O navio do Greenpeace zarpou de Killybegs, na Irlanda, em 8 de maio com 13 cientistas e um robô submarino para mapear pela primeira vez ecossistemas a 3 mil metros de profundidade no Ártico antes que a corrida pela mineração submarina chegue à região.
A expedição do Greenpeace no Ártico deixou o maior porto pesqueiro da Irlanda em 8 de maio de 2026 e vai operar até 5 de junho nas dorsais Mohn e Knipovich, no oceano Norueguês-Groenlandês.
Segundo o comunicado oficial publicado pelo Greenpeace International, a missão vai transmitir ciência ao vivo das profundidades árticas entre os dias 15 e 30 de maio.
O navio de 65 metros leva 13 pesquisadores de quatro países europeus e 22 tripulantes, e carrega um ROV capaz de filmar o leito marinho a até 3 mil metros.
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A expedição é a mais ambiciosa pesquisa árctica profunda já feita por uma ONG ambiental.
De acordo com a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, a expedição chega num momento crítico. Em março de 2026, o organismo avançou negociações sobre o futuro código de mineração em águas internacionais.
Ao mesmo tempo, a Noruega suspendeu até pelo menos 2029 todos os seus planos no Ártico após decisão parlamentar.
Por outro lado, a pressão sobre cobalto, níquel e terras raras para baterias acirrou a disputa entre indústria e ciência.
A expedição vai coletar amostras biológicas, mapear comunidades de esponjas abissais e filmar campos hidrotermais ainda quase desconhecidos.
A expedição do Greenpeace no Ártico vai durar quase um mês e termina em Bergen
O navio levou 13 cientistas, 22 tripulantes e equipamentos de mapeamento batimétrico para uma jornada de 28 dias.
Conforme registro oficial, a rota cobre o Mohn Ridge e o Knipovich Ridge, sistemas vulcânicos submarinos no Ártico Norueguês-Groenlandês, em águas que ficam permanentemente abaixo de 4°C.
A equipe principal é liderada pelos zoólogos Paco Cárdenas e Julio A. Diaz, do Museu de Evolução da Universidade de Uppsala, na Suécia.
Além disso, pesquisadores da Universidade de Madrid, da Universidade de Bergen e da Senckenberg Society for Nature Research, na Alemanha, completam o grupo.
Os resultados serão apresentados em Bergen, na Noruega, em junho. Em seguida, a equipe vai levar a documentação ao plenário da próxima sessão da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos.
A ideia é municiar com imagens e amostras o debate sobre o que o setor ainda não conhece sobre o que pretende perfurar.

A expedição do Greenpeace no Ártico mira o Frigg Vent Field a 2.700 m e o Freya Hydrate Mounds a 3.640 m
Em novembro de 2025, uma equipe liderada pela professora Giuliana Panieri, da Universidade Ártica da Noruega, descobriu o campo Frigg Vent Field a 2.700 metros.
O Frigg fica no Estreito de Fram, entre a Groenlândia e o arquipélago norueguês de Svalbard.
O sítio abriga fauna que vive em escuridão total.
Em dezembro de 2025, a mesma equipe publicou na Nature Communications a descoberta do Freya Hydrate Mounds a 3.640 metros na Dorsal de Molloy.
Portanto, o achado expandiu o limite conhecido de profundidade para hidratos de gás em quase 1.800 metros.
Conforme a UiT Tromsø, jatos de metano subiram mais de 3.300 metros pela coluna d’água, entre os mais altos já registrados.
“Esta descoberta reescreve o manual dos ecossistemas árticos profundos e dos ciclos de carbono”, afirmou Panieri em comunicado à imprensa científica.
De acordo com o registro publicado, os dois campos hidrotermais estão a centenas de quilômetros de blocos que vinham sendo cogitados para futuras concessões de mineração de cobre e zinco.

