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Egito quer desviar 10 milhões de m³ de água do Nilo por dia, o equivalente a 4 mil piscinas olímpicas, para erguer uma cidade envidraçada no deserto e irrigar 2,28 milhões de acres, em um projeto que tenta empurrar vida para fora do vale mais disputado do país

Escrito por Ana Alice
Publicado em 21/06/2026 às 22:42
Atualizado em 21/06/2026 às 22:44
Assista o vídeoEgito planeja desviar água do Nilo para erguer Jirian no deserto e irrigar o Novo Delta em meio à escassez hídrica. (Imagem: Ilustrativa)
Egito planeja desviar água do Nilo para erguer Jirian no deserto e irrigar o Novo Delta em meio à escassez hídrica. (Imagem: Ilustrativa)
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Megaprojeto no deserto egípcio combina cidade planejada, irrigação agrícola e uso intensivo da água do Nilo, em uma iniciativa que avança sobre áreas áridas e amplia o debate sobre escassez hídrica no país.

O Egito apresentou em 1º de junho de 2025 um plano para construir Jirian, uma cidade planejada em área desértica a oeste do Cairo, com abastecimento previsto de cerca de 10 milhões de metros cúbicos de água do Nilo por dia.

O volume deve passar pelo novo empreendimento urbano e seguir para o projeto agrícola Novo Delta, que prevê irrigar aproximadamente 2,28 milhões de acres fora das áreas tradicionais do vale do rio.

O anúncio foi feito pelo governo do primeiro-ministro Mostafa Madbouly em meio a restrições hídricas, limitações energéticas e dificuldades econômicas enfrentadas pelo país.

Em comunicado sobre o projeto, Madbouly afirmou que a iniciativa busca elevar o valor de ativos estatais e impulsionar os preços da terra por meio de “ideias não tradicionais e inovadoras”, segundo a Reuters.

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Cidade de Jirian avança sobre área desértica perto do Cairo

A cidade de Jirian foi apresentada para uma área de 6,8 milhões de metros quadrados, localizada a 42 quilômetros do centro do Cairo.

O projeto fica no eixo Sheikh Zayed, na região de 6 de Outubro, uma das frentes de expansão urbana da capital egípcia.

O plano divulgado pelos desenvolvedores prevê unidades residenciais, áreas comerciais, uma marina para iates e uma zona econômica livre.

A assinatura do acordo envolveu três incorporadoras privadas e o Estado egípcio, representado pela Mostakbal Misr for Sustainable Development, agência ligada às Forças Armadas do país, conforme informou a Reuters.

A proposta combina desenvolvimento imobiliário, infraestrutura hídrica e expansão agrícola.

Pela descrição oficial do projeto, a água deve atravessar a área urbana antes de seguir para terras cultiváveis associadas ao Novo Delta, iniciativa criada para ampliar a produção agrícola em zonas desérticas.

Essa configuração coloca Jirian dentro de uma estratégia mais ampla do governo egípcio.

Em vez de concentrar novos projetos apenas no vale e no delta do Nilo, o país tenta criar polos urbanos e agrícolas em regiões afastadas do corredor historicamente ocupado ao longo do rio.

Água do Nilo sustenta o debate sobre o megaprojeto

O volume previsto para abastecer Jirian e apoiar o Novo Delta equivale, segundo a Reuters, a cerca de 7% da cota anual egípcia de água do Nilo.

A cifra diária de 10 milhões de metros cúbicos corresponde a aproximadamente 3,65 bilhões de metros cúbicos por ano, se mantida de forma contínua.

A dependência do Nilo torna o projeto relevante para o debate hídrico no país.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a FAO, afirma que o rio representa mais de 90% dos recursos hídricos do Egito.

A mesma entidade classifica o país como uma nação sob estresse hídrico, com cerca de 500 metros cúbicos de recursos renováveis por pessoa ao ano.

Dados divulgados em fevereiro de 2026 pelo Serviço de Informação do Estado do Egito também apontam escassez severa de água.

Na ocasião, o ministro de Recursos Hídricos e Irrigação, Hani Swelim, afirmou que a disponibilidade anual por habitante estava em torno de 500 metros cúbicos, abaixo do limite de referência usado pelas Nações Unidas para caracterizar escassez hídrica.

A destinação desse volume para uma nova cidade e para áreas agrícolas no deserto ocorre em um contexto de aumento da demanda por água, crescimento populacional e necessidade de ampliar a produção de alimentos.

