Mesmo com crescimento econômico, a crise urbana na Índia revela cidades indianas inabitáveis e falhas na governança urbana.
A crise urbana na Índia se intensifica à medida que grandes centros urbanos se tornam cada vez mais degradados, mesmo em meio ao acelerado crescimento econômico da Índia.
O problema afeta milhões de moradores em cidades como Jaipur, Mumbai, Bangalore e Delhi, onde poluição, trânsito caótico, lixo acumulado e falhas de saneamento expõem limites graves da governança urbana na Índia.
O cenário atual levanta questionamentos sobre como bilhões em investimentos em infraestrutura e urbanização não têm se traduzido em melhor qualidade de vida.
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Cidades indianas inabitáveis em meio ao turismo e à história
Em Jaipur, capital do Rajastão, a contradição salta aos olhos.
Palácios históricos e fortes majestosos dividem espaço com oficinas mecânicas, lixo acumulado e marcas vermelhas no chão, resultado do hábito local de mascar tabaco.
“Quer conhecer o charme real de Jaipur? Não venha aqui, compre apenas um cartão-postal”, ironizou um taxista durante uma visita recente à chamada “Cidade Rosa”.
Ademais, O comentário reflete um sentimento disseminado em diversas cidades indianas inabitáveis, onde o patrimônio histórico parece cada vez mais ignorado diante da deterioração urbana.
Infraestrutura moderna não impede piora da qualidade de vida
Nos últimos anos, o governo do primeiro-ministro Narendra Modi priorizou investimentos estatais em grandes obras.
O país construiu aeroportos modernos, rodovias de múltiplas faixas e sistemas de metrô reluzentes.
Ainda assim, esses avanços em infraestrutura e urbanização não foram suficientes para reverter a decadência cotidiana das cidades.
Índices internacionais de qualidade de vida continuam colocando grandes centros indianos nas últimas posições.
Protestos expõem limites do crescimento econômico da Índia
A insatisfação urbana deixou de ser silenciosa.
Assim, Em Bangalore, conhecida como o “Vale do Silício” da Índia, protestos reuniram cidadãos comuns e empresários bilionários cansados dos engarrafamentos e das montanhas de lixo.
Em Mumbai, a capital financeira, moradores organizaram manifestações raras contra buracos nas ruas e redes de esgoto entupidas, que despejam dejetos durante a temporada de monções.
Já em Delhi, a poluição do ar atingiu níveis críticos.
Ademais, no inverno, a névoa tóxica deixou crianças e idosos sem ar, levando médicos a recomendarem a saída temporária da cidade. Até a visita de Lionel Messi foi marcada por protestos contra a má qualidade do ar.
Governança urbana na Índia é o principal gargalo
Para especialistas, a raiz da crise não é apenas econômica, mas institucional.
“A causa raiz é histórica nossas cidades não têm um modelo de governança confiável”, disse à BBC Vinayak Chatterjee, veterano especialista em infraestrutura.
Segundo ele, a Constituição indiana não previu o crescimento explosivo das cidades nem criou estruturas próprias de gestão urbana.
Descentralização falhou e enfraqueceu os governos locais
A 74ª emenda constitucional, aprovada em 1992, buscou descentralizar o poder e fortalecer os governos locais. Na prática, porém, muitas de suas disposições nunca foram implementadas.
“Interesses arraigados não permitem que a burocracia e os níveis mais altos de governo descentralizem o poder e fortaleçam os governos locais”, afirma Chatterjee.
O resultado é um sistema em que prefeitos e conselhos municipais têm pouco poder real.
Comparação com a China evidencia falhas estruturais
Diferentemente da Índia, a China adotou um modelo em que prefeitos exercem amplo controle sobre planejamento urbano, infraestrutura e aprovação de investimentos.
“Há diretrizes nacionais fortes em termos de rumo e metas físicas que as cidades são encarregadas de cumprir”, escreve Ramanath Jha, da Observer Research Foundation.
Além disso, prefeitos chineses contam com incentivos políticos claros. “Quantos nomes de prefeitos de grandes cidades indianas nós sequer conhecemos?”, questiona Chatterjee.
Prefeituras frágeis e falta de autonomia agravam a crise
Ankur Bisen, autor do livro Wasted, descreve os governos locais indianos como os órgãos mais fracos do Estado.
“Eles estão completamente esvaziados e têm poderes limitados para arrecadar receita, nomear pessoas e alocar recursos”, afirma.
Assim, Segundo ele, chefes de governo estaduais acabam atuando como “superprefeitos”, centralizando decisões.
Falta de dados compromete políticas urbanas
Ademais, Outro obstáculo é a ausência de informações atualizadas. O último censo foi realizado há mais de 15 anos e apontava 30% da população em áreas urbanas.
Estimativas indicam que hoje esse número pode se aproximar de 50%.
“Mas como começar a resolver um problema se você não tem dados sobre a dimensão e a natureza da urbanização?”, questiona Bisen.
Crise urbana na Índia pode gerar pressão política
Especialistas avaliam que a ausência de um debate nacional sobre cidades enfraquece a democracia de base.
“É estranho que não haja um clamor em torno das nossas cidades, como houve contra a corrupção alguns anos atrás”, disse Chatterjee.
Ademais, Bisen compara o momento atual ao “Grande Fedor” de Londres, em 1858, quando a crise sanitária forçou reformas profundas.
“Geralmente é em momentos como esses, quando a situação chega ao ponto de ebulição, que os problemas ganham relevância política.”
