Bolhas de gás observadas em uma mina profunda na Albânia levaram cientistas a investigar um fluxo raro de hidrogênio natural, com alta concentração e possível relação com formações geológicas pouco estudadas.
Uma equipe internacional de cientistas identificou, nas profundezas da mina de cromita de Bulqizë, na Albânia, um fluxo de hidrogênio natural saindo de uma piscina subterrânea a cerca de 1.000 metros de profundidade.
O fenômeno foi descrito em estudo publicado na revista Science em 8 de fevereiro de 2024 e chama atenção dos pesquisadores porque o gás emerge em grande volume, com composição aproximada de 84% de hidrogênio, além de metano e nitrogênio em proporções menores.
Nas galerias da mina, o gás sobe pela água em bolhas constantes, formando uma espécie de “jacuzzi” subterrânea em uma piscina de drenagem.
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De acordo com a Universidade Grenoble Alpes, uma das instituições envolvidas no estudo, essa manifestação ocupa uma área de cerca de 30 metros quadrados e libera gás quase puro a partir de pontos localizados nas áreas mais profundas da operação.
O achado não representa, por enquanto, uma fonte energética pronta para exploração comercial.
Ainda assim, a descoberta levou cientistas a ampliar a análise sobre a possibilidade de existirem reservatórios naturais de hidrogênio em formações geológicas que, até pouco tempo atrás, não estavam entre os principais alvos da indústria de energia.
Hidrogênio natural na mina de Bulqizë
A mina de Bulqizë fica em uma região conhecida por depósitos de cromita, minério associado ao cromo.
O local já havia registrado episódios de gás inflamável desde 1992 e explosões em anos posteriores, incluindo 2011, 2017 e 2023, segundo o relato original do estudo e reportagens científicas sobre a descoberta.
Durante a investigação, os pesquisadores analisaram o gás que escapava da piscina subterrânea e de outros pontos da mina.
As medições indicaram que a piscina libera cerca de 11 toneladas de hidrogênio por ano, o equivalente a aproximadamente 34 quilos por dia.
Quando os demais fluxos observados em um poço e em uma galeria são somados, a taxa mínima de emissão na mina chega a 200 toneladas de hidrogênio por ano.
Esse volume foi descrito pela Universidade Grenoble Alpes como o maior fluxo natural de H2 já registrado até a publicação do estudo.
A formulação exige precisão: o dado se refere ao fluxo medido de gás, e não à confirmação de que se trata do maior depósito de hidrogênio natural do planeta.
A estimativa para o reservatório abaixo da mina varia de 5.000 a 50.000 toneladas.
Os próprios pesquisadores, no entanto, tratam esse número como uma projeção baseada em observações, medições e simulações, e não como uma medição direta de todo o volume disponível no subsolo.
No artigo científico, os autores afirmam que o estudo revela “uma alta taxa de emissão de H2 geológico quase puro” e sugere o potencial de uma nova fonte primária de energia.
A declaração indica o interesse científico em torno do caso, mas também delimita o estágio atual da pesquisa, voltado à caracterização geológica do fenômeno.
Por que o hidrogênio natural entrou no radar da ciência
O hidrogênio é estudado como alternativa energética porque pode ser usado como combustível sem liberar dióxido de carbono no momento da queima.
Hoje, porém, parte relevante do hidrogênio usado industrialmente é produzida por processos ligados ao gás natural, com consumo de energia e emissão de gases de efeito estufa.
Nesse contexto, o chamado hidrogênio geológico passou a ser investigado com mais atenção por pesquisadores e empresas do setor energético.
Ele se forma naturalmente no subsolo, em reações entre água e minerais ricos em ferro, e pode ficar acumulado em determinadas estruturas geológicas.

Crédito da imagem: SvedOliver/Shutterstock.com
Durante décadas, havia uma percepção recorrente na literatura científica de que grandes acúmulos naturais de hidrogênio seriam pouco prováveis.
A explicação está na alta reatividade do gás e na facilidade com que ele pode escapar por fraturas e poros das rochas.
O caso de Bulqizë passou a ser analisado justamente por reunir condições incomuns de observação.
A mina parece ter interceptado um sistema profundo ligado a uma zona de falha, o que permitiu que o gás acumulado escapasse por pontos específicos dentro das galerias abertas pela mineração.
