Lee Jong-rak tem mais de setenta anos, nove filhos adotivos com deficiência e uma caixa na parede que permanece aquecida vinte e quatro horas por dia numa rua de Seul. Desde 2009, ela já recebeu mais de dois mil bebês cujas mães partiram sem deixar sequer um nome para trás.
Em 2009, um pastor chamado Lee Jong-rak construiu, com a ajuda de um amigo dono de uma loja de ferragens, uma pequena abertura embutida na parede de um prédio em Seul. A caixa na parede ficou aquecida, iluminada e vigiada a partir daquele dia. Qualquer pai ou mãe podia abri-la, depositar um recém-nascido e ir embora sem revelar o próprio nome, sem registro, sem julgamento. O alarme disparava assim que a porta se fechava, e alguém corria para lá em segundos.
O que começou como uma iniciativa solitária virou, ao longo de dezessete anos, algo que a Coreia do Sul não tinha visto antes. Mais de dois mil bebês passaram por essa caixa na parede, segundo o documentário “Korean Next Door”, produzido pela Howdy Korea. Muitos tinham deficiências. Alguns vieram de mães adolescentes em desespero. Outros chegaram de madrugada, enrolados, deixados por mulheres que a sociedade havia expulsado antes mesmo de o bebê nascer. Lee Jong-rak ficou na porta de cada um.
Uma caixa, um alarme, dois ou três segundos
O mecanismo é simples, mas o que ele representa não é.
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A abertura fica embutida na parede do prédio onde o pastor viveu por anos. Quando alguém deposita um bebê e fecha a porta, um alarme dispara imediatamente.
Os funcionários que vigiam o local a noite toda correm para o exterior, não apenas para recolher a criança, mas também para tentar alcançar o pai ou a mãe antes que desapareçam.
O objetivo não é punir. É oferecer uma última chance de mudar de ideia.
Segundo o documentário, o pastor descreve o tempo de resposta como dois ou três segundos após o bebê ser tocado no interior da caixa.
É um detalhe pequeno, mas diz tudo sobre como esse lugar foi pensado. Não é um depósito. É um posto de escuta com calor humano embutido na parede de alvenaria.
Quem são as mães que chegam até aqui
Lee Jong-rak as enumera sem rodeios: estudantes do ensino médio, trabalhadoras migrantes, mulheres grávidas de filhos concebidos em situações de violência dentro das próprias famílias.
Mulheres que tentaram mandar currículos para sustentar um filho e não foram contratadas porque a gravidez constava no registro.
Mulheres que ouviram dos próprios pais que não eram mais filhas deles.
Um dos casos que o pastor não consegue esquecer é o de uma estudante do penúltimo ano do ensino médio.
Ela subiu uma montanha atrás da escola com a intenção de enterrar o bebê assim que nascesse. Cavou um buraco no chão, mas quanto mais tentava, mais o recém-nascido chorava.
Ela desceu a montanha, carregando o filho nos braços, e caminhou até a caixa. O bebê chegou saudável, segundo o relato do pastor no documentário.
A lei que o pastor ajudou a criar
Antes da caixa existir, e antes de uma legislação específica, o nascimento num hospital vinculava automaticamente a criança ao registro da mãe.
Para mulheres em situação de vulnerabilidade, isso significava exposição, cobrança social e, em muitos casos, a morte do recém-nascido por abandono em condições inseguras.
Lee Jong-rak identificou esse problema antes de qualquer instância oficial e foi o primeiro a levantar publicamente a necessidade de uma mudança.
Ele pressionou legisladores por anos até que uma lei garantisse o direito ao parto anônimo, segundo a narrativa do documentário da Howdy Korea.
Com a medida em vigor, menos bebês foram deixados na caixa, o que, para o pastor, é exatamente o resultado esperado.
O objetivo nunca foi aumentar o número de crianças depositadas ali, mas reduzir o número de mortes. A lei e a caixa funcionam juntas, como duas respostas para o mesmo problema.
