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A 750 metros de profundidade, cientistas encontram ouro de verdade preso ao chamado “ouro de tolo”, com teor de até 1,9% em grãos microscópicos, mas a concentração recorde ainda não confirma uma jazida pronta para exploração comercial

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Escrito por Geovane Souza Publicado em 11/07/2026 às 09:51
Cientistas identificam ouro invisível em grãos de pirita retirados de uma caldeira submarina a 750 metros de profundidade perto do Japão
Cientistas identificam ouro invisível em grãos de pirita retirados de uma caldeira submarina a 750 metros de profundidade perto do Japão
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Estudo publicado em 7 de julho de 2026 encontrou uma concentração excepcional de ouro em grãos microscópicos retirados de uma caldeira submarina japonesa, onde fontes hidrotermais formam depósitos ricos em metais

Uma equipe de pesquisadores japoneses identificou ouro invisível em concentrações de até 1,9% dentro de grãos de pirita recolhidos no campo hidrotermal da caldeira de Higashi-Aogashima. O local fica no arco vulcânico de Izu-Ogasawara, ao sul do Japão, a cerca de 750 metros abaixo da superfície do mar.

O resultado foi divulgado em 7 de julho de 2026 pela revista científica Scientific Reports. Os cientistas analisaram pirita retirada de montes de sulfetos e de uma chaminé hidrotermal conhecida como fumarola negra, encontrando ouro incorporado à estrutura do mineral em níveis considerados excepcionalmente altos.

A descoberta, porém, não significa que 1,9% de todo o depósito submarino seja formado por ouro. O valor máximo apareceu em pontos específicos de grãos de pirita examinados em escala microscópica, e não em uma avaliação completa de toda a rocha ou do volume existente no fundo do mar.

Também não há uma estimativa publicada sobre quantas toneladas de ouro poderiam ser recuperadas no local. Antes de qualquer exploração comercial, seria necessário mapear a extensão do depósito, perfurar novas áreas, calcular reservas, testar formas de processamento e avaliar os danos que uma operação provocaria no ambiente marinho.

O ouro está dentro do chamado ouro de tolo e não aparece como pepitas no fundo do mar

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Foto: Okada et al./PLOS ONE, CC BY 4.0 / journals.plos.org

A pirita é um sulfeto de ferro conhecido popularmente como “ouro de tolo”. Sua cor amarelada e seu brilho metálico podem lembrar o ouro, embora os dois materiais tenham composição, dureza, densidade e comportamento químico diferentes.

No material analisado, o ouro verdadeiro não estava visível como pepitas ou grandes partículas douradas. Ele aparecia distribuído em dimensões tão pequenas que não poderia ser identificado por microscópios convencionais, daí o uso da expressão ouro invisível.

O campo hidrotermal foi identificado em 2015, depois de levantamentos com equipamentos autônomos e coleta de sedimentos. Como informou o Instituto de Ciência Industrial da Universidade de Tóquio, a caldeira está situada aproximadamente 12 quilômetros a leste da ilha de Aogashima, e amostras retiradas a cerca de 760 metros de profundidade já haviam revelado pirita, esfalerita, calcopirita, galena e barita.

O teor de 1,9% chama atenção, mas não pode ser aplicado a toda a rocha submarina

Uma concentração de 1,9% corresponde matematicamente a 19 mil partes por milhão. Caso esse teor fosse uniforme em uma tonelada do mesmo tipo de pirita analisada, haveria o equivalente a 19 quilos de ouro nessa tonelada.

Essa comparação serve apenas para mostrar o tamanho do número encontrado no laboratório. Ela não permite afirmar que uma tonelada de rocha retirada da caldeira contenha 19 quilos de ouro, porque a rocha reúne vários minerais e os teores mudam entre diferentes pontos, estruturas e tipos de pirita.

Um estudo anterior, publicado em janeiro de 2025 na revista PLOS One, registrou média de 102 partes por milhão de ouro nas rochas de sulfeto de um dos setores da caldeira. O mesmo trabalho encontrou partículas de ouro com dimensões entre 5 e 50 nanômetros ligadas à formação de grãos maiores, mostrando que o metal pode aparecer em formas e concentrações muito diferentes dentro do sistema hidrotermal.

Os pesquisadores do trabalho de 2026 utilizaram a espectrometria de massa de íons secundários, conhecida pela sigla SIMS. A técnica bombardeia pontos minúsculos do material com íons e mede os elementos liberados, permitindo detectar concentrações que passariam despercebidas em análises menos sensíveis.

