1. Início
  2. Construção
  3. Concreto feito com água do mar e areia marinha desafia uma das regras básicas da construção civil, troca o aço comum por armaduras resistentes à corrosão e pode transformar ilhas e obras costeiras em laboratórios de uma nova engenharia salgada
15 comentários 6 min de leitura

Concreto feito com água do mar e areia marinha desafia uma das regras básicas da construção civil, troca o aço comum por armaduras resistentes à corrosão e pode transformar ilhas e obras costeiras em laboratórios de uma nova engenharia salgada

Imagem de perfil do autor Valdemar Medeiros
Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 13/06/2026 às 00:55 Atualizado em 14/06/2026 às 17:25
Assista o vídeoPesquisas mostram que concreto com água do mar e areia marinha, reforçado com compósitos anticorrosão, pode mudar obras costeiras, portos e ilhas.
Concreto feito com água do mar
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
196 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Pesquisas mostram que concreto com água do mar e areia marinha, reforçado com compósitos anticorrosão, pode mudar obras costeiras, portos e ilhas.

Durante décadas, uma das regras mais repetidas da engenharia civil foi clara: água do mar e areia marinha não devem ser usadas no concreto armado convencional. O motivo sempre foi o mesmo. Os sais e cloretos presentes nesses materiais aceleram a corrosão das armaduras de aço e comprometem a durabilidade das estruturas. Agora, essa lógica começa a ser reescrita. Pesquisadores passaram a desenvolver uma nova geração de concreto com água do mar e areia marinha pensada justamente para funcionar em ambientes costeiros, onde esses insumos estão disponíveis em abundância.

A mudança não aconteceu porque o sal deixou de ser agressivo, mas porque a engenharia começou a trocar o elemento mais vulnerável do sistema. Em vez de depender do aço tradicional, parte das pesquisas mais avançadas passou a usar compósitos reforçados com fibras, os FRP, materiais muito mais resistentes à corrosão. Com isso, o que antes era tratado como material inadequado começa a ganhar espaço em projetos de infraestrutura marinha, pontes costeiras, quebra-mares, ilhas e obras em regiões com escassez de água doce e areia de rio.

Concreto convencional depende de água doce, areia de rio e aço, e é justamente aí que começa o problema

A construção civil continua entre as atividades que mais consomem matérias-primas no planeta. No caso do concreto convencional, a combinação dominante ao longo de mais de um século sempre envolveu água doce, areia de rio e armaduras de aço.

Esse modelo funciona bem em grande parte das obras urbanas, mas se torna mais caro e mais difícil em áreas costeiras, ilhas e arquipélagos, onde transportar esses materiais pode pesar fortemente no custo total da construção.

Pesquisas mostram que concreto com água do mar e areia marinha, reforçado com compósitos anticorrosão, pode mudar obras costeiras, portos e ilhas.
Concreto feito com água do mar

Foi exatamente essa limitação que levou pesquisadores a estudar o chamado seawater sea-sand concrete, o concreto produzido com água do mar e areia marinha. A ideia é simples na origem e revolucionária na prática: usar na obra justamente os materiais já disponíveis no litoral, reduzindo transporte, pressão sobre rios e consumo de água doce. O obstáculo histórico nunca esteve no concreto isoladamente, mas no comportamento da armadura metálica dentro dele.

O maior obstáculo sempre foi a corrosão do aço, não a resistência do concreto

Segundo a revisão publicada pela Universidade de Miami, concretos produzidos com água do mar e areia marinha podem apresentar desempenho mecânico comparável ao do concreto convencional em várias condições, inclusive com bom desenvolvimento de resistência. O problema central não está no corpo do concreto, mas na presença de íons cloreto, que aceleram a corrosão das armaduras de aço e reduzem a vida útil estrutural.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Esse ponto travou por décadas a adoção mais ampla da tecnologia. Enquanto a estrutura dependesse de aço convencional, o uso direto de materiais marinhos continuaria sendo visto como alto risco. Por isso, a verdadeira virada não veio da água nem da areia, mas da substituição da armadura por materiais menos vulneráveis ao ambiente marinho.

FRP virou a peça que permitiu usar água do mar e areia marinha sem repetir o velho problema

A revisão da Universidade de Miami aponta que a combinação entre concreto com água do mar e areia marinha e reforços com FRP, os polímeros reforçados com fibras, pode resolver justamente o problema da durabilidade associado à alta concentração de cloretos.