O governo egípcio apresenta o Novo Delta como uma das respostas a esse cenário.

Novo Delta entrou em nova fase em 2026

Em 17 de maio de 2026, o presidente Abdel Fattah el-Sisi inaugurou o Projeto de Desenvolvimento Novo Delta no eixo Sheikh Zayed, em Gizé, segundo o Serviço de Informação do Estado do Egito.

O empreendimento foi apresentado como uma das principais iniciativas agrícolas do país para expandir a área cultivada fora do vale do Nilo.

O centro de mídia do gabinete egípcio informou, em maio de 2026, que o Novo Delta abrange 2,2 milhões de feddans e tem investimentos de infraestrutura estimados em 800 bilhões de libras egípcias.

Segundo o jornal estatal Ahram Online, o governo associa o projeto à produção agrícola, à segurança alimentar e à criação de novas áreas econômicas.

A Nasa também registrou, por imagens de satélite, a expansão de áreas verdes em trechos das províncias de Alexandria e Beheira entre novembro de 2018 e novembro de 2024.

De acordo com a agência espacial norte-americana, o Novo Delta usa água reciclada, água subterrânea bombeada e água de um canal conectado ao braço de Rosetta do Nilo, mas a própria Nasa ressalta que a água reciclada não supre toda a demanda das plantações.

A combinação dessas fontes mostra que o projeto não depende de uma única origem de abastecimento.

Ainda assim, a participação da água do Nilo permanece central para a viabilidade da expansão agrícola e urbana prevista pelo governo.

Projeto une irrigação, cidade planejada e valorização de terras

Além da função agrícola, Jirian tem componente imobiliário explícito.

A Palm Hills, uma das incorporadoras associadas ao empreendimento, descreve a cidade como um novo polo no eixo Sheikh Zayed, com moradias, serviços urbanos e áreas voltadas à convivência junto à água.

A Reuters informou que o governo pretende usar o projeto para aumentar o valor de ativos públicos e impulsionar preços de terrenos.

Essa abordagem transforma a infraestrutura hídrica em parte de uma estratégia de desenvolvimento urbano e de valorização imobiliária, conforme a própria justificativa oficial apresentada no anúncio.

No desenho divulgado, a água tem funções diferentes dentro do mesmo projeto.

Ela aparece como insumo para irrigação, elemento de abastecimento urbano e componente paisagístico em áreas residenciais e comerciais.

Essa combinação exige obras de transporte, bombeamento e distribuição em larga escala.

Para o governo egípcio, a expansão para o deserto faz parte de uma política de abertura de novas áreas para moradia e produção agrícola.

Para especialistas em recursos hídricos ouvidos em análises internacionais sobre o tema, projetos desse tipo costumam depender de alto planejamento técnico, consumo energético constante e gestão rigorosa da água disponível.

Infraestrutura hídrica depende de canais, bombas e energia

A infraestrutura do Novo Delta inclui canais, estações de bombeamento e redes de apoio para levar água a áreas que não receberiam irrigação naturalmente.

Segundo o governo egípcio, citado pelo Ahram Online, foram construídas 28 estações principais de bombeamento, rotas hídricas de 150 quilômetros, 18 estações elétricas e 12 mil quilômetros de estradas de apoio.

A agência Anadolu informou que o projeto também envolve 19 grandes estações de bombeamento e uma alocação de 2.000 megawatts de capacidade elétrica.

Esses dados indicam que a operação depende de infraestrutura permanente para deslocar água e manter a produção agrícola em áreas desérticas.

A escala das obras ajuda a explicar por que o Novo Delta aparece em documentos oficiais como um projeto agrícola, urbano, logístico e econômico.

O objetivo declarado pelo governo é ampliar a capacidade de produção e reduzir a dependência externa de alimentos, especialmente em culturas estratégicas.

A execução, porém, ocorre em um país que já enfrenta forte pressão sobre seus recursos hídricos.

Por isso, o debate em torno de Jirian e do Novo Delta não se limita à construção de uma nova cidade, mas envolve a forma como o Egito pretende distribuir água entre consumo urbano, agricultura, valorização de terras e segurança alimentar.

Ao levar parte da água do Nilo para uma cidade planejada no deserto e para novas áreas agrícolas, o Egito amplia uma política de ocupação fora do vale tradicional do rio.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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