Os maiores teores apareceram em piritas com concentrações elevadas de arsênio, chumbo e cobre. A equipe considera que esses elementos podem facilitar a incorporação do ouro à estrutura cristalina, embora o mecanismo ainda dependa de novas análises.

Fontes hidrotermais funcionam como sistemas naturais de transporte e concentração de metais

As fontes hidrotermais surgem quando a água do mar penetra em fraturas do leito oceânico, é aquecida pelo calor interno da crosta e reage com as rochas. O fluido retorna carregando enxofre, ferro, cobre, zinco, chumbo, prata e pequenas quantidades de ouro.

Quando esse líquido quente entra em contato com a água fria do oceano, os elementos se precipitam e formam sulfetos. Ao longo do tempo, o material pode construir montes minerais e chaminés escuras, chamadas de fumarolas negras devido à aparência da pluma expelida.

Esse processo explica por que a caldeira de Higashi-Aogashima concentra diferentes metais em uma área relativamente pequena. Também ajuda os geólogos a entender como antigas jazidas hoje encontradas em terra firme podem ter sido formadas em ambientes submarinos semelhantes.

O novo estudo indica que a pirita pode guardar uma parcela maior do ouro do que as análises de rocha inteira sugerem. Para uma eventual mineração, isso exigiria técnicas capazes de separar o mineral e recuperar átomos de ouro presos em sua estrutura sem tornar o processo mais caro do que o valor do metal obtido.

Japão desenvolve equipamentos para mineração submarina, mas o campo ainda não virou projeto comercial

O Japão pesquisa depósitos hidrotermais desde 2008 por meio da Organização Japonesa para Segurança de Metais e Energia, a JOGMEC. Em uma avaliação divulgada em novembro de 2023, o órgão estimou um potencial mineral combinado de 51,805 milhões de toneladas nas regiões de Okinawa e Izu-Ogasawara, número que abrange diferentes depósitos e não corresponde apenas à caldeira de Higashi-Aogashima.

O país também realizou, em 2017, um teste de escavação e elevação de minério do fundo do mar. Ainda faltam soluções comerciais para operação contínua, transporte do material, processamento, controle de sedimentos, manutenção dos equipamentos e recuperação das áreas afetadas.

O Plano Estratégico de Energia do Japão publicado em 2025 mantém os recursos minerais marinhos entre as prioridades nacionais. O documento prevê pesquisas sobre exploração, recuperação do minério, processamento, fundição, tamanho das reservas e impactos ambientais, mas não apresenta uma data de início para a extração de ouro em Higashi-Aogashima.

A nova descoberta pode tornar a caldeira um alvo mais relevante para levantamentos geológicos. Transformá-la em mina dependeria de comprovar que o ouro está distribuído em volume suficiente e pode ser recuperado com custos, riscos técnicos e danos ambientais considerados aceitáveis.

A concentração de ouro reacende a disputa sobre os danos da mineração no fundo do oceano

Fontes hidrotermais sustentam organismos adaptados à ausência de luz, à alta pressão e à presença de compostos químicos tóxicos para grande parte da vida marinha. Muitas dessas espécies dependem diretamente das bactérias que utilizam enxofre e outros elementos expelidos pelas fumarolas para produzir energia.

Uma atualização da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza apontou que 125 das 201 espécies de moluscos associadas a fontes hidrotermais avaliadas estão ameaçadas de extinção diante da possibilidade de mineração submarina. Segundo informações publicadas pela Reuters em 9 de julho de 2026, a retirada do minério e a dispersão de sedimentos poderiam soterrar áreas inteiras desses ambientes.

Os efeitos podem durar décadas. Uma expedição realizada em 2023 encontrou alterações no sedimento e redução de organismos em uma faixa do Pacífico atingida por um teste de mineração feito em 1979, embora aquela experiência envolvesse nódulos polimetálicos e não chaminés hidrotermais.

A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos informa que 40 países, entre eles o Brasil, defendem uma pausa preventiva ou moratória para a mineração em águas internacionais. A entidade ainda negocia normas de exploração, avaliações de impacto, limites ambientais e sistemas de fiscalização.

Higashi-Aogashima está dentro da zona econômica exclusiva japonesa. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos regula diretamente o leito oceânico situado além das jurisdições nacionais, enquanto áreas dentro de uma zona econômica exclusiva ficam sujeitas às regras e responsabilidades do respectