Segundo a Exame, Rodrigo Cardoso vendeu a própria moto, somou a rescisão do emprego e um empréstimo da família para juntar cerca de R$ 95 mil e começar a bater açaí na cozinha de casa, em Bacabal, no Maranhão, em 2017. Menos de dez anos depois, o fundador da Bengô Açaí faturou R$ 81,5 milhões em 2025 e projeta chegar a R$ 146 milhões em 2026, à frente de uma rede de 140 lojas espalhadas por 12 estados.
A história tem cara de virada de chave, mas foi construída passo a passo. Segundo o Movimento Econômico, Rodrigo Cardoso começou a vida profissional em atividades informais, conseguiu o primeiro emprego de carteira assinada aos 18 anos e, depois de quase quatro anos no regime CLT, decidiu que o teto salarial não cabia mais nos seus planos. Aos 21, ao lado da esposa, largou o emprego e apostou tudo no açaí. O que parecia um pequeno negócio de bairro virou a Bengô Açaí, hoje uma das redes de franquia que mais crescem no Nordeste.
A moto vendida e os R$ 95 mil que deram o pontapé
Antes de virar CEO, Rodrigo Cardoso era um trabalhador informal como tantos outros. O primeiro emprego com carteira assinada chegou aos 18 anos, e por quase quatro anos ele cumpriu a rotina do regime CLT. Foi tempo suficiente para perceber que o crescimento financeiro tinha um limite claro naquele caminho, e que, se quisesse mudar de vida, teria que correr um risco grande.
O risco veio na forma de uma decisão radical. Aos 21 anos, Rodrigo Cardoso pediu as contas e transformou a rescisão em capital de giro. Para engordar o caixa, vendeu a moto que tinha e ainda recorreu a um empréstimo com a própria família. A soma de tudo deu cerca de R$ 95 mil, o dinheiro que bancaria a compra das primeiras máquinas e a matéria-prima para começar.
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Não era uma fortuna, mas era tudo o que ele tinha. A escolha do produto não foi por acaso: o consumo de açaí crescia rápido no país, sobretudo no modelo self-service, em que o cliente monta a própria tigela e paga pelo peso. Era um mercado de massa, de ticket acessível e de operação relativamente simples, o terreno ideal para quem tinha pouco capital e muita disposição para trabalhar.
Com o dinheiro em mãos, a esposa ao lado e uma ideia na cabeça, o casal partiu para a parte mais difícil, que era transformar aquilo em negócio de verdade. E o primeiro balcão foi montado no lugar mais improvável possível.
Açaí batido na cozinha de casa, com duas máquinas

O primeiro “ponto comercial” da Bengô Açaí foi a cozinha da casa do casal. Foi ali que Rodrigo Cardoso instalou duas máquinas de bater e produzir açaí e passou a rodar a operação do zero, fazendo de tudo um pouco. No começo, ele e a esposa, Kamilla Cardoso, cuidavam pessoalmente de cada etapa, da produção da polpa ao atendimento, do controle de estoque à entrega.
Essa fase de mão na massa durou cerca de seis meses. Só depois de o movimento justificar é que veio a primeira contratação, uma equipe de quatro pessoas para dar conta da demanda que crescia. O modelo era enxuto por necessidade, e cada real reinvestido no negócio vinha direto do balcão.
O que fez a diferença nesse período foi a proximidade com o cliente. Sem verba para grandes campanhas, o empreendedor ouvia quem entrava na loja e ajustava o cardápio conforme os pedidos. “O crescimento foi orgânico, guiado pelas sugestões dos clientes”, resumiu Rodrigo Cardoso. Foi assim, tigela após tigela, que a operação ganhou reputação na cidade.
A lógica era simples e teimosa, que era entregar um açaí consistente, num ambiente agradável, a um preço que cabia no bolso. Essa receita, repetida com disciplina, seria depois padronizada e transformada no coração da futura rede de franquia.
1.200 quilômetros até Bacabal, no Maranhão
Antes mesmo de bater o primeiro açaí, Rodrigo Cardoso teve que responder a uma pergunta decisiva, que era onde abrir. Sem capital para disputar as grandes capitais, já saturadas de concorrentes, ele fez uma conta diferente e saiu à procura de uma praça com menos briga e mais espaço para crescer.
A busca foi literal. O empreendedor percorreu cerca de 1.200 quilômetros olhando cidades, comparando concorrência e potencial de consumo, até cravar o destino. A aposta foi Bacabal, no interior do Maranhão, onde inaugurou a primeira unidade física. Naquele momento, a operação ainda não se chamava Bengô Açaí, e sim Mix Açaiteria, o nome que batizou o começo da jornada no Maranhão.
A escolha se mostrou certeira. O Maranhão vivia um movimento de expansão do consumo e, mais tarde, se firmaria como um dos mercados de franquia que mais crescem no país. Só em 2025, o franchising no Maranhão movimentou R$ 4,3 bilhões, com alta superior a 9%, um ambiente fértil para quem chegou cedo.
Bacabal deu a ele algo que uma capital dificilmente daria a um iniciante, que era a chance de errar, ajustar e crescer sem ser esmagado pela concorrência. Foi desse chão, no coração do Maranhão, que a marca ganhou musculatura para pensar grande.
A fábrica própria e o salto de escala

Com as lojas próprias da Bengô Açaí indo bem, o passo seguinte foi olhar para trás na cadeia de produção. Em 2019, o negócio ganhou uma fábrica própria, movimento que garantiu escala e padronização à operação. Em vez de depender de terceiros para a polpa, a empresa passou a controlar a qualidade e o custo do que servia.
Verticalizar foi mais do que uma decisão técnica. Uma produção própria significava poder abrir muitas lojas com o mesmo padrão de sabor e textura, algo essencial para quem sonhava em replicar o modelo cidade afora. A fábrica virou a espinha dorsal da futura rede.
Hoje, essa estrutura produz cerca de 35 toneladas de açaí por mês, com expectativa de saltar para 60 toneladas ao longo de 2026 para acompanhar a expansão. É o tipo de capacidade industrial que separa um bom negócio local de uma marca com ambição nacional.
Foi com a fábrica rodando e o padrão azeitado que Rodrigo Cardoso se sentiu pronto para o passo mais ousado, que era abrir a marca para investidores e transformar a operação numa rede de franquia de verdade.
A virada para o modelo de franquia
A transformação em rede de franquia foi o divisor de águas da história. A marca Bengô Açaí foi estruturada justamente para atender à demanda de investidores interessados em entrar no ramo, e a resposta veio rápido. Em pouco tempo, o negócio saiu de um punhado de unidades para dezenas de contratos comercializados, primeiro no Maranhão e depois em outros estados do Nordeste.
Os números da largada impressionaram. Quando a operação de franquia deslanchou, a Bengô Açaí vendeu cerca de 30 unidades em apenas seis meses, sinal de que o modelo tinha apelo. Para o franqueado, o investimento parte de cerca de R$ 300 mil, com previsão de retorno em até seis meses, um prazo curto que ajudou a atrair interessados.
A proposta era clara, que era entregar ao investidor um negócio pronto, com marca, fábrica, cardápio e processos já testados. Em vez de reinventar a roda, o franqueado entrava num sistema padronizado, com a polpa saindo da fábrica própria e a operação desenhada para o self-service. A Bengô Açaí cuidava do miolo, e o parceiro cuidava do ponto.
Esse arranjo destravou o crescimento. A franquia deixou de ser uma promessa e virou o motor que espalhou a marca pelo mapa, levando o açaí de Bacabal para muito além das fronteiras do Maranhão.
140 lojas em 12 estados
O resultado dessa engrenagem está no tamanho atual da rede. Hoje, a Bengô Açaí soma 140 lojas, entre unidades já em operação e franquias comercializadas, com presença em 12 estados. O que nasceu numa cozinha em Bacabal virou uma operação com alcance interestadual.
A expansão não para por aí. A meta da Bengô Açaí é chegar a 300 unidades até o fim de 2026, o que significa colocar de pé mais de 200 novas operações num intervalo curto. Para 2027, o objetivo é ainda mais ousado, que é alcançar 500 lojas.
Esse ritmo acompanha uma tendência maior. Negócios de baixo investimento inicial, ligados a um produto de consumo de massa e a um modelo fácil de replicar, vêm ganhando escala no Nordeste e criando novos polos de crescimento longe dos grandes centros. A Bengô Açaí virou um exemplo dessa leva.
De Araguaína, no Tocantins, de onde Rodrigo Cardoso saiu, até as 140 lojas de hoje, a distância é medida menos em quilômetros e mais em decisões de risco. Cada nova franquia aberta reforça a aposta feita lá atrás, quando a moto foi vendida para comprar duas máquinas de açaí.
R$ 81,5 milhões em 2025 e a meta de R$ 146 milhões
Os números de faturamento traduzem o tamanho do salto. Em 2025, a Bengô Açaí faturou R$ 81,5 milhões, marca expressiva para um negócio que começou com R$ 95 mil e duas máquinas numa cozinha. Para 2026, a projeção é praticamente dobrar o resultado e alcançar R$ 146 milhões.
Boa parte dessa conta depende do avanço das franquias e do aumento da produção. Se a expansão para 300 lojas sair como planejado, e se a fábrica de fato subir de 35 para 60 toneladas mensais, o número de R$ 146 milhões deixa de ser meta e vira consequência da escala para a Bengô Açaí.
À frente de tudo, como CEO e fundador, segue Rodrigo Cardoso, o mesmo que apenas seis meses após abrir o negócio contratou as primeiras quatro pessoas. A estrutura de hoje é incomparavelmente maior, mas a lógica que ele repete é a mesma do primeiro dia, que é ouvir o cliente, padronizar o que dá certo e reinvestir na operação.
Do primeiro balcão improvisado na cozinha até a projeção de R$ 146 milhões, a trajetória da Bengô Açaí condensa uma pergunta que muitos empreendedores carregam no bolso: até onde pode chegar quem decide vender a moto e apostar tudo numa ideia simples, feita com consistência e paciência?