Por que a expedição do Greenpeace no Ártico acontece exatamente agora
Segundo a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, a 31ª sessão do Conselho avançou em março de 2026 nas regras sobre pagamento e proteção ambiental no futuro código de mineração marinha. Ainda assim, lacunas significativas permanecem.
Em fevereiro, o parlamento norueguês decidiu suspender toda a mineração de fundo do mar em águas árticas até pelo menos 2029.
Foi uma reviravolta política, já que o país tinha sido o mais ativo defensor da abertura desse tipo de atividade na Europa.
Por isso, 32 países hoje apoiam uma moratória ou pausa precaucionária.
Como reportou a Deep Sea Conservation Coalition, a pressão veio também do mercado.
São 58 empresas de tecnologia e veículos elétricos, incluindo Google, Samsung, Volvo e Apple, que assinaram compromisso de não comprar minerais oriundos de fundo do mar.
Os países que votam pela moratória e as empresas que recusam o mineral do oceano
Na lista dos 32 governos favoráveis à pausa estão Brasil, França, Alemanha, Reino Unido, Chile, Canadá, Nova Zelândia, Costa Rica e a maioria dos Estados insulares do Pacífico.
Para os países da Polinésia e Micronésia, a mineração profunda é vista como ameaça direta à pesca e à cultura local.
- Tecnologia: Google, Microsoft, Samsung Electronics, Apple
- Automotivo: Volvo, BMW, Renault, Volkswagen
- Outras cadeias: Patagonia, IKEA, Triodos Bank, Allianz
Em comparação com a economia anterior, o bloco de empresas pesa porque consome boa parte do cobalto e do níquel do mundo.
De fato, sem demanda dos compradores finais, o investimento em maquinário submarino fica em risco. Dois dos maiores projetos privados de mineração de nódulos no Pacífico já viram contratos cancelados.
Estudo conduzido em Clarion-Clipperton mediu 37% de queda na fauna do fundo após teste
Em comparação com os dados teóricos das mineradoras, o levantamento mais robusto vem do Museu de História Natural de Londres em parceria com a Universidade de Gotemburgo.
Para entender melhor, a equipe acompanhou por 160 dias uma área da zona Clarion-Clipperton, no Pacífico.
Como resultado, a queda foi de 37% na quantidade de animais e perda de 32% da riqueza de espécies.
Posteriormente, os pesquisadores coletaram 4.350 animais de 788 espécies, muitas novas para a ciência. A recuperação parcial só apareceu cinco anos depois do teste.
Na prática, isso seria um dos maiores impactos físicos de qualquer atividade industrial documentada.
O fato é confirmado em pauta similar sobre robôs de 6 toneladas que descem ao Pacífico para mineração, publicada no acervo do CPG.

A expedição do Greenpeace no Ártico chega no momento em que o Brasil aprova lei de minerais críticos
Em maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou no Brasil a Política Nacional de Minerais Críticos.
O texto prevê Fundo Garantidor de R$ 2 bilhões e créditos fiscais que somam R$ 5 bilhões em cinco anos.
O foco é exploração e transformação domésticas de cobalto, níquel, cobre, lítio e terras raras, minerais que o setor de petróleo e gás brasileiro também consome em equipamentos elétricos e turbinas de plataforma.
Por sua vez, isso faz com que o tema tenha relevância direta para o pré-sal.
Para os engenheiros do pré-sal, o tema interessa por outro motivo.
Em outras palavras, se a mineração terrestre não conseguir escalar para atender a transição energética, a pressão sobre o fundo do mar, incluindo eventualmente o Atlântico Sul, vai aumentar.
Da mesma forma, o setor energético acompanha de perto as discussões sobre transição energética e minerais críticos no Brasil, publicado no acervo do CPG.
A indústria depende de importações para vários elementos da cadeia das baterias.
As três perguntas que a expedição quer responder em Bergen
Em primeiro lugar, a equipe quer estimar quantas espécies endêmicas o Mohn Ridge e o Knipovich Ridge abrigam. Por enquanto, menos de 5% da fauna desses sistemas foi catalogada.
Em segundo lugar, busca documentar a conexão entre os campos hidrotermais árticos e os ciclos do carbono do oceano profundo.
Por fim, a expedição quer mostrar em vídeo ao vivo o que existe abaixo dos blocos que entram em discussão na ISA.
No entanto, não há garantia de que a moratória vai prevalecer. Os defensores da exploração argumentam que os minerais marinhos podem reduzir a dependência geopolítica de fornecedores como China e República Democrática do Congo.
Porém, a expedição não vai resolver o impasse sozinha. Ainda assim, vai dificultar que ele seja decidido sem dados sobre o que está em jogo no fundo do mar Ártico.

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