente para navios com calado de até 12 metros.

A pesca, a aquicultura, o turismo de cruzeiro e o transporte de cargas no oeste da Noruega dependem do mar. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)
A pesca, a aquicultura, o turismo de cruzeiro e o transporte de cargas no oeste da Noruega dependem do mar. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)

A escavação tem proporções industriais. Serão retirados cerca de 3 milhões de metros cúbicos de rocha, o equivalente a 5,4 milhões de metros cúbicos de material desmontado, transportados em aproximadamente 750 mil cargas de caminhão. As medidas internas comportam os navios da Hurtigruten e da Havila, as duas principais linhas de cruzeiros costeiros da Noruega, que levam passageiros e carga na rota tradicional entre Bergen e Kirkenes, e cerca de 81% do tráfego marítimo atual da região poderá usar a passagem.

Região do túnel. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)
Região do túnel. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)

Como vai funcionar a navegação dentro da montanha

Daqui a cinco anos, se tudo correr conforme o plano, navios poderão entrar de um lado da península de Stad, viajar 10 minutos pelo interior de uma rocha, e sair do outro lado, deixando para trás o trecho marítimo que matou marinheiros por séculos. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)
Daqui a cinco anos, se tudo correr conforme o plano, navios poderão entrar de um lado da península de Stad, viajar 10 minutos pelo interior de uma rocha, e sair do outro lado, deixando para trás o trecho marítimo que matou marinheiros por séculos. (Foto: Kystverket, Snøhetta, Plomp)

A operação será conduzida como um controle de tráfego aéreo, só que para o mar. O centro de controle ficará na prefeitura de Fedje, no oeste da Noruega, e cada embarcação receberá um horário de passagem, parecido com os slots de pouso e decolagem dos aeroportos. A travessia pelo túnel marítimo será gratuita, sem pedágio, com prioridade para o tráfego comercial, sobretudo os cruzeiros da Hurtigruten e da Havila, enquanto barcos de recreio e embarcações menores usarão horários alternativos.

O fluxo será em mão única, com horários que se alternam entre as direções. A velocidade ficará limitada a cerca de 15 km/h, ou 8 nós, para os navios maiores, e o tempo médio de travessia será de aproximadamente 10 minutos. É esse intervalo curto que substituirá horas de exposição ao mar de Stadhavet, um dos mais perigosos da Europa, com a montanha funcionando como abrigo no lugar do mar aberto.

Custos, suspensão e a votação que decide a obra

O maior obstáculo do projeto não é técnico, e sim financeiro. Defendido por mais de cem anos, o túnel marítimo foi suspenso em maio de 2026 pelo governo de Jonas Gahr Støre depois que a estimativa de custo subiu de cerca de NOK 5 bilhões, em 2024, para NOK 8,6 bilhões. O salto no valor está no centro do debate sobre seguir ou não com a construção.

A retomada depende de uma decisão do Parlamento marcada para o meio de junho. No início do mês, os partidos de centro e de esquerda do Storting fecharam um acordo para incluir o financiamento no orçamento nacional revisado, e a votação final está prevista para 19 de junho. Se for aprovada como se espera, a obra começa no início de 2027 e deve ser concluída por volta de 2031, mas, até o voto, o futuro da passagem segue em aberto.

Se sair do papel, o Stad Ship Tunnel será o primeiro túnel marítimo em escala real do mundo, com 1.700 metros e cerca de 3 milhões de metros cúbicos de rocha escavados da península de Stad para que navios cruzem uma montanha em cerca de 10 minutos. A passagem tiraria as embarcações do trecho de Stadhavet, onde mais de 30 pessoas morreram desde 1900, e poderia atender cerca de 81% do tráfego da região.

O projeto, no entanto, foi suspenso em maio por causa de um custo que chegou a NOK 8,6 bilhões e só avança se o Parlamento aprovar o financiamento na votação de 19 de junho, abrindo caminho para uma obra prevista para começar em 2027 e terminar em 2031.

E você, acha que um túnel marítimo dentro de uma montanha compensa o investimento bilionário, ou o dinheiro seria melhor aplicado em outras soluções de segurança no mar? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre grandes obras de engenharia, com respeito às diferentes visões.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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