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No deserto frio de Ladakh, onde quase não chove, o engenheiro Sonam Wangchuk criou a estupa de gelo, uma torre que congela a água do inverno e a guarda para irrigar a colheita na primavera, num feito de engenharia simples que imita a natureza

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 20/06/2026 às 05:09
Atualizado em 20/06/2026 às 05:11
Assista o vídeoA estupa de gelo de Sonam Wangchuk guarda a água do inverno em Ladakh e irriga a primavera: engenharia simples contra a seca no deserto frio.
A estupa de gelo de Sonam Wangchuk guarda a água do inverno em Ladakh e irriga a primavera: engenharia simples contra a seca no deserto frio.
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Numa das regiões mais áridas do planeta, a estupa de gelo virou solução de sobrevivência. Sonam Wangchuk canaliza a água dos córregos do inverno e a transforma em torres de gelo de quase 20 metros, que derretem devagar na primavera e salvam as plantações de Ladakh com engenharia de baixo custo.

Imagine um lugar tão alto e tão seco que recebe menos chuva que muitos desertos, mas que ainda assim depende da agricultura para viver. É Ladakh, no extremo norte da Índia, encravada no Himalaia, e foi ali que um engenheiro teve uma ideia que parece mágica, embora seja pura física. Por volta de 2014 e 2015, Sonam Wangchuk começou a erguer o que ele chamou de estupa de gelo, uma geleira artificial em forma de torre que resolve, na marra, a falta de água na época mais crítica do ano.

A lógica é engenhosa justamente por ser simples. No inverno, sobra água escorrendo das montanhas, mas ela vai embora congelando ou correndo sem uso, e some bem quando o agricultor mais precisa, na primavera, antes de as geleiras naturais derreterem. A estupa de gelo guarda esse excedente do inverno na forma de uma torre congelada que vai derretendo devagar, entregando água justamente nos meses do plantio. Como resume o próprio Wangchuk, em Ladakh não falta água, ela só chega tarde demais.

O problema, água que chega tarde demais

A estupa de gelo de Sonam Wangchuk guarda a água do inverno em Ladakh e irriga a primavera: engenharia simples contra a seca no deserto frio.
estupa de gelo

Para entender o tamanho da sacada, é preciso sentir o clima de Ladakh. A região é um deserto frio de altitude, com precipitação anual que costuma ficar abaixo de 100 milímetros, uma fração do que cai em boa parte do mundo. A vida ali sempre dependeu do degelo das montanhas para irrigar lavouras de cevada, maçã e outras culturas que sustentam os vilarejos. O detalhe cruel é o calendário: o derretimento natural das geleiras só engata no verão, mas as sementes precisam de água já na primavera.

As mudanças climáticas pioraram esse descompasso. As geleiras do Himalaia estão encolhendo, as chuvas ficaram imprevisíveis e a água potável passou a faltar bem na janela mais sensível para a colheita. É nesse vão, entre o inverno que desperdiça água e a primavera que morre de sede, que Sonam Wangchuk enxergou uma oportunidade de engenharia. Em vez de brigar contra a natureza, ele decidiu copiá-la e adiantar o relógio do degelo.

A sacada, congelar o inverno em forma de torre

O funcionamento da estupa de gelo é de uma elegância que impressiona engenheiros. A água de um córrego mais alto na montanha é canalizada por tubos até o vilarejo, montanha abaixo. Como ela desce por gravidade, ganha pressão e jorra por um cano vertical, sem precisar de bomba nem de energia elétrica. No ar gelado do inverno de Ladakh, esses jatos se congelam e vão empilhando camadas de gelo, que crescem até formar uma torre cônica de quase 20 metros, em alguns casos ainda mais alta.

A forma de cone não é enfeite, é o coração da engenharia. Uma estrutura cônica tem pouca superfície exposta ao sol em relação ao volume de gelo que guarda, então derrete devagar, ao longo de semanas, enquanto uma camada de gelo plana sumiria em poucos dias. Não por acaso, o formato lembra as estupas budistas, monumentos de oração que pontuam a paisagem de Ladakh há séculos, e foi daí que veio o nome. A estupa de gelo é, ao mesmo tempo, máquina térmica e homenagem cultural.

Quanta água uma estupa de gelo guarda

Os números ajudam a dimensionar o feito. O primeiro protótipo, erguido no fim do inverno de 2014, armazenou cerca de 150 mil litros de água do degelo. Já a versão construída pouco depois forneceu por volta de 1,5 milhão de litros de água, o suficiente para irrigar milhares de mudas plantadas pelos moradores. Quanto maior e mais alta a torre, mais água ela retém, e relatos do projeto citam estruturas que chegaram a guardar vários milhões de litros cada.

Multiplicado por muitas torres, o impacto vira números de peso. Desde a primeira estupa de gelo, mais de uma dezena de geleiras artificiais já foi levantada na região, somando dezenas de milhões de litros de água disponibilizados para as comunidades. Tudo isso sem motor, sem painel e sem combustível, apenas com tubos, gravidade e o frio do inverno trabalhando a favor. Para uma terra onde cada gota conta, a estupa de gelo virou um seguro de vida agrícola.

De ideia de escola a movimento premiado

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O que começou como experimento virou causa. Sonam Wangchuk tocou os primeiros testes junto com estudantes de uma escola que ele ajudou a fundar em Ladakh, transformando a estupa de gelo em sala de aula a céu aberto. Deu certo, e a técnica passou a ser replicada por vilarejos, ensinada em escolas técnicas da região e apoiada por organizações que ajudam a distribuir tubos e mão de obra. A engenharia, nesse caso, virou também um movimento comunitário.

O reconhecimento veio de fora. Em 2016, Wangchuk recebeu um prestigiado prêmio internacional pela iniciativa, o que ajudou a levar a ideia da estupa de gelo para outras montanhas do mundo que enfrentam dilemas parecidos. O caso de Ladakh se tornou um símbolo de adaptação climática de baixo custo, mostrando que nem toda solução de ponta precisa ser cara ou complexa. Às vezes, a melhor engenharia é a que observa a natureza com humildade e apenas dá a ela um empurrãozinho na direção certa.

Quando a engenharia trabalha com a natureza

No fim, a estupa de gelo é a prova de que criatividade vale tanto quanto tecnologia de ponta. Num dos lugares mais inóspitos da Terra, sem energia e com pouquíssima água de chuva, um engenheiro decidiu guardar o inverno para salvar a primavera, e funcionou. Sonam Wangchuk transformou um problema climático cruel em uma torre de gelo que rega plantações e dá esperança a Ladakh, lembrando que a engenharia, quando trabalha junto com a natureza, faz coisas que parecem milagre.

E você, conhecia essa história das torres de gelo de Ladakh? Acha que soluções simples e baratas como a estupa de gelo poderiam ajudar regiões secas aqui perto, no Brasil e na América do Sul? Conta nos comentários o que essa engenharia no deserto frio despertou em você.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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