A italiana Bending Spoons, batizada em homenagem ao filme Matrix, vive de ressuscitar aplicativos que o mundo abandonou, e a estreia na Nasdaq transformou o fundador Luca Ferrari e três sócios em bilionários
Marcas que um dia dominaram a internet e caíram no esquecimento, como AOL, Vimeo e Evernote, costumam ser vendidas a preço de banana, mas a Bending Spoons, empresa de tecnologia italiana com sede em Milão, transformou esse cemitério digital em um negócio bilionário, segundo a Exame. No dia 1º de julho, a companhia estreou na Nasdaq sob o código BSP, as ações subiram 40% no primeiro dia e o valor de mercado chegou a cerca de US$ 25 bilhões, perto de R$ 130 bilhões na cotação da estreia, com a oferta levantando US$ 1,68 bilhão e transformando o fundador Luca Ferrari e três sócios em bilionários.
Os números da operação impressionaram o mercado: foram 57,97 milhões de ações precificadas a US$ 29 cada, acima da faixa esperada de US$ 26 a US$ 28, para uma empresa cujos aplicativos somam 500 milhões de usuários ativos mensais, dos quais 9 milhões são assinantes pagantes, segundo o SpaceMoney, que cobriu a estreia. E tudo começou com um fracasso.
O fracasso “libertador” que deixou 40 mil dólares no caixa
A história nasce longe de Milão. Em 2013, em Copenhague, na Dinamarca, Luca Ferrari, Matteo Danieli e Francesco Patarnello, que se conheceram estudando engenharia, criaram durante uma viagem pela Indonésia um aplicativo de diário chamado Evertale, que levantou US$ 1 milhão e quebrou em menos de 3 anos, segundo a Exame. Ferrari classificou o fracasso como libertador: restaram US$ 40 mil, dois funcionários que se destacavam e a vontade de tentar de novo.
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Até o nome da nova empresa virou declaração de intenções. A sugestão veio de Danieli, inspirada no filme Matrix: Bending Spoons, algo como “entortando colheres”, em referência à ideia central do longa de que a mente pode dobrar as regras aparentes da realidade, ainda de acordo com a Exame. Nos anos seguintes, a companhia passou a comprar aplicativos de celular em silêncio, montando o que Ferrari chamou de máquina perfeita de operação.
O modelo: comprar o que o mercado jogou fora, e nunca revender

A engrenagem é diferente de tudo no mercado. A Bending Spoons compra negócios maduros da internet, quase sempre com dívida, corta custos, reescreve a tecnologia e acelera o crescimento, mas, ao contrário de um fundo de private equity, não revende: fica com os negócios e vive do lucro que eles geram, segundo a Exame. A empresa procura companhias que ainda guardam um núcleo de qualidade, uma marca, uma base de clientes ou partes boas do produto, e reconstrói todo o resto.
O SpaceMoney registra a meta declarada em documentos regulatórios: transformar “negócios estabelecidos de volta ao modo startup”. Depois da compra, a holding reduz o quadro de funcionários das adquiridas e entrega a operação a programadores responsáveis por modernizar as plataformas.
A aposta que colocou a empresa no mapa: o Evernote
O nome da Bending Spoons ganhou o Vale do Silício em 2023. A empresa comprou o Evernote, aplicativo de anotações que já tinha sido febre mundial e entrou em crise após sucessivas trocas de comando, e a aquisição gerou polêmica: os novos donos demitiram centenas de funcionários, incluindo toda a equipe nos Estados Unidos, aumentaram preços e retiraram recursos populares entre usuários antigos, segundo a Exame.
Ainda assim, Ferrari aponta o Evernote como a principal aquisição da companhia. Na entrevista registrada pela Exame, o fundador descreve o aplicativo como um negócio hoje quase inteiramente novo, com fundações tecnológicas praticamente reescritas e novos registros de usuários em alta após anos de queda. O caso virou o cartão de visitas do método: pegar um produto que todo mundo dava por morto e provar que ainda havia clientes dispostos a pagar por ele.
