A Certisign nasceu em 1996 protegendo sites, já emitiu 18 milhões de certificados digitais e agora investe R$ 15 milhões para verificar se quem está do outro lado da câmera é um ser humano de verdade
A Certisign, empresa que nasceu em 1996 vendendo certificados de segurança para sites quando a internet brasileira engatinhava, completa 30 anos tentando se reposicionar em um mercado muito mais amplo, o da confiança digital, segundo a Exame, em reportagem de 8 de julho. A companhia faturou R$ 320 milhões em 2025 e mira R$ 350 milhões neste ano. “Hoje, a nossa principal fortaleza é a identificação. O que nós vendemos é confiança”, afirma Marco Americo Deneszczuk Antonio, CEO da empresa, na entrevista.
O terreno para esse negócio nunca foi tão fértil, e por um motivo ruim: o percentual de brasileiros que sofreram golpe ou tentativa de golpe subiu de 33% em setembro de 2024 para 38% em março de 2025, e os bancos investiram cerca de R$ 5 bilhões em segurança e prevenção a fraudes no ano passado, segundo a Febraban, na pesquisa Radar Febraban. O inimigo da vez tem nome: o deepfake.
A “epidemia” dos golpes: cartão clonado, WhatsApp, central falsa e PIX
O raio-x do problema está na pesquisa da federação dos bancos. Entre os golpes mais comuns apontados pelos brasileiros, a clonagem de cartão de crédito ou troca de cartões lidera com 40%, seguida pelo golpe de quem se passa por conhecido pedindo dinheiro no WhatsApp, com 28%, pela central falsa, com 26%, e pelo golpe do PIX, com 16%, segundo a Febraban. O levantamento, feito entre 19 e 21 de março de 2025 com 2.000 pessoas nas cinco regiões do país, mostra ainda que as maiores vítimas são os homens, com 44%, as pessoas com 60 anos ou mais, com 42%, e quem tem ensino superior, com 41%.
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“Os golpes e as fraudes, no comércio e nas transações financeiras e bancárias, se tornaram uma epidemia nacional e a criminalidade digital não se restringe apenas aos bancos”, afirma Isaac Sidney, presidente da Febraban, no material da pesquisa. Um dado curioso da mesma pesquisa: quase 7 em cada 10 entrevistados, 69%, lembram de ter recebido alertas de bancos ou outras entidades contra golpes.
Do cadeado do navegador ao e-CPF: a empresa que ajudou a internet a nascer segura

A Certisign começou com os certificados SSL, tecnologia que criptografa a conexão entre o navegador e um site, o recurso que ajudou a tornar possíveis o internet banking e as compras online, segundo a Exame. Em 2001, com a criação da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira, a ICP-Brasil, a empresa passou a emitir certificados digitais como o e-CPF e o e-CNPJ, documentos eletrônicos que provam a identidade de uma pessoa ou empresa em transações digitais, e hoje soma mais de 18 milhões de certificados emitidos e cerca de 400 funcionários, segundo a Exame.
O CEO tem uma imagem pronta para explicar o produto. “Eu sempre digo que o certificado digital é como uma caneta eletrônica. E dentro dessa caneta, a tinta é a sua identidade”, diz Marco à Exame. Hoje a companhia atua em três frentes: certificados digitais, assinaturas eletrônicas e identificação biométrica, a mais estratégica diante das fraudes com inteligência artificial.
Como se barra um deepfake: a prova de vida em três dimensões
A explosão de golpes digitais, de acordo com a Exame, é ligada pelo executivo à digitalização da vida. “Hoje, praticamente você tem tudo que precisa no celular. Você pede comida, transporte, tem documentos, faz transações no mercado financeiro, compra passagens. A sua vida basicamente está toda dentro do celular”, afirma à Exame. Para reduzir o risco, a Certisign usa biometria facial, comparação com bases de dados e uma tecnologia chamada liveness 3D, a prova de vida em três dimensões, que verifica se há uma pessoa real do outro lado da câmera, e não uma imagem, gravação ou avatar criado por inteligência artificial, segundo a Exame.
“O liveness 3D identifica se quem está do outro lado da câmera é um ser humano ou se não é um ser humano. Depois, pegamos os vetores biométricos da face e comparamos com bases de dados para entender se a pessoa é ela mesma”, explica o executivo na reportagem. A tecnologia é usada na emissão de certificados e em processos como a abertura de contas em bancos, onde a checagem biométrica reduz tentativas de fraude na entrada de novos clientes.
R$ 15 milhões em tecnologia e a validação que caiu de 30 para 10 minutos
O plano de crescimento tem investimento carimbado. A Certisign está aplicando R$ 15 milhões em tecnologia neste ano, com parte relevante destinada ao Validador 3.0, plataforma que modernizou a emissão de certificados digitais e derrubou o processo de cerca de meia hora para aproximadamente 10 minutos, uma redução superior a 40% no tempo médio de atendimento, segundo a Exame.
A emissão de um certificado exige uma espécie de cerimônia de validação: o cliente apresenta documentos, passa por biometria facial e, em alguns casos presenciais, pela coleta de digitais, além da análise documental para checar se os papéis são verdadeiros. “Esse projeto é para fazer com que a interação entre o agente de registro e o usuário final seja feita numa velocidade muito maior”, afirma Marco à Exame.
A assinatura “irrefutável” que inverte o ônus da prova

Outra perna do negócio é a plataforma de assinaturas digitais, lançada entre 2012 e 2013. Mais de 500 milhões de documentos já foram formalizados na plataforma da Certisign, e o diferencial está na assinatura qualificada, feita com certificado digital ICP-Brasil, o tipo com maior grau de presunção de autenticidade entre os três previstos no Brasil, segundo a Exame.
Marco resume o peso jurídico da modalidade em uma frase: “Ela é irrefutável. Você não tem como questionar que aquele documento foi assinado por você mesmo. O ônus da prova se inverte”, diz à Exame. Na prática, quem assina com certificado qualificado não consegue alegar depois que não foi o autor, proteção valiosa em contratos de alto valor numa era de golpes digitais cada vez mais sofisticados.
O CEO que veio do rival: “a empresa a ser batida pela DocuSign era a Certisign”
O comandante da virada conhece o adversário por dentro. Marco chegou à Certisign em abril de 2023, é formado em engenharia eletrônica pela Mauá, tem 35 anos de carreira com passagens por Xerox, Alcatel, Diveo e DocuSign, participou da chegada dos grandes data centers comerciais ao Brasil no início dos anos 2000 e ajudou a construir a operação da DocuSign na América Latina, justamente uma concorrente da Certisign, segundo a Exame.
“Naquela época, a empresa a ser batida pela DocuSign era a Certisign”, conta ele na entrevista. Agora do outro lado da mesa, o executivo conduz a reinvenção: a companhia deixou de se posicionar apenas como autoridade certificadora para se apresentar como empresa de tecnologia e serviços de confiança.
A próxima fronteira: dar identidade até para robô de inteligência artificial
O futuro do negócio pode incluir clientes que não são humanos. A Certisign começa a avaliar a identificação de agentes de inteligência artificial, emitindo certificados digitais que digam de quem cada robô é, para quem serve e qual o nível de delegação que tem, segundo a Exame. “É uma solução para identificação não humana de agentes de IA”, explica o CEO na reportagem.
A aposta de fundo, registrada pela Exame, é que quanto mais digital a economia se torna, maior a demanda por mecanismos que provem quem está do outro lado da tela. Fica a observação desta redação, devidamente sinalizada: num país em que o golpe virou rotina de quase 4 em cada 10 pessoas, vender confiança deixou de ser serviço de nicho e virou infraestrutura básica, como luz e água.
Da proteção de sites em 1996 à caça aos deepfakes em 2026, a Certisign atravessou todas as eras da internet brasileira cobrando pelo mesmo produto invisível: a certeza de que você é você.
Conta pra gente nos comentários: você já caiu ou quase caiu em golpe digital, e confia em biometria facial pra proteger seu dinheiro?
