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Cientista cria mini-universo com 24 mil átomos ultrafrios e mostra que o tempo pode emergir das mudanças internas do sistema, sem depender de um relógio externo

Escrito por Geovane Souza
Publicado em 16/06/2026 às 19:33
Atualizado em 16/06/2026 às 19:35
Experimento com 24 mil átomos ultrafrios sugere que o tempo pode emergir de mudanças internas em um sistema quântico isolado
Experimento com 24 mil átomos ultrafrios sugere que o tempo pode emergir de mudanças internas em um sistema quântico isolado
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Experimento com átomos ultrafrios sugere que uma versão interna do tempo pode emergir de mudanças dentro de um sistema quântico isolado, sem depender de um relógio de laboratório

Um experimento feito na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, colocou uma das perguntas mais antigas da física dentro de uma câmara de laboratório: o que é o tempo? A resposta, ainda longe de encerrar o debate, ganhou um novo caminho com a criação de um “mini-universo” formado por cerca de 24 mil átomos ultrafrios de rubídio.

O trabalho, conduzido pelo professor Giovanni Barontini, mostrou que a sequência dos eventos dentro desse sistema pôde ser reconstruída sem usar um relógio externo como referência. Em vez disso, os pesquisadores observaram mudanças internas no próprio conjunto de átomos.

Na prática, o estudo sugere que uma versão do tempo pode emergir da dinâmica do sistema, especialmente da forma como a entropia, associada à dispersão e à desordem das partículas, se movimenta entre duas regiões criadas no experimento.

A descoberta não significa que os cientistas “criaram um universo” no sentido literal, nem que resolveram definitivamente o mistério do tempo. O avanço está em oferecer um modelo controlado para testar ideias que, até pouco tempo atrás, ficavam quase restritas à cosmologia teórica e à gravidade quântica.

Mini-universo foi montado com átomos de rubídio quase no zero absoluto

Segundo informações da Universidade de Birmingham, Barontini usou uma nuvem de 24 mil átomos ultrafrios para montar um sistema quântico altamente isolado, capaz de funcionar como uma analogia simples de um universo fechado. Os átomos foram mantidos em temperaturas extremamente baixas, próximas do zero absoluto, condição necessária para observar comportamentos quânticos coletivos com maior controle.

Mini-universo foi montado com átomos de rubídio quase no zero absoluto
Mini-universo foi montado com átomos de rubídio quase no zero absoluto (Foto: University of Birmingham)

Esse conjunto foi dividido por uma barreira óptica criada com feixes de laser. De um lado ficou uma região observável, chamada de setor “brilhante”; do outro, uma região não observável, chamada de setor “escuro”.

O ponto central é que os átomos podiam atravessar a barreira entre essas duas regiões, mas o sistema como um todo permanecia isolado do ambiente externo. Assim, os pesquisadores podiam acompanhar o que acontecia dentro do setor brilhante e investigar se a ordem dos eventos poderia ser definida apenas por mudanças internas.

No setor brilhante, a nuvem atômica expandia e depois colapsava repetidamente. Por isso, os cientistas compararam esse comportamento a ciclos parecidos com um Big Bang e um Big Crunch, em uma analogia com cenários cosmológicos nos quais o universo se expande e depois se contrai.

O problema do tempo aparece quando a física tenta juntar relatividade e mecânica quântica

O experimento toca em um impasse importante da física moderna. A relatividade geral descreve a gravidade e a estrutura do espaço-tempo em grande escala, enquanto a mecânica quântica descreve partículas e campos em escalas microscópicas. As duas teorias funcionam muito bem em seus próprios domínios, mas ainda não se encaixam completamente.

Um dos obstáculos é justamente o papel do tempo. Em algumas formulações ligadas à gravidade quântica, como a equação de Wheeler-DeWitt, o Universo não possui um relógio externo. Isso cria uma pergunta difícil: se não há um tempo vindo de fora, como saber o que acontece antes e depois?

De acordo com o artigo científico assinado por Giovanni Barontini, o objetivo foi testar construções relacionais do tempo usando átomos frios. Nessa visão, o tempo não precisa ser uma entidade independente; ele pode aparecer a partir das relações entre partes do próprio sistema.

É uma mudança de perspectiva. No cotidiano, estamos acostumados a pensar no tempo como algo que corre sozinho, marcado por relógios, calendários e movimentos previsíveis. Na física fundamental, porém, essa noção pode não ser tão simples.

