Caso envolvendo servidor público baiano voltou a repercutir após condenação definitiva por estelionato, com pena em regime aberto, prestação de serviços comunitários e pagamento de valor pecuniário. Investigação apontou contradições entre a versão de sequestro narrada por Vanderley dos Santos Gomes e elementos encontrados pela perícia.
O servidor público baiano Vanderley dos Santos Gomes foi condenado por estelionato após a Justiça concluir que ele simulou um assalto seguido de sequestro para tentar receber cerca de R$ 1,5 milhão em indenizações de seguros.
Registrado em 2019, o caso voltou a repercutir neste domingo (21), quando novos detalhes da investigação foram divulgados pelo jornal O Globo após o trânsito em julgado do processo e o início do cumprimento da pena.
A decisão definitiva fixou dois anos de prisão em regime aberto, além de 720 horas de prestação de serviços à comunidade e pagamento de prestação pecuniária estimada em cerca de R$ 8 mil.
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Mochila encontrada a 350 metros enfraqueceu relato de sequestro
A versão apresentada por Vanderley passou a ser contestada quando investigadores localizaram uma mochila a cerca de 350 metros do ponto onde ele havia sido socorrido, em São Gonçalo dos Campos, no interior da Bahia.
Dentro do material, a perícia encontrou objetos que o servidor afirmou terem sido levados pelos criminosos, além do pé amputado, elemento considerado decisivo para desmontar a narrativa apresentada às autoridades.
No primeiro relato à polícia, Vanderley disse ter sido abordado por homens armados após sair de uma unidade de saúde em Cruz das Almas, município localizado no Recôncavo baiano.
Conforme a versão informada às autoridades, ele teria sido colocado dentro de um carro, agredido e levado até uma estrada rural, onde a amputação teria ocorrido durante o suposto sequestro.
A apuração, porém, passou a apontar contradições relevantes no depoimento, sobretudo após a localização de celular, relógio e outros pertences que deveriam estar com os assaltantes, caso a versão inicial fosse verdadeira.
Esses objetos estavam na mochila encontrada perto do local de socorro, circunstância que contrariou a narrativa de roubo seguido de sequestro e ajudou a sustentar a acusação de fraude contra o servidor.
Quatro seguros foram contratados antes da ocorrência

Outro ponto considerado pelas autoridades foi a contratação de quatro seguros de vida e acidentes pessoais antes da ocorrência, em um conjunto de apólices que poderia gerar indenizações milionárias em caso de invalidez.
Segundo a CNN Brasil, Vanderley firmou contratos que, somados, poderiam resultar no pagamento de até R$ 1,5 milhão, valor que passou a ser analisado pelas seguradoras e pelos investigadores.
As apólices citadas em reportagens sobre o processo envolviam as seguradoras Allianz, Zurich, Tokio Marine e Sompo, empresas que também aparecem no contexto da tentativa de recebimento das indenizações.
Com a sequência de contratações e a tentativa posterior de acionar os seguros, o caso passou a chamar atenção das empresas, que questionaram a ocorrência e contribuíram para o avanço das apurações.
De acordo com o Ministério Público da Bahia, citado pela CNN Brasil, Vanderley teria combinado com terceiros a amputação do próprio pé direito para simular um crime e obter o pagamento das indenizações.
Essa formulação integrou a acusação apresentada no processo e foi considerada na condenação por estelionato, junto com os demais indícios reunidos durante a investigação policial e a análise judicial.
Justiça apontou contradições na versão apresentada
Para a Justiça, o conjunto de elementos indicava que o crime narrado pelo servidor não havia ocorrido da forma relatada, principalmente pela incompatibilidade entre o depoimento e os achados da perícia.
A contratação recente dos seguros, a localização da mochila, os objetos pessoais encontrados e a tentativa de receber indenizações formaram a base da conclusão de que houve simulação.
O caso foi registrado em 2019, enquanto a condenação ocorreu em 2025, conforme a reportagem do UOL baseada em informações da Agência Estado sobre o andamento do processo.
Já o início do cumprimento da pena ocorreu em maio de 2026, depois do trânsito em julgado, etapa em que não havia mais possibilidade de recurso contra a decisão.
Natural de Amélia Rodrigues, município baiano, Vanderley teve o relato associado a diferentes cidades do estado, já que a suposta abordagem teria ocorrido após sua saída de uma unidade de saúde em Cruz das Almas.
A ocorrência ligada ao pedido de socorro foi situada em São Gonçalo dos Campos, também na Bahia, onde a mochila foi encontrada perto do ponto em que o servidor acabou localizado.
Nesse cenário, a tentativa de indenização colocou as seguradoras no centro da investigação, porque os contratos haviam sido firmados pouco antes da lesão que motivaria os pedidos de pagamento.
O valor total previsto nas apólices e a sequência dos pedidos reforçaram a suspeita de fraude, de acordo com as informações divulgadas pelas reportagens jornalísticas consultadas sobre o caso.
Defesa não se manifestou nas fontes consultadas
O UOL informou que procurou a advogada Rita Angela Gomes Tourinho, apontada como defensora de Vanderley, e aguardava retorno até a publicação da reportagem sobre a condenação definitiva.
A mesma apuração registrou que o Estadão não conseguiu contato com o servidor público, o que deixou sem manifestação direta a versão da defesa ou do condenado sobre o cumprimento da pena.
Sem nova manifestação nas fontes consultadas, a versão disponível publicamente permanece baseada na decisão judicial, nas informações atribuídas ao Ministério Público da Bahia e nas apurações jornalísticas publicadas sobre o caso.
Também não há, nas reportagens verificadas, registro de declaração direta de Vanderley a respeito da condenação definitiva, do início da pena ou dos elementos apontados pela investigação.
A repercussão em junho de 2026 ocorreu porque novos detalhes foram divulgados depois que a condenação se tornou definitiva, retomando elementos centrais da investigação iniciada em 2019.
Entre esses pontos, a mochila encontrada perto do local de socorro permaneceu como um dos fatores mais relevantes para explicar por que a versão de assalto seguido de sequestro foi rejeitada.
O processo terminou com a manutenção da condenação por estelionato e com o cumprimento da pena em regime aberto, além das horas de serviços comunitários e da prestação pecuniária fixada pela Justiça.
O caso segue citado em reportagens como episódio de fraude envolvendo seguros, tentativa de indenização milionária e uso de uma versão de crime que acabou contestada por provas reunidas na investigação.