AOL, Vimeo, WeTransfer: o portfólio de relíquias que o brasileiro usa até hoje
Depois do Evernote, a lista de compras acelerou. Vieram em sequência Eventbrite, AOL, Vimeo, WeTransfer e outras marcas conhecidas, somando mais de 50 negócios adquiridos, segundo a Exame. A AOL, ícone da era da internet discada, foi comprada da Apollo Global em janeiro de 2026 por valor não revelado, estimado em pelo menos US$ 1,5 bilhão, e ainda opera serviços de e-mail e vende softwares de segurança, de acordo com o SpaceMoney.
São produtos que continuam na rotina de milhões de brasileiros: o WeTransfer dos arquivos pesados do trabalho, o Vimeo dos vídeos profissionais, o Evernote das anotações. A diferença é que agora todos pagam boleto para o mesmo dono italiano.
Os “Spooners”: 800 mil candidatos para menos de 300 vagas

O motor humano da operação é um exército enxuto. Cerca de 700 jovens chamados de “Spooners” são contratados para substituir as equipes demitidas e injetar vida nos negócios comprados, e a seleção é brutal: no ano passado, menos de 300 foram contratados entre 800 mil candidatos, com a receita por Spooner chegando a US$ 2,57 milhões, segundo a Exame.
A empresa paga bem para atrair recém-formados que poderiam seguir para fundos de investimento. O próprio Ferrari reconhece, na entrevista publicada pela Exame, que depender de um grupo pequeno de funcionários muito motivados para tocar as transformações pode acabar limitando as ambições da companhia. É uma aposta arriscada de gestão: cada Spooner carrega nas costas uma fatia de receita que empresas tradicionais distribuem entre dezenas de pessoas.
A conta que precisa fechar: R$ 130 bilhões de valor, lucro de US$ 22 milhões
Nem tudo são colheres entortadas. A Bending Spoons acumula US$ 4,4 bilhões em dívidas de longo prazo contraídas para financiar as aquisições, e no último ano fiscal a receita totalizou US$ 2,6 bilhões com lucro líquido de apenas US$ 22,4 milhões, enquanto o primeiro trimestre de 2026 trouxe receita de US$ 601 milhões e lucro de US$ 27,5 milhões, segundo o SpaceMoney. O múltiplo de 7 vezes a receita supera o de gigantes como a Meta, o que pressiona a companhia a justificar a avaliação.
As críticas não param na dívida: as aquisições costumam envolver demissões em massa, e a empresa é cobrada pela baixa transparência financeira, o que dificulta analisar como os negócios comprados se comportam depois de absorvidos, segundo a Exame. A falta de abertura de dados chegou a fazer bancos recusarem empréstimos, um dos fatores que pesaram na decisão de abrir capital, já que credores preferem emprestar a empresas listadas e mais reguladas. O SpaceMoney acrescenta o desafio central da tese: a capacidade de converter os usuários gratuitos em receita recorrente será crucial para melhorar a rentabilidade e reduzir a alavancagem.
A lista de 100 alvos e a nova moeda de troca
A máquina de compras não pretende desacelerar. Ferrari mantém uma lista de cerca de 100 alvos de aquisição a qualquer momento e, como companhia aberta, passa a ter mais flexibilidade para usar as próprias ações em novas compras, segundo a Exame, que registra ainda que mais de três quartos das aquisições foram fechadas nos últimos 3 anos. É essa engrenagem que a empresa agora precisa provar que funciona sob o escrutínio da bolsa.
Fica a observação desta redação, devidamente sinalizada: enquanto o mundo da tecnologia disputa quem lança a próxima novidade, os italianos ficaram ricos fazendo o movimento contrário, comprando o passado da internet em liquidação e cobrando mensalidade por ele.
Do aplicativo falido na Indonésia ao sino da Nasdaq, a história da Bending Spoons mostra que às vezes o melhor negócio não é inventar nada, é enxergar valor onde todo mundo já desistiu.
Conta pra gente nos comentários: qual aplicativo antigo você pagaria pra ver ressuscitado, ou pra você o que morreu na internet tem mais é que ficar morto?