Tempo entrópico surge quando a distribuição dos átomos muda

A parte mais importante do experimento está no chamado tempo entrópico. Esse conceito foi usado para descrever uma sequência interna de eventos baseada na entropia do setor brilhante, ou seja, na forma como os átomos se espalhavam e se reorganizavam dentro da região observada.

Quando a distribuição das partículas mudava, o sistema podia ser lido como se estivesse avançando no tempo. Quando essa distribuição não apresentava mudança relevante, o tempo interno praticamente deixava de avançar naquele modelo.

Essa leitura permitiu ordenar corretamente os eventos do mini-universo, mesmo durante ciclos de expansão e colapso. Isso é importante porque, em sistemas que crescem e encolhem, nem sempre uma variável simples, como tamanho ou posição, consegue apontar uma direção única para o tempo.

O experimento também indicou que o tempo entrópico podia acelerar ou desacelerar conforme a entropia mudava. Em outras palavras, a passagem do tempo dentro do modelo dependia do ritmo das transformações internas, não de um relógio de bancada.

Esse resultado reforça uma ideia poderosa: talvez o que chamamos de tempo, em certos contextos físicos, não seja uma peça fundamental colocada de fora, mas uma propriedade que aparece quando partes de um sistema se relacionam e mudam.

Resultado não prova como o Universo real funciona, mas abre uma nova janela experimental

Apesar do impacto da descoberta, é importante evitar exageros. O mini-universo criado em laboratório é uma plataforma analógica, não uma réplica completa do cosmos. Ele serve para testar ideias matemáticas e físicas em um ambiente controlado, com variáveis que os pesquisadores conseguem manipular.

O valor do estudo está justamente nessa possibilidade. Questões sobre a origem do tempo, a seta temporal e a relação entre entropia e gravidade quântica costumam ser difíceis de testar diretamente, porque envolvem escalas cósmicas ou condições extremas do início do Universo.

Com átomos ultrafrios, lasers e armadilhas ópticas, os cientistas conseguem criar versões simplificadas desses problemas. Isso permite observar padrões, comparar previsões teóricas com dados experimentais e ajustar modelos que antes ficavam restritos ao papel.

O estudo também mostrou que uma versão da equação de Schrödinger, uma das bases da mecânica quântica, pode ser escrita usando esse tempo interno. Isso sugere que o tempo entrópico não é apenas uma metáfora, mas uma variável capaz de organizar a evolução do sistema observado.

Ainda assim, os próprios limites do experimento precisam ser lembrados. A física do Universo real envolve gravidade, expansão cósmica, matéria escura, energia escura e inúmeros componentes que não estão presentes em um sistema de 24 mil átomos de rubídio.

Próximos testes podem envolver sistemas mais complexos e novas simulações quânticas

O avanço abre espaço para novos experimentos com sistemas mais sofisticados. Uma das possibilidades é investigar se o tempo entrópico continua funcionando quando entram em cena fenômenos quânticos mais complexos, como emaranhamento e interações mais fortes entre partículas.

Também há interesse em usar plataformas semelhantes para estudar analogias com buracos negros, cenários de Big Bang, Big Crunch e modelos nos quais o Universo não teria uma singularidade inicial simples, mas algum tipo de “salto” quântico.

Esse tipo de pesquisa não deve trazer aplicações imediatas para o cotidiano, como um novo relógio ou uma tecnologia comercial pronta. O impacto está na base do conhecimento, no esforço de entender como as leis fundamentais podem descrever a passagem dos eventos sem depender de um observador externo.

Para a cosmologia e para a física quântica, isso é relevante porque ajuda a transformar perguntas filosóficas em testes mensuráveis. O experimento mostra que ideias sobre o tempo podem ser colocadas à prova em laboratório, mesmo quando nasceram em teorias sobre o Universo inteiro.

Se confirmado e ampliado, esse caminho pode ajudar os cientistas a compreender melhor por que sentimos o tempo seguindo do passado para o futuro, enquanto muitas equações fundamentais parecem funcionar quase do mesmo modo para frente e para trás.

No fim, o mini-universo de Birmingham não encerra a discussão sobre o tempo. Mas coloca uma hipótese provocadora sobre a mesa: talvez o tempo, em sua forma mais profunda, não precise de um relógio para existir.

O experimento levanta uma questão que pode dividir opiniões, o tempo é uma característica fundamental da realidade ou apenas algo que nasce quando há mudança e desordem? Deixe seu comentário e diga se essa descoberta muda a forma como você enxerga o Universo.

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Geovane Souza

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