Gotejamento quase invisível do ar-condicionado de ônibus passou a abastecer sistemas internos da frota da Águia Branca, reduzindo desperdício e transformando uma observação feita na estrada em prática de reúso com impacto anual medido em milhões de litros.
A Viação Águia Branca passou a reaproveitar a água condensada pelo ar-condicionado de ônibus rodoviários em funções internas dos veículos, como o abastecimento do limpador de para-brisa e o uso em sanitários durante viagens de longa distância.
Essa solução surgiu a partir da observação do motorista Douglas Neves Lascosck, que identificou o desperdício na rotina operacional da frota e propôs uma adaptação para redirecionar o volume que antes escorria para fora dos ônibus.
Segundo reportagem da Época, Lascosck trabalhava na Viação Águia Branca quando percebeu que a água formada pela condensação do ar-condicionado era descartada durante os trajetos rodoviários.
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Ao mesmo tempo, o reservatório usado na limpeza do para-brisa precisava de reposição frequente, especialmente em viagens longas, nas quais poeira, insetos e resíduos acumulados no vidro podem afetar a visibilidade do motorista.
A publicação informou que a adaptação foi desenvolvida com apoio dos eletricistas Armando Braz Ribeiro Júnior e Washington Martins, além do auxiliar administrativo Rodrigo dos Santos, que ajudaram a transformar a observação em solução aplicada.
O funcionamento do sistema parte de uma estrutura simples, feita para conduzir a água gerada pelo ar-condicionado até reservatórios de uso operacional, sem alterar a função principal do equipamento de climatização dos veículos.
Água do ar-condicionado vira recurso dentro do ônibus
Durante o funcionamento do ar-condicionado, a umidade presente no ar se condensa e forma água, processo comum em sistemas de refrigeração que normalmente eliminam esse volume para fora do veículo.
Em ônibus rodoviários, porém, a climatização permanece ligada por muitas horas, o que faz um gotejamento aparentemente pequeno ganhar relevância quando considerado em centenas de viagens e veículos operando ao longo do ano.
O material reaproveitado não é destinado ao consumo humano, mas a atividades que não exigem água potável, como o reservatório do limpador de para-brisa e o sanitário dos ônibus usados em trajetos prolongados.
De acordo com informações publicadas pelo Estadão Mobilidade, o mecanismo redireciona a água do condensamento do sistema de climatização para essas funções auxiliares dentro da operação rodoviária.
Na reportagem da Época, Lascosck afirmou que o sistema conseguia gerar 3 litros de água a cada duas horas e meia de funcionamento do ar-condicionado, volume que ganhava escala na frota.

A Viação Águia Branca estimava, na mesma publicação, que a aplicação da adaptação aos 493 ônibus com ar-condicionado citados à época poderia alcançar 1,5 milhão de litros de água por ano.
Reaproveitamento reduz consumo em viagens longas
A medida também atendia a uma demanda prática enfrentada nas estradas, já que o limpador de para-brisa depende de reservatório abastecido para manter o vidro limpo durante trechos com poeira, lama ou resíduos.
Em viagens rodoviárias, a visibilidade do motorista pode ser prejudicada por sujeira acumulada ao longo do percurso, o que torna o abastecimento do sistema de limpeza uma necessidade ligada à segurança operacional.
Nos sanitários, o reaproveitamento segue a mesma lógica de uso não potável, pois esses equipamentos exigem abastecimento e manutenção nos ônibus que percorrem distâncias maiores e permanecem por mais tempo em circulação.
Com o redirecionamento da condensação, parte da água que seria perdida passou a cumprir uma função auxiliar no próprio veículo, contribuindo para reduzir o consumo total da operação sem criar uma nova fonte de captação.
Economia de água chega a milhões de litros por ano
A adaptação deixou de ser uma solução isolada e passou a integrar as ações de reúso da empresa, que também envolvem lavagem de veículos, manutenção de garagens e aproveitamento de água em outras etapas operacionais.
Segundo o Estadão Mobilidade, a Viação Águia Branca informou economizar 30 milhões de litros de água por ano por meio de iniciativas de reaproveitamento adotadas em sua rotina de transporte e manutenção.
No conjunto das ações, a empresa declarou reaproveitar 31,2 milhões de litros de água por ano, considerando diferentes processos aplicados na frota, nas garagens e em atividades ligadas à operação dos veículos.
Dentro desse volume, o sistema instalado nos ônibus tem participação própria, já que a reportagem informou produção aproximada de 1,5 litro de água a cada 50 quilômetros percorridos pela frota.
Essa captação representa economia anual estimada em 1,897 milhão de litros apenas nos ônibus da Viação Águia Branca, conforme os dados publicados pelo Estadão Mobilidade sobre o mecanismo de condensação.
A mesma reportagem registrou que, desde 2015, quando toda a frota passou a operar com o sistema, a empresa já havia economizado cerca de 13 milhões de litros de água por esse método.
O Estadão Mobilidade também informou que a frota citada somava 700 veículos, escala que ajuda a explicar como volumes pequenos, repetidos em milhares de quilômetros, chegam a números expressivos no balanço anual.
Ideia de motorista nasceu da rotina nas estradas
Na origem do projeto, a rotina de trabalho teve papel central, porque motoristas rodoviários acompanham de perto as necessidades dos veículos em trajetos longos, sob variações de clima, sujeira acumulada e uso contínuo de equipamentos.
Ao observar o descarte da água condensada enquanto o reservatório do para-brisa precisava ser reabastecido, Lascosck encontrou uma relação direta entre um desperdício recorrente e uma demanda prática da operação.
Com apoio dos colegas, a água antes perdida passou a ser armazenada e usada dentro do ônibus, em uma adaptação feita sem equipamentos sofisticados e baseada no aproveitamento de um recurso já disponível.
De acordo com o Estadão Mobilidade, a primeira adaptação ocorreu dentro da oficina da empresa, antes de o projeto começar a ser aplicado em todos os ônibus a partir de 2013.
A partir de 2015, segundo a mesma reportagem, toda a frota da Viação Águia Branca já operava com o mecanismo, consolidando a solução como prática incorporada à operação rodoviária.
A empresa também compartilhou o projeto com a Marcopolo, fabricante de carrocerias de ônibus, que passou a produzir veículos já com a modificação, ampliando o alcance da adaptação iniciada na garagem.
Reúso de água também ocorre nas garagens
Além da água captada nos ônibus, a Águia Branca informou ao Estadão Mobilidade que utiliza água da chuva na lavagem de veículos e em ambientes de garagem, dentro de suas ações de redução de consumo.
Entre os procedimentos adotados, a reportagem citou processos de separação de óleo e filtragem, que permitem novo uso da água em atividades de limpeza realizadas nas estruturas operacionais da empresa.
Equipamentos de ar-condicionado da sede da Águia Branca também fornecem água para molhar plantas e lavar veículos leves, de acordo com as informações publicadas pelo Estadão Mobilidade sobre as ações ambientais da companhia.
Com esse conjunto de medidas, a empresa informou ter obtido redução de cerca de 40% no consumo de água, resultado associado à soma de iniciativas aplicadas na frota, nas garagens e na sede.
A experiência mostra que a eficiência operacional pode surgir de ajustes simples quando eles são incorporados à rotina e repetidos em larga escala, especialmente em atividades que envolvem grande circulação de veículos.
No caso da Viação Águia Branca, a água quase imperceptível que escorria do ar-condicionado passou a abastecer sistemas auxiliares dos ônibus e entrou na contabilidade anual de economia hídrica da empresa.


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