Victor Trindade, o Eagle, fundou a FlyMedia para criar personagens que funcionam como influenciadores sem depender de rosto humano, e a startup captou R$ 20 milhões em rodada liderada pela OneVC com participação de fundos globais
O carioca Victor Trindade, conhecido na internet como Eagle, tinha 15 anos quando entendeu que audiência podia virar negócio, e aos 28 comanda a FlyMedia, startup que cria influenciadores digitais feitos com inteligência artificial, segundo a Exame, em reportagem de 6 de julho. Em 9 meses de operação, os personagens da empresa acumulam 1,2 bilhão de visualizações e 3,7 milhões de seguidores.
O projeto nasceu com caixa reforçado: a FlyMedia captou R$ 20 milhões em rodada liderada pela OneVC, com participação de fundos globais como Alter Global, A16z Scout Fund, Norte, Hypersphere, Verve e FJ Labs, além do investidor Fersen Lambranho, chairman da GP Investments, segundo a Forbes, que noticiou o aporte em dezembro de 2025. A ambição declarada não é modesta: criar a “nova Disney” das redes sociais.
O clique aos 15: o servidor de Minecraft que caiu de tanto fã
A primeira lição de negócios veio do jogo mais vendido do mundo. Em 2013, o canal de gameplays de Minecraft que Trindade mantinha com o primo tinha cerca de 20 mil inscritos, mas a comunidade era tão fiel que o servidor próprio lançado pelos dois caiu por excesso de demanda, e, quando passaram a cobrar assinaturas VIP, cada sócio adolescente tirava R$ 8 mil por mês, segundo a Exame.
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“Ali foi onde finalmente deu o clique. A gente não tinha esse tato de que dava para ganhar dinheiro com a internet”, lembra Trindade na entrevista. O canal, chamado Neagle, depois migrou para vlogs com o primo Gabriel, o Neox, e virou fenômeno.
De 500 mil a 1,2 milhão de inscritos em um mês, e adeus faculdade
A explosão veio nos Estados Unidos. Em 2016, quando os primos moravam na Flórida para estudar na Full Sail University, universidade especializada na indústria do entretenimento, o canal saltou de 500 mil para 1,2 milhão de inscritos em um único mês, e Trindade largou a faculdade no 3º mês de curso, segundo a Exame.
Vieram 4 anos de vídeos diários, casas compartilhadas com outros criadores e uma rotina que misturava entretenimento e empreendedorismo. Em paralelo, ele e os sócios criaram negócios para monetizar a própria audiência: loja geek, servidor de Minecraft, turnês de teatro, livro e uma agência para ajudar outros influenciadores a estruturar carreiras, ainda de acordo com a Exame.
O banco que nasceu do canal e virou referência da geração Z

A maior aposta fora do conteúdo foi financeira. A fintech que nasceu como “Neagle Bank”, ligada ao canal, teve 60 mil downloads em 2 dias, depois virou a NG.CASH, captou investimento e ganhou vida própria, com Trindade hoje atuando como conselheiro, sem função executiva, segundo a Exame. A Forbes descreve a NG.CASH como a principal fintech da geração Z na América Latina, e registra que o cofundador da FlyMedia é justamente Mario Augusto, CEO da NG.CASH.
“Depois de dez anos tentando achar um produto maior que a nossa marca, deu o clique final. Isso aqui é uma dor geracional, não é sobre a nossa audiência do canal”, diz Trindade à Exame sobre a criação do banco. Somando canais e projetos, a Forbes contabiliza que o empreendedor acumula 23 milhões de seguidores e mais de 5 bilhões de visualizações.
A fábrica: 7 personagens, do futebol ao podcast de gorilas
O elenco da FlyMedia parece saído de um desenho animado. A startup tem 7 influenciadores de IA em operação, entre eles Zuka, ligada ao universo do futebol, que chegou a 500 mil seguidores em 40 dias sem mídia paga, Malu Sinistra, personagem de uma novela vertical, Gorila Cast, um podcast conduzido por gorilas, Plexus, um alien de humor ácido, Foka Fofoca, que ultrapassou 60 mil seguidores no Instagram em 2 meses acompanhando o Big Brother Brasil, e Bob e Dave, aposta de maior duração com ambição de chegar ao streaming, segundo a Exame.
