Com medições feitas do espaço, o satélite SWOT revela que os rios do planeta variaram de forma diferente da prevista, desafia estimativas antigas e expõe novas pistas sobre secas extremas e o comportamento da água na Terra
Uma missão espacial liderada por NASA e França abriu uma nova janela para entender o comportamento dos rios ao redor do mundo. Pela primeira vez, cientistas conseguiram acompanhar, mês a mês, como grandes cursos d’água aumentam e diminuem ao longo do ano com um nível de detalhe sem precedentes.
Os dados mostram que a oscilação no volume dos rios globais foi menor do que apontavam estimativas anteriores baseadas em modelos. A descoberta chamou a atenção dos pesquisadores e pode mudar a forma como a ciência monitora secas, cheias e o impacto das mudanças climáticas sobre os recursos hídricos.
O que o satélite SWOT conseguiu observar
Lançado em 2022, o satélite SWOT foi criado para observar a água da Terra com alta precisão. Diferente de missões anteriores, ele não se limita aos oceanos: também consegue acompanhar quase todos os grandes lagos e rios do planeta.
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Embora o equipamento não meça diretamente o volume absoluto de água de cada rio, ele registra mudanças importantes, como largura, altura da superfície e inclinação do fluxo. Com isso, os pesquisadores conseguem montar um retrato muito mais fiel da dinâmica dos rios ao longo do tempo.
Medições mais completas do que os métodos antigos
NASA’s Scientific Visualization Studio
Durante muitos anos, hidrólogos dependeram de modelos matemáticos ou da combinação de diferentes tipos de estimativas para calcular a variação da água nos rios. O problema é que esses métodos traziam margens maiores de incerteza, principalmente em regiões remotas ou com pouca infraestrutura de monitoramento.
Com o SWOT, largura e altura da água são medidas praticamente ao mesmo tempo por um instrumento de radar extremamente sensível. Isso melhora a precisão das análises e ajuda a reduzir erros que eram comuns em levantamentos anteriores.
O que os números globais revelaram
Os cientistas analisaram cerca de 1,6 milhão de observações feitas pelo satélite. O levantamento acompanhou aproximadamente 127 mil trechos de rios entre outubro de 2023 e setembro de 2024.
No conjunto, os volumes variaram cerca de 313 quilômetros cúbicos de água. Esse total representa uma oscilação aproximadamente 28% menor do que a menor estimativa anterior disponível. Para os pesquisadores, esse resultado pode ter sido fortemente influenciado pela seca histórica registrada na Amazônia durante o período analisado.
Amazônia lidera as maiores mudanças do ano
Mesmo enfrentando uma estiagem extrema, o rio Amazonas foi o que apresentou a maior variação ao longo do ano. Segundo os dados, ele ganhou e perdeu cerca de 172 quilômetros cúbicos de água nesse intervalo.
Para ter ideia da escala, isso seria suficiente para cobrir todo o estado da Califórnia, nos Estados Unidos, com mais de 30 centímetros de água. O dado reforça o tamanho da influência da Amazônia no equilíbrio hídrico global e mostra como eventos extremos podem alterar os resultados planetários.
Rio Nilo surpreende ao variar menos do que o esperado
Se a Amazônia chamou atenção pelo tamanho da oscilação, o Nilo se destacou pelo oposto. O rio mais longo do mundo apresentou uma variação bem menor do que muitos especialistas imaginavam.
Os volumes mudaram cerca de 8,5 quilômetros cúbicos ao longo do período. Entre as possíveis explicações estão a presença de barragens a montante, condições severas de seca e também os desafios naturais de interpretar dados de um instrumento espacial ainda relativamente novo.
Tecnologia ajuda a enxergar o fundo dos rios
Além de acompanhar cheias e vazantes, a missão também está ajudando os pesquisadores a visualizar algo difícil de mapear em campo: o formato dos canais dos rios, incluindo margens e leitos submersos.
Esse tipo de informação é valioso para várias áreas. Pode contribuir para o planejamento da navegação, melhorar previsões de enchentes e ampliar o entendimento sobre como a água circula pelo sistema terrestre. Em muitos lugares do mundo, esse relevo subaquático ainda era pouco conhecido.
Grandes rios exibem diferenças marcantes no nível da água
Os novos dados mostram que os canais fluviais podem ter perfis muito distintos, indo de formatos mais côncavos a mais convexos, de trechos estáveis a regiões altamente variáveis. Isso ajuda a explicar por que alguns rios respondem de maneira tão diferente às mudanças no clima e na vazão.
Em rios como Amazonas, Mississippi, Orinoco, Yangtzé, Ganges, Mekong e Yenisei, os níveis observados variaram mais de 10 metros entre os picos e os períodos de baixa. Essa amplitude revela o quanto os rios podem ser dinâmicos mesmo dentro de um único ano.
Por que essa descoberta é importante
Os pesquisadores consideram os resultados um primeiro passo para responder perguntas antigas sobre o funcionamento dos rios da Terra. Em muitas regiões, faltam estações de medição, e há canais tão isolados que levantamentos por barco ou em solo são praticamente inviáveis.
Com observações mais detalhadas feitas do espaço, a ciência pode avançar na compreensão de temas centrais, como velocidade do fluxo, impacto das chuvas e do degelo, além da forma como a água se distribui entre continentes, rios e oceanos.


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