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Enquanto Musk planeja data centers no espaço a um custo de até US$ 90 milhões por lançamento, uma startup americana quer instalar servidores flutuantes no Oceano Antártico, movidos pela energia das ondas e refrigerados pela água do mar a cerca de 10 graus

Publicado em 16/06/2026 às 20:24
Atualizado em 16/06/2026 às 20:28
Assista o vídeoEnquanto Musk aposta em data centers em órbita, a startup Panthalassa quer servidores flutuantes no oceano, movidos por ondas e refrigerados pelo mar.
Enquanto Musk aposta em data centers em órbita, a startup Panthalassa quer servidores flutuantes no oceano, movidos por ondas e refrigerados pelo mar.
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A startup é a Panthalassa, de Portland, apoiada por Peter Thiel, que testa o protótipo Ocean-2 e mira unidades comerciais em 2027, um ano antes do plano orbital da SpaceX. Mas nenhum sistema de energia das ondas provou ser viável em grande escala, e o projeto pode falhar.

Enquanto Elon Musk vende aos investidores data centers em órbita a um custo de até US$ 90 milhões por lançamento, uma startup americana quer levar os servidores para o fundo do mar, com energia das ondas e refrigeração pela água do Oceano Antártico a cerca de 10 graus. A empresa é a Panthalassa, de Portland, no Oregon, e a sua proposta, os números e os planos foram detalhados pelo CEO e cofundador, Garth Sheldon-Coulson, em reportagem da Forbes divulgada em junho.

A ideia é tão ousada quanto incerta. Apoiada por Peter Thiel e por uma série de fundos do Vale do Silício, a Panthalassa passou a última década desenvolvendo data centers flutuantes que geram a própria eletricidade a partir das ondas do mar aberto e se refrigeram com água fria, e espera ter unidades comerciais em 2027. Vale a ressalva, porém, que nenhum sistema de energia das ondas provou ser comercialmente viável em grande escala até hoje, e o próprio projeto admite o risco de fracasso.

A aposta da startup nos data centers flutuantes

A Panthalassa iniciou testes do Ocean-2, um protótipo de nó de data center localizado na costa do estado de Washington, em 2025
A Panthalassa iniciou testes do Ocean-2, um protótipo de nó de data center localizado na costa do estado de Washington, em 2025

A proposta é tirar os data centers da terra firme e levar tudo para o oceano. A startup defende que o mar fica longe dos contribuintes, das disputas de zoneamento e dos vizinhos incomodados, além de oferecer energia limpa e uma forma barata de refrigerar servidores. “O que estamos fazendo é uma loucura total”, disse Garth Sheldon-Coulson, que aposta em ser a primeira empresa a levar essa operação para o meio do oceano.

O time e o dinheiro ajudam a explicar a ambição. A Panthalassa foi cofundada em 2016 por Sheldon-Coulson, com mestrado no MIT e diploma de direito em Harvard, ao lado do engenheiro Brian Moffatt, e tem na engenharia nomes vindos de SpaceX, Google, Blue Origin, Apple, Boeing, Amazon e Tesla. Em maio, a empresa captou US$ 140 milhões em uma rodada Série B, com aportes de Thiel, John Doerr, da TIME Ventures de Marc Benioff, da SciFi Ventures de Max Levchin e da Gigascale Capital, de Mike Schroepfer, que foi diretor de tecnologia da Meta.

Como funciona o protótipo Ocean-2

Panthalassa
Panthalassa

O protótipo lembra mais um pirulito industrial do que um data center. Testado na costa do estado de Washington desde 2025, o Ocean-2 é uma torre de aço de 70 metros submersa, com uma cabeça arredondada boiando acima da água. Conforme balança nas ondas, a água é bombeada pelo pescoço até um reservatório esférico no topo e passa por uma turbina capaz de gerar até 1 MW de eletricidade contínua, e a unidade comercial prevista para o próximo ano levará chips para rodar tarefas de IA a bordo e transmitir dados via satélite, como no conceito de Musk.

Outro diferencial que a startup destaca é operar em mar profundo e sem amarras. Os nós ficam onde a energia das ondas é mais forte, são autopropulsados, conseguem se reposicionar sozinhos e não têm ligação com o fundo do mar. São construídos com materiais de navios de grande porte, aço espesso com revestimento de zinco ou alumínio, e devem durar pelo menos 15 anos, com a troca da carga de computação a cada cinco anos, mais ou menos.

Energia das ondas e refrigeração a 10 graus

A tese da startup se apoia em energia barata e constante. Sheldon-Coulson afirma que o custo da eletricidade fica em torno de 2 centavos de dólar por kWh, com fator de capacidade acima de 90%, e o investidor Mike Schroepfer estima uma vantagem de custo de até 100 vezes em relação a lançar equipamentos ao espaço, já que a SpaceX cobra até US$ 90 milhões por lançamento. A Panthalassa quer instalar centenas, e depois milhares, de boias nos mares entre o Polo Sul, a América do Sul e a África, onde as ondas são mais constantes e não há navegação, usando a energia ali mesmo.

A refrigeração é a parte mais simples do plano. A temperatura média nas regiões pretendidas é de cerca de 10 graus, o que dispensa resfriadores específicos, torres de resfriamento e água potável, em contraste com os data centers em terra, que transformaram a refrigeração em uma briga por água, energia e licenças, e com o conceito orbital de Musk, em que os satélites enfrentam variações de 170 graus negativos a 120 positivos no vácuo. A partir dos anos 2030, a startup também quer usar os nós para produzir hidrogênio ou amônia sem carbono, a partir de água do mar dessalinizada.

Por que o oceano já engoliu planos parecidos

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A história da energia das ondas é cheia de banhos de realidade. Extrair energia do oceano fascina cientistas há mais de um século, mas nenhum sistema de grande escala provou ser comercialmente viável, e o mar acabou dando a última palavra em todos os planos de negócios anteriores. Uma estimativa da Agência Internacional de Energia aponta que as ondas poderiam render milhares de TWh por ano, embora capturar uma fração disso de forma constante ainda seja um desafio sem solução. A Microsoft testou unidades submarinas na costa da Escócia e encerrou a pesquisa em 2024, e a China experimenta data centers submarinos movidos a energia eólica, mas esses casos usam o oceano sobretudo para refrigerar.

Antes de tudo, as máquinas precisam sobreviver ao próprio ambiente. O Oceano Antártico é dos mais violentos do planeta, com o sistema de ondas mais poderoso que existe, e a própria reportagem reconhece a chance real de o plano da startup fracassar. Do outro lado, os documentos de abertura de capital da SpaceX avisam que o projeto orbital envolve tecnologias não comprovadas que podem não alcançar viabilidade comercial, com lançamentos previstos só para 2028, ou seja, tanto a aposta no mar quanto a no espaço seguem ambiciosas e sem comprovação, com um potencial de ganho enorme caso uma delas dê certo.

Enquanto Musk oferece data centers em órbita a até US$ 90 milhões por lançamento, com as ressalvas dos próprios documentos da SpaceX e início previsto só para 2028, a startup Panthalassa quer servidores flutuantes no Oceano Antártico, movidos por ondas e refrigerados pela água do mar a cerca de 10 graus. Apoiada por Peter Thiel e por uma rodada de US$ 140 milhões, a empresa testa o protótipo Ocean-2 e promete unidades comerciais em 2027, com custos que diz serem muito menores. Ainda assim, nenhum sistema de energia das ondas provou ser viável em grande escala, o Oceano Antártico é um laboratório brutal e o plano pode falhar, o que deixa as duas apostas, no mar e no espaço, na mesma corrida de alto risco por uma computação mais barata e limpa.

E você, em qual aposta confiaria mais para o futuro dos data centers, no oceano ou na órbita? Acha que a energia das ondas finalmente vai vingar ou que o mar vai engolir mais esse plano? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre tecnologia e energia, com respeito às diferentes visões.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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