Em 1985, dois irmãos da Serra Gaúcha dividiam um quartinho alugado de cerca de 12 metros quadrados, com uma mesa, uma cadeira e um telefone. Quarenta anos depois, esse mesmo negócio virou o Grupo Argenta, ecossistema de Flores da Cunha (RS) que projeta faturar R$ 24 bilhões em 2025 e já reúne mais de mil postos de combustível espalhados pelo país.
Segundo a Exame, o que começou como um serviço de transporte de caixas de madeira para vinícolas se transformou num ecossistema de 14 empresas, com mais de 6.500 funcionários e faturamento projetado 35% maior que o de 2024. Segundo o Serra em Pauta, as antigas empresas SIM, de Flores da Cunha, passaram oficialmente a se chamar Argenta em 25 de abril de 2024, numa homenagem aos irmãos fundadores Deunir e Neco Argenta.
O quartinho de 12 metros quadrados onde tudo começou
Para entender o tamanho do Grupo Argenta hoje, é preciso voltar a 1985. Naquele ano, Neco Argenta tinha apenas 21 anos quando decidiu, ao lado do irmão Deunir, montar um pequeno negócio na cidade de Flores da Cunha, no coração da Serra Gaúcha. O ponto de partida foi modesto ao extremo: um quartinho alugado de aproximadamente 12 metros quadrados, equipado apenas com uma mesa, uma cadeira e um telefone.
A ideia inicial nada tinha a ver com combustíveis. Os irmãos organizavam o transporte de caixas de madeira usadas por produtores de uva e vinícolas da região. Era um serviço simples, de logística, que dependia de rodar quilômetros pela serra e conquistar a confiança de um cliente de cada vez. Aquele quartinho apertado foi, na prática, a primeira sede do que viria a ser um dos maiores grupos do ramo no Brasil.
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Ele perdeu o emprego numa fábrica de calçados no início dos anos 1990, vendeu ferramenta na porta de banco e padaria em Franca para sustentar a família e fundou a Loja do Mecânico, que hoje tem 19 lojas, projeta faturamento de R$ 1,2 bilhão e acaba de abrir a primeira unidade na capital paulista
O detalhe do espaço de 12 metros quadrados virou símbolo. Ele resume a distância entre o ponto de origem e o que o Grupo Argenta representa quatro décadas depois. Não havia capital de peso, não havia frota, não havia postos. Havia dois irmãos, uma cidade do interior gaúcho e a disposição de transformar um serviço pequeno em algo muito maior do que qualquer um imaginava.
Do transporte de caixas ao primeiro posto de combustível

O salto que mudaria tudo veio em 1993. Foi nesse ano que Neco Argenta e o irmão abriram o primeiro posto de combustível, dando início à vocação que definiria o futuro do Grupo Argenta. A decisão de entrar no ramo de combustíveis não foi um acaso: a Serra Gaúcha era uma região de forte circulação de veículos, transporte de cargas e movimento constante de vinícolas, indústrias e turismo.
Daquele primeiro posto de combustível em diante, o negócio deixou de ser apenas logística de caixas e passou a girar em torno do abastecimento. Cada novo posto de combustível inaugurado ampliava a presença da marca nas estradas gaúchas e criava a base de clientes que sustentaria a expansão seguinte. A operação foi crescendo de forma orgânica, posto a posto, praça a praça.
Ao longo dos anos 1990 e 2000, o que era um único posto de combustível se multiplicou. O grupo aprendeu a operar em escala, a negociar volumes maiores e a montar a estrutura que, mais tarde, permitiria virar não só dono de postos, mas também distribuidora.
A virada: quando o Grupo Argenta decidiu crescer de verdade
Se a fundação foi em 1985 e o primeiro posto veio em 1993, foi a partir de 2018 que o Grupo Argenta acelerou de forma decisiva. Aquele foi o momento em que a empresa assumiu de vez uma estratégia de expansão baseada em aquisições e parcerias, deixando de crescer apenas de maneira orgânica para incorporar redes, marcas e operações inteiras.
A lógica era clara: num mercado de combustíveis dominado por gigantes, ganhar escala rápido era questão de sobrevivência e de força de negociação. Comprar redes de postos de combustível já existentes, firmar parcerias com marcas nacionais e integrar operações de distribuição permitiu ao grupo pular etapas que levariam décadas para serem vencidas apenas com inaugurações uma a uma.
Foi nesse período que o Grupo Argenta deixou de ser uma empresa regional para virar um dos nomes mais relevantes do setor de combustíveis no Sul do país. A cada aquisição, o faturamento subia, o número de postos crescia e a estrutura de distribuidora ganhava novas bases. O quartinho de 12 metros quadrados ficava cada vez mais distante no retrovisor.
SIM, Charrua e Petronas: as bandeiras que somam mais de mil postos

Hoje, o Grupo Argenta abastece o país sob três bandeiras principais: SIM Rede, Charrua e Petronas. Juntas, elas devem ultrapassar a marca de mil postos de combustível até dezembro de 2025, um número que coloca o grupo entre os maiores operadores de postos do Brasil.