Os filhos que ele não deixou ir embora
Ao longo dos anos, Lee Jong-rak adotou nove crianças com deficiência. Não de forma simbólica. Ele as criou, viveu com elas, perdeu algumas delas e chorou por cada uma.
Na parede de seu prédio há fotografias de crianças que passaram por ali, algumas adotadas por outras famílias, algumas que ele mesmo acolheu, algumas que não sobreviveram.
A história de Hanna é a mais presente. Ela não chegou pela caixa. Veio nos primeiros tempos, quando médicos traziam bebês sem destino.
Tinha anencefalia, uma condição em que o cérebro não se desenvolve. Os médicos não esperavam que vivesse.
O pastor não conseguiu se separar dela. Quando Hanna morreu, ele conta que parou o carro no meio da estrada e chorou tanto que não conseguia dirigir.
Foi nesse momento, segundo ele, que decidiu adotar legalmente todas as crianças que havia acolhido.
Lee Eun-man: o filho que veio antes de tudo
Antes da caixa, antes do pastorado, havia um filho biológico chamado Eun-man.
O nome significa “cheio da graça de Deus”. Ele nasceu com paralisia total e viveu a vida inteira acamado. Morreu em 2019, aos 32 anos.
Foi Eun-man quem transformou Lee Jong-rak. O pastor conta que, antes disso, só pensava em sucesso pessoal. A ideia de se tornar ministro era a última coisa que ele considerava.
A Fundação Eun-man, que leva o nome do filho, foi criada para ampliar o trabalho que começou na caixa da parede.
Ela mantém um abrigo temporário para crianças em situações de emergência, aguardando avaliação para adoção ou encaminhamento a instituições.
O pastor repete o nome do filho várias vezes durante o documentário. É um nome que ele nunca parece se cansar de pronunciar.
Uma casa cheia, uma esposa com Alzheimer e sem aposentadoria
Hoje, Lee Jong-rak vive com mais de treze crianças adotadas, algumas por lei, outras de coração, conforme descreve o documentário.
A rotina inclui banho, jantar, visitas aos quartos das crianças acamadas e verificações na nova instalação da fundação.
Ele não janta mais com os filhos com frequência. Dedica esse tempo a cuidar da esposa, que sofre de Alzheimer.
O prédio não recebe financiamento do governo. Funciona com doações, voluntários e orações, segundo o próprio pastor.
Quando a equipe do documentário pergunta se ele não está cansado, ele responde que aquilo é apenas sua rotina diária.
E quando perguntam como quer ser lembrado pelos filhos, ele diz que preferiria não ser lembrado pelo esforço.
“Espero que nossos filhos se tornem pessoas necessárias para a sociedade e para aqueles que estão passando por dificuldades”, afirmou, conforme registrado no documentário da Howdy Korea.
O que a caixa na parede diz sobre a Coreia do Sul
Mes Aynak é uma mina. A caixa de bebês é outra coisa: um espelho.
Ela existe porque a Coreia do Sul, apesar do desenvolvimento econômico acelerado, mantém estruturas culturais rígidas que punem certas mulheres com exclusão total.
Ser mãe solteira, jovem, migrante ou vítima de violência familiar ainda carrega um custo social alto o suficiente para levar alguém a subir uma montanha com um recém-nascido nos braços.
O pastor Lee não resolve esse problema. Ele atende suas consequências mais extremas.
Mas a existência da caixa e a lei que ele ajudou a criar mostram que um indivíduo pode mover estruturas, mesmo que devagar.
Dezessete anos depois, a caixa continua aquecida. O alarme continua funcionando. E Lee Jong-rak continua aparecendo.
A caixa de bebês criada pelo pastor Lee Jong-rak salva vidas ou encobre um problema social que a sociedade coreana precisa enfrentar de outra forma? O modelo deveria ser replicado em outros países? Deixe sua opinião nos comentários.


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