Uma campanha subaquática em um lago vulcânico italiano trouxe à tona vestígios preservados sob sedimentos, com estruturas de madeira e objetos de bronze que ajudam a reconstituir parte de uma antiga ocupação da Idade do Bronze.
Arqueólogos subaquáticos mapearam mais de 600 estacas de madeira no fundo do lago de Mezzano, em Valentano, na província de Viterbo, no Lácio, Itália.
A estrutura pertence a um antigo povoado palafítico da Idade do Bronze, datado de aproximadamente 1700 a 1150 a.C., conforme informações divulgadas pela Soprintendenza Archeologia, Belle Arti e Paesaggio para a província de Viterbo e a Etrúria Meridional.
O trabalho foi apresentado pelo órgão italiano em comunicado publicado em 13 de outubro de 2025, após a primeira fase de uma nova campanha de pesquisas subaquáticas no local.
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A equipe informou que o objetivo da operação é documentar, preservar e estudar os vestígios do assentamento, que permanece submerso no lago de origem vulcânica.
Localizado na caldeira de Latera, na região da Tuscia viterbese, o lago de Mezzano guarda camadas de argila, sedimentos e materiais orgânicos acumulados ao longo de milênios.
Essas condições ajudaram a conservar parte das estruturas de madeira e objetos de metal associados à ocupação antiga.
Aldeia submersa no lago de Mezzano
As estacas identificadas no fundo argiloso cobrem cerca de um terço da área já conhecida do assentamento.
Segundo a Soprintendenza, esses elementos provavelmente sustentavam plataformas de madeira usadas por comunidades palafíticas, construídas em áreas alagadas ou próximas às margens.
Os vestígios aparecem em profundidades que variam de aproximadamente 2,5 metros a 10 metros.
Para a equipe responsável pela campanha, essa distribuição ajuda a analisar alterações no nível do lago durante o período de ocupação, estimado em cerca de seis séculos.
Antes das escavações pontuais, os pesquisadores fizeram um levantamento morfobatimétrico de todo o fundo do lago.
Esse tipo de mapeamento registra a forma e a profundidade do terreno submerso, permitindo localizar áreas com maior concentração de materiais arqueológicos.
A partir desse levantamento, os mergulhadores concentraram os trabalhos em pontos onde depósitos antigos ainda estavam protegidos por camadas compactas de argila.
O procedimento evitou uma escavação ampla sem delimitação prévia e permitiu avançar sobre áreas consideradas mais preservadas.
A remoção dos sedimentos foi feita com mangueiras de sucção, chamadas de “sorbone” nas operações italianas.
De acordo com a Soprintendenza, os trabalhos ocorreram em condições de baixa visibilidade e água fria, o que exigiu escavações controladas e registro detalhado dos achados.
Artefatos de bronze preservados sob a argila
Durante a campanha, a equipe recuperou mais de 25 artefatos de bronze.
O órgão italiano atribui o estado de conservação dos objetos ao contato com a camada superficial de argila, que reduziu a exposição direta dos metais a processos de oxidação.
Entre os materiais retirados da água estão machados de aletas, pontas de lança, fíbulas, anéis, um alfinete, uma foice e elementos decorativos.
Também foram encontrados fragmentos de lingotes de bronze, associados a processos de fundição.
A presença desses lingotes indica, segundo a Soprintendenza, a possibilidade de atividades metalúrgicas no interior do povoado ou em áreas próximas.
Uma das peças mencionadas pelo órgão é um objeto perfurado de bronze com decoração relacionada a um símbolo solar.
Após a retirada dos materiais, restauradores atuaram para estabilizar os objetos e reduzir riscos de deterioração causados pela mudança de ambiente.
Parte dos artefatos apareceu em áreas com pedras vulcânicas.
A equipe relaciona essa distribuição a possíveis deslizamentos antigos, mas trata a interpretação como hipótese de trabalho, sem apresentá-la como explicação definitiva para a formação do depósito arqueológico.
Vestígios com marcas de fogo
Alguns objetos de bronze apresentam sinais compatíveis com exposição ao fogo.
Segundo a Soprintendenza, esses materiais podem ter caído ou sido abandonados junto a estruturas de madeira incendiadas, identificadas entre os restos do assentamento.
A avaliação ainda depende da continuidade das pesquisas.
Como os materiais permaneceram submersos por milhares de anos, parte deles pode ter se deslocado por mudanças no nível da água, erosão das margens, movimentação de sedimentos ou episódios de queda de estruturas.
O estudo das camadas sugere uma relação entre profundidade e antiguidade dos materiais, de acordo com a análise inicial divulgada pelo órgão.
Os itens mais antigos parecem estar em áreas mais profundas, enquanto vestígios mais recentes foram localizados em pontos menos profundos.
Essa leitura ainda precisa ser comparada com o estudo das cerâmicas, metais e estacas.
A equipe também pretende associar os achados a diferentes setores do povoado para entender como a comunidade ocupava a margem do lago e quais atividades eram realizadas em cada área.
O que a campanha revela sobre a Idade do Bronze
O sítio do lago de Mezzano já era conhecido pelas autoridades italianas, mas a nova campanha ampliou a documentação sobre sua extensão, preservação e distribuição interna.
O catálogo nacional de bens culturais da Itália identifica o local como um assentamento perilacustre em Valentano, sob tutela da mesma Soprintendenza.
Com o mapeamento das estacas, os pesquisadores passam a ter mais elementos para reconstruir a organização espacial do povoado.
Já os objetos de bronze ajudam a compreender práticas técnicas, circulação de materiais e usos cotidianos ou simbólicos no contexto da Idade do Bronze.
A Soprintendenza informa que a natureza e a extensão total do assentamento ainda não estão completamente definidas.
Mesmo assim, os dados obtidos indicam que os materiais e as estruturas de madeira podem se espalhar por uma parte significativa do lago, sob camadas de limo e argila.
As próximas etapas devem priorizar a continuidade da documentação subaquática e escavações estratigráficas em pontos selecionados.
Esse tipo de trabalho pode ajudar a identificar fases diferentes de ocupação e a relação entre os objetos encontrados, as estacas de madeira e as antigas margens do lago.
A campanha também inclui ações de conservação dos materiais retirados da água.
Como madeira e metais submersos podem se degradar rapidamente após a exposição ao ar, o tratamento técnico é uma etapa necessária para permitir estudos posteriores e eventual apresentação dos objetos ao público.
O conjunto de vestígios do lago de Mezzano oferece novas informações sobre comunidades que viveram no centro da Itália há cerca de 3 mil anos, segundo os arqueólogos responsáveis pela pesquisa.


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