A bandeira SIM é a mais tradicional e a que carrega a história da casa, com quase 200 lojas de conveniência de marca própria espalhadas pelos postos. A Charrua reforça a presença regional, enquanto a Petronas representa o braço mais recente e ambicioso: o grupo se tornou licenciado da marca malaia no Brasil e projeta chegar a 500 postos de combustível sob essa bandeira até o fim de 2025.
Cada bandeira cumpre um papel dentro do ecossistema. Enquanto uma rede de postos de combustível atende o público local com a marca já conhecida, outra avança sobre novas praças e mercados. Essa combinação é o que permite ao Grupo Argenta somar mais de mil pontos de abastecimento e vender em volume suficiente para figurar entre os líderes do setor.
R$ 24 bilhões: os números do império de combustíveis
Os números atuais do Grupo Argenta impressionam justamente pelo contraste com o começo. A projeção de faturamento para 2025 é de R$ 24 bilhões, uma alta de 35% em relação a 2024. Para efeito de comparação, em 2023 o grupo faturou cerca de R$ 15 bilhões, e a previsão para 2024 girava em torno de R$ 19 bilhões. O ritmo de crescimento é acelerado e consistente.
Por trás desse faturamento estão mais de 6.500 funcionários e um ecossistema de 14 empresas que vão muito além dos postos. Há braços dedicados a distribuidora de combustíveis, lubrificantes, aviação, serviços financeiros e até uma vinícola, a Luiz Argenta, que reconecta o grupo às origens ligadas ao vinho da Serra Gaúcha.
O salto de um quartinho de 12 metros quadrados para um faturamento de R$ 24 bilhões em 40 anos é o tipo de trajetória rara no empresariado brasileiro. Mostra como o Grupo Argenta transformou o abastecimento em um negócio de escala bilionária, sem sair de Flores da Cunha. Para Neco Argenta, é a prova de que o interior sabe pensar grande.
A 4ª maior distribuidora de combustíveis do Sul
Além de dono de postos, o Grupo Argenta é hoje a quarta maior distribuidora de combustíveis do Sul do Brasil. Esse braço de distribuidora é o que garante o abastecimento das próprias bandeiras e também de clientes terceiros, movimentando grandes volumes a partir de uma malha logística robusta.
Para dar conta desse volume, o grupo mantém mais de 15 bases de distribuição espalhadas estrategicamente. Cada base funciona como um ponto de armazenamento e escoamento, encurtando distâncias e reduzindo custos para chegar aos postos de combustível e aos clientes finais. É essa engenharia de distribuidora que sustenta a operação de mais de mil postos.
A atuação como distribuidora também abriu portas para contratos de peso. Em 2023, o braço de distribuição fechou acordo para fornecer diesel com conteúdo renovável, e o grupo se firmou como um dos protagonistas do mercado de combustíveis do Sul. Ser distribuidora, e não apenas revendedora, é o que diferencia o Grupo Argenta de boa parte dos concorrentes.
De SIM a Argenta: o nome que virou marca
Durante boa parte da história, o grupo foi conhecido pelas empresas SIM. A virada de identidade veio em 25 de abril de 2024, quando as empresas SIM de Flores da Cunha passaram oficialmente a se chamar Argenta, em referência direta ao sobrenome dos irmãos fundadores, Deunir e Neco Argenta.
A mudança de nome não foi apenas cosmética. Ela unificou sob uma só marca um conjunto de empresas que havia crescido de forma acelerada e precisava de uma identidade comum. O nome Grupo Argenta passou a representar tudo de uma vez: postos, distribuidora, lubrificantes, conveniência e os demais braços do ecossistema.
Rebatizar as operações também teve um peso simbólico. Colocar o sobrenome da família na fachada dos postos de combustível é assumir publicamente a responsabilidade por cada litro vendido. Para Neco Argenta, que começou aos 21 anos naquele quartinho, ver o próprio nome virar a marca de um império de combustíveis é o fechamento de um ciclo.
O que sustenta o Grupo Argenta depois de 40 anos
Em 2025, o Grupo Argenta completa 40 anos, e a fotografia é a de uma empresa que soube crescer sem perder o eixo. O que sustenta o negócio não é um golpe de sorte, mas a soma de decisões tomadas ao longo de quatro décadas: entrar nos combustíveis em 1993, ganhar escala a partir de 2018, virar distribuidora de peso e unificar a marca em 2024.
Neco Argenta gosta de lembrar que a empresa operou quase 40 anos com foco em expansão, e os números confirmam a consistência. Sair de um quartinho de 12 metros quadrados e chegar a mais de mil postos de combustível, 14 empresas, mais de 6.500 funcionários e R$ 24 bilhões de faturamento projetado é resultado de disciplina, não de acaso.
O ecossistema montado em Flores da Cunha mostra que dá para construir um gigante do setor longe dos grandes centros. O Grupo Argenta virou referência de que o interior gaúcho pode gerar negócios de escala nacional, com uma operação de distribuição forte e uma rede de postos que se espalha pelo país. E a história de Neco Argenta e do irmão Deunir prova que um espaço de 12 metros quadrados pode, sim, ser o começo de um império.
Se dois irmãos conseguiram transformar um quartinho alugado num grupo de R$ 24 bilhões em apenas quatro décadas, o que será que ainda impede a próxima grande empresa brasileira de nascer, agora mesmo, numa cidade pequena que quase ninguém percebe no mapa?