Por trás dos bonecos existe método: a empresa desenvolve uma plataforma interna, a Fly Studio, em que o fluxo vai do roteiro ao storyboard e ao vídeo final, e a performance de cada conteúdo alimenta uma espécie de DNA de cada personagem. “Quando você chega na nossa plataforma, ela já tem o contexto todo. Ela já sabe o nome dos personagens, o universo e o tipo de humor”, explica Trindade à Exame. Cada influenciador é operado por um criador líder, com times de 1 a 3 pessoas.
A inspiração não é o TikTok, é a Disney

A referência do negócio vem dos estúdios clássicos. “Quando a Disney constrói uma Cinderela, constrói o Mickey Mouse, esses personagens são o talento criativo das pessoas que os construíram, mas independem do risco reputacional e motivacional de uma pessoa”, diz Trindade à Exame. “Tem um jogo de criar influenciadores, só que sem depender de um influenciador humano.”
A FlyMedia chegou a poder seguir o caminho mais óbvio, vender personagens sob encomenda para marcas, mas Trindade recusou o modelo por entender que criar avatares para terceiros colocaria um teto no negócio, segundo a Exame. “A visão de criar uma nova Disney não nasce dentro de uma marca”, afirma. À Forbes, ele resumiu o alvo: “O nosso objetivo é criar e operar as maiores IPs do mundo, todas concebidas desde o início para serem globais, automatizadas, multiplataforma e impulsionadas por tecnologia”.
Como um boneco virtual paga as contas
O dinheiro entra por quatro portas. O modelo de receita tem a monetização das plataformas, como o AdSense, que já cobre o custo de produção de alguns canais, a publicidade, o licenciamento e, na frente considerada de maior potencial, os produtos próprios, segundo a Exame. O primeiro caso de conversão apresentado pela empresa foi da personagem Malu Sinistra: em uma ação com link de afiliado para uma peça de roupa, ela gerou mais de 26 mil cliques e mais de R$ 8 mil em vendas.
“Com IA, produto vai ficar cada vez mais fácil de construir. O grande diferencial vai ser quem tem distribuição”, afirma Trindade na reportagem. O pano de fundo ajuda: a economia dos criadores pode chegar a US$ 480 bilhões em 2027, ante cerca de US$ 250 bilhões em 2023, e o mercado global de influenciadores virtuais deve crescer de US$ 11,22 bilhões em 2025 para US$ 15,9 bilhões em 2026, segundo projeções publicadas pela Exame. Lá fora, personagens como Lil Miquela já estrelaram campanhas de grifes internacionais, e no Brasil a Lu do Magalu mostrou como um rosto digital vira ativo de marca de longo prazo, sinal de que os influenciadores de IA da FlyMedia chegam a um terreno já preparado.
O outro fenômeno do dono: o “1 vs. 30” do Canal Foco
Enquanto toca a FlyMedia, Trindade também cofundou o Canal Foco, um dos fenômenos recentes do YouTube brasileiro. O canal ganhou notoriedade com os debates da série “1 vs. 30”, que colocam uma personalidade frente a frente com 30 pessoas de opiniões divergentes, e episódios como o do empresário Flávio Augusto contra 30 trabalhadores e o de Tallis Gomes contra 30 demitidos acumularam milhões de visualizações, segundo a Exame.
O formato virou uma das principais apostas da plataforma para conteúdo de debate no país, e mostra o mesmo instinto que guia a fábrica de personagens: encontrar o formato que prende a atenção antes dos concorrentes.
O próximo passo: Estados Unidos e a prova dos nove
O plano agora é atravessar a fronteira. Trindade morou 9 anos nos Estados Unidos, quer voltar ao país, e a FlyMedia já nasce com a ambição de criar personagens multilíngues capazes de falar inglês e disputar audiência global, segundo a Exame. “A próxima geração de mídia será formada por influenciadores e personagens que já nascem digitais, multilíngues e orientados por tecnologia”, afirma o fundador.
A própria Exame registra o desafio pendente: a startup tem audiência, investimento e casos iniciais de conversão, mas falta provar que os personagens sustentam comunidades por anos, e não apenas surfam a curiosidade em torno da inteligência artificial. Fica a observação desta redação, devidamente sinalizada: o menino que derrubou um servidor de Minecraft por excesso de fãs passou a vida inteira repetindo o mesmo movimento, transformar atenção em negócio, e agora tenta fazer isso sem precisar nem de gente na frente da câmera.
Do quarto de adolescente ao aporte de R$ 20 milhões, a história do Eagle mostra que a nova geração de empresários brasileiros nasceu dentro do YouTube.
Conta pra gente nos comentários: você seguiria um influenciador que não existe, ou pra você carisma de verdade só vem de gente de carne e osso?
