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Em Andradina, no interior de SP, uma curtidora transformou a pele de tilápia que os frigoríficos jogavam no lixo em couro exótico para bolsas, sapatos e até vestido de noiva, produz cerca de 2 mil peças por mês e exporta para sete países, provando que o resíduo do peixe virou moda de alto valor

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 11/07/2026 às 02:03 Atualizado em 11/07/2026 às 02:05
Amanda Hoch, de 45 anos, construiu um negócio inteiro em cima da pele de tilápia
Amanda Hoch, de 45 anos, construiu um negócio inteiro em cima da pele de tilápia
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Amanda Hoch, de 45 anos, é conhecida como a “rainha do couro de tilápia do Brasil”. Da quarta geração de uma família de curtidores, ela fundou a Tilápia Leather e transformou a pele de tilápia, antes descartada, em couro nobre que veste bolsas, calçados e até um vestido de noiva.

O que a maioria dos frigoríficos joga fora, ela transformou em moda de alto valor. Em Andradina, no interior de São Paulo, a zootecnista Amanda Hoch, de 45 anos, construiu um negócio inteiro em cima da pele de tilápia aquela sobra do peixe que costuma ir direto para o lixo. Segundo informações do portal SouCatarina, à frente da Tilápia Leather, empresa que fundou em 2018, ela é hoje conhecida no país e no exterior como a “rainha do couro de tilápia do Brasil”.

A aposta se traduz em números concretos: a curtidora produz cerca de 2 mil peças por mês e exporta o material para sete países: Estados Unidos, Canadá, Austrália, Inglaterra, Rússia, Itália e Hong Kong. Nas mãos de Amanda e de dezenas de artistas parceiros, o resíduo do pescado vira bolsa, carteira, sapato, biojoia e até vestido de noiva.

De filha de curtidor a “rainha do couro de tilápia”

Amanda Hoch, de 45 anos, construiu um negócio inteiro em cima da pele de tilápia
Amanda Hoch, de 45 anos, construiu um negócio inteiro em cima da pele de tilápia

A história começa longe de São Paulo. Gaúcha, Amanda é filha, neta e bisneta de curtidores uma família que trabalha com a arte do curtume desde 1929. Em 2004, por incentivo do pai, Eliseu Hoch, foi estudar o curtimento de peles exóticas na Universidade Estadual de Maringá (PR), onde atuou como colaboradora científica até 2008. Hoje, ela documenta o processo artesanal no perfil da Tilápia Leather, que reúne o passo a passo do ofício e as peças finais.

A escolha, porém, não foi imediata. Acostumada à tradição familiar de processar apenas peles de animais de grande porte, como boi e búfalo, Amanda relutou no começo. A virada veio de uma frase do pai, que ela guarda até hoje: “Amanda, o couro de tilápia é o futuro.” Anos depois, a aposta se confirmou e ela se tornou a única mulher da quarta geração da família a dominar o curtimento de peles exóticas.

Do lixo do frigorífico ao couro nobre: como é o processo

Amostras de couro de tilápia (escamas) — Tilápia Leather/Divulgação
Amostras de couro de tilápia (escamas) — Tilápia Leather/Divulgação

Transformar a pele de tilápia em couro de luxo é um trabalho lento e artesanal. Pelo método exclusivo da Família Hoch, cada curtimento leva, em média, 15 dias e passa por três grandes etapas: limpeza, curtimento e acabamento.

O resultado pode ganhar pigmentação natural, receber uma camada de cera de carnaúba ou um efeito metalizado, conforme a peça que se quer criar.

O couro que sai daí surpreende quem espera fragilidade. Segundo a produtora, a pele da tilápia chega a ser cerca de três vezes mais resistente que o couro bovino, com a vantagem de agregar valor a um material que, antes, seria simplesmente descartado. Não à toa, o antigo resíduo virou matéria-prima nobre para vestuário, bolsas, carteiras, calçados, decoração e biojoias.

Vestido de noiva, sandália da Schutz e sete países no mapa

Amanda Hoch, de 45 anos, construiu um negócio inteiro em cima da pele de tilápia
Amanda Hoch, de 45 anos, construiu um negócio inteiro em cima da pele de tilápia

A versatilidade abriu portas surpreendentes. Em 2019, na feira Aquishow Brasil, Amanda apresentou o primeiro vestido de noiva em couro de tilápia do país.

Mais recentemente, a Tilápia Leather fechou uma parceria com a grife de calçados Schutz, que resultou em uma sandália de couro de tilápia em tons terrosos e ganhou circulação internacional.

O alcance também cresceu no mapa. Hoje, a marca exporta para sete países e reúne cerca de 50 artistas que trabalham o couro no Brasil e no exterior.

Toda a produção sai de Andradina, onde a empresa mantém uma média de 2 mil peças por mês um volume expressivo para um material que, poucos anos atrás, era visto apenas como descarte de frigorífico.

Empreendedorismo feminino e sustentabilidade no couro de peixe

Amostras de couro de tilápia (escamas) — Tilápia Leather/Divulgação
Amostras de couro de tilápia (escamas) — Tilápia Leather/Divulgação

O negócio nasceu com bandeiras claras. Amanda define a Tilápia Leather como “ESG na veia”, atenta a critérios ambientais, sociais e de governança, e diz alinhar a produção a vários dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU da igualdade de gênero à produção e ao consumo responsáveis. A empresa foi erguida com uma equipe majoritariamente feminina.

O reconhecimento veio em prêmios e vitrines do setor. Entre eles, o bronze no Prêmio Mulheres de Negócios do Sebrae-SP, em 2022, entregue em uma das maiores feiras de empreendedorismo do mundo.

“Foi o divisor de águas da minha carreira”, resume Amanda, que é abertamente LGBT e faz questão de falar sobre representatividade no agronegócio.

Uma promessa ao avô e um recado às empreendedoras

Por trás da empresa há uma motivação pessoal. Amanda conta que prometeu ao avô, Alcido Hoch, pouco antes de ele morrer, que levaria o legado da família “aos quatro cantos da Terra” enquanto estivesse viva. É essa promessa que a mantém firme com um produto ainda pouco conhecido do grande público e que ela descreve como uma espécie de “alquimia”, em que cada peça sai única e irrepetível.

A curtidora costuma transformar a própria trajetória em incentivo para outras mulheres. “Toda caminhada tem dor, mas, quando você encontra o seu lugar nessa estrada, começa a perceber o seu valor na vida das pessoas”, diz.

Para ela, o segredo é não desistir: lembrar de onde se veio, resistir e enxergar valor no próprio trabalho, ainda que a matéria-prima tenha começado, literalmente, como sobra jogada no lixo.

Do resíduo que ia parar no lixo às passarelas e às vitrines de sete países, a pele de tilápia virou símbolo de inovação, sustentabilidade e empreendedorismo feminino no Brasil. É a prova de que valor pode nascer justamente onde ninguém estava olhando.

Você compraria uma bolsa, um sapato ou uma biojoia feitos de couro de tilápia ou ainda torce o nariz para a ideia de vestir “couro de peixe”? Conta pra gente aqui nos comentários.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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