Ofiolito de Bulqizë pode explicar as bolhas de hidrogênio
Um dos elementos centrais da pesquisa é a geologia da região.
A mina está localizada no chamado ofiolito de Bulqizë, uma formação composta por rochas associadas à crosta oceânica e ao manto terrestre que foram deslocadas para áreas continentais ao longo de processos tectônicos.
Essas rochas têm importância para o estudo porque podem gerar hidrogênio quando minerais ricos em ferro reagem com água.
Esse processo já foi associado a fontes alcalinas e emissões naturais de H2 em diferentes ambientes geológicos no mundo.
Para os autores do estudo, a descoberta indica que ofiolitos podem funcionar não apenas como rochas geradoras de hidrogênio, mas também como estruturas capazes de abrigar reservatórios ricos nesse gás.
A hipótese amplia o interesse científico por regiões com formações semelhantes, embora não permita concluir que todo ofiolito contenha volumes exploráveis.
A Universidade Grenoble Alpes destacou que essas formações são extensas e estão distribuídas em diferentes áreas do planeta.
A instituição também ressaltou que ainda é necessário investigar, caso a caso, se sistemas geológicos parecidos poderiam ser aproveitados com segurança, viabilidade econômica e baixo impacto ambiental.
Descoberta ainda não garante exploração comercial
Apesar da repercussão, a equipe científica não apresentou o hidrogênio natural como solução imediata para a transição energética.
Em comunicado sobre o estudo, a Universidade Grenoble Alpes afirmou que ainda é cedo para determinar se esse recurso terá papel significativo na matriz energética ou se sua aplicação ficará restrita a situações específicas.
A avaliação envolve também questões ambientais.
O hidrogênio geológico não deve ser classificado automaticamente como renovável, segundo pesquisadores da área, porque o tempo de formação do gás no subsolo pode ser maior do que o período necessário para extraí-lo em uma eventual operação.
Outro ponto observado por cientistas é a existência de ambientes profundos que podem abrigar ecossistemas sensíveis.
Alguns microrganismos utilizam o H2 como fonte de energia, o que exige estudos antes de qualquer intervenção voltada à exploração em larga escala.
A descoberta na mina albanesa mostra que há hidrogênio natural em fluxo expressivo sob a Europa, mas não comprova que a exploração desse recurso seja simples, barata ou ambientalmente segura.
As próximas etapas dependem de pesquisas sobre a formação dos reservatórios, os mecanismos de retenção do gás e os sinais geológicos que podem indicar áreas promissoras.
No caso de Bulqizë, há ainda uma dimensão operacional.
A presença de gás inflamável em uma mina subterrânea tem implicações diretas para a segurança de trabalhadores e para a rotina da mineração.
As explosões associadas ao local reforçam a necessidade de monitoramento, ventilação adequada e avaliação técnica contínua.
Reservatório de hidrogênio sob a Europa
A descoberta na Albânia ganhou repercussão por reunir três fatores relevantes para a pesquisa: hidrogênio em alta concentração, fluxo natural mensurável e acesso direto a galerias profundas.
A mina permitiu aos cientistas observar o gás escapando por uma piscina e por estruturas subterrâneas já abertas pela atividade mineradora.
Essa condição transforma Bulqizë em um ponto de estudo para uma área ainda recente da geologia energética.
O local ajuda a investigar se o hidrogênio pode se acumular com mais frequência do que se considerava anteriormente e se certos tipos de rocha devem receber maior atenção em mapeamentos científicos.
O uso da expressão “maior depósito do mundo”, porém, precisa ser tratado com cautela.
O dado mais sólido divulgado pelo estudo é o de maior fluxo natural registrado de hidrogênio, com emissão mínima estimada em 200 toneladas por ano.
O tamanho total do reservatório permanece dentro de uma faixa ampla de estimativa.
A imagem da “jacuzzi” subterrânea ajuda a visualizar o fenômeno, mas a relevância científica está no que as bolhas indicam sobre o subsolo.
O caso sugere que parte do hidrogênio estudado pela indústria pode estar associada a formações geológicas ainda pouco exploradas do ponto de vista energético.
Para pesquisadores, a principal questão agora é entender se ocorrências semelhantes existem em outras regiões e quais critérios podem diferenciá-las de simples emissões localizadas.
A resposta depende de novos levantamentos, medições de campo e estudos sobre o comportamento do gás em profundidade.


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