Como esses compósitos não se comportam como o aço diante da corrosão, eles abrem espaço para uma nova lógica estrutural em ambientes agressivos.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Na prática, isso significa trocar uma das bases mais tradicionais da engenharia por outra solução de reforço, mais cara em muitos casos, mas muito mais adaptada à realidade costeira. Essa mudança transforma materiais antes evitados em matéria-prima potencial para estruturas duráveis, especialmente onde o ambiente marinho já faz parte do cenário operacional da obra.

Pesquisadores já desenvolveram concreto marinho ultrarresistente com mais de 180 MPa

Segundo a Universidade Politécnica de Hong Kong, essa tecnologia já avançou muito além da teoria. As equipes de pesquisa ligadas ao tema conseguiram desenvolver concreto marinho de ultra-alto desempenho com resistência à compressão superior a 180 MPa, um patamar muito acima do concreto convencional usado na maior parte dos edifícios residenciais e comerciais.

Pesquisas mostram que concreto com água do mar e areia marinha, reforçado com compósitos anticorrosão, pode mudar obras costeiras, portos e ilhas.
Concreto feito com água do mar

O avanço não ficou restrito à mistura em laboratório. A mesma equipe relata o desenvolvimento de membros estruturais e conexões inovadoras em sistemas que combinam FRP com esse concreto marinho de ultra-alto desempenho. Isso mostra que o debate já saiu da fase de curiosidade acadêmica e entrou no terreno da aplicação estrutural real.

Portos, pontes costeiras, ilhas e infraestrutura marinha estão entre os usos mais promissores

A Universidade Politécnica de Hong Kong destaca que o uso de água do mar e areia marinha faz ainda mais sentido em obras localizadas justamente em zonas costeiras, onde o transporte de água doce e areia de rio aumenta custos, consumo de combustível e emissões logísticas. Nesses ambientes, trabalhar com materiais disponíveis localmente pode mudar a equação econômica de forma relevante.

Entre as aplicações mais promissoras aparecem infraestruturas marinhas, obras costeiras, pontes, ilhas artificiais, instalações offshore e estruturas expostas continuamente ao ambiente marítimo.

Em locais remotos, o ganho potencial não está apenas na durabilidade, mas também na simplificação da cadeia de suprimentos e na redução da dependência de insumos transportados de longas distâncias.

A engenharia ainda enfrenta custos, testes de longo prazo e barreiras para adoção em massa

Apesar dos avanços, a tecnologia ainda não se tornou solução dominante na construção civil. A própria revisão da Universidade de Miami indica que a adoção mais ampla depende de avanços em durabilidade de longo prazo, comportamento estrutural, normatização e viabilidade econômica, especialmente porque os materiais compósitos usados como substitutos do aço continuam mais caros em muitas aplicações.

Mesmo assim, o movimento é claro. O número crescente de estudos, projetos e sistemas estruturais desenvolvidos com FRP e seawater sea-sand concrete mostra que a engenharia passou a tratar essa possibilidade como uma das frentes mais sérias para obras em regiões costeiras.

O que antes parecia violar uma regra elementar da construção hoje começa a ser visto como uma alternativa tecnicamente plausível em cenários específicos.

Uma regra histórica da construção civil começa a ser reescrita

Durante mais de um século, água doce, areia de rio e aço formaram a base dominante do concreto armado moderno. Agora, as pesquisas mais avançadas indicam que essa combinação não precisa ser universal.

Em ambientes marinhos, onde a logística pesa, os recursos naturais são diferentes e a corrosão é uma ameaça constante, uma nova geração de concreto começa a ganhar espaço.

Se os estudos continuarem confirmando a durabilidade dos sistemas reforçados com compósitos resistentes à corrosão, a água do mar e a areia marinha podem deixar de ser tratadas como inimigas da construção civil e passar a integrar a solução em algumas das obras mais difíceis do planeta. Não é o fim do concreto convencional, mas pode ser o começo de uma nova lógica para a engenharia costeira.

Inscreva-se
Notificar de
guest
15 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Jorge Jr.
Jorge Jr.
15/06/2026 23:23

Só por curiosidade alguém sabe quanto tempo dura uma construção com aço e com bambú utilizando água e areia marinhas? Sendo o sal altamente corrosivo pesquisas já devem ter sido feitas. Obrigado.

Carlos colovini
Carlos colovini
14/06/2026 08:46

Na praia Eu usei a fibra das hastes do guarda sol sucateado para fazer uma estrutura em baixo da tela, esta firme e forte um amigo ha muitos anos, usou a fibra da taquara para fazer pilares de uma garagem, ele faleceu e a garagem esta la bem bela!

Maria Marta
Maria Marta
14/06/2026 07:20

Mais exploração de recursos naturais para empreendimento imobiliário.
A ganância é prejudicial, é abusiva e destrói vidas!

Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
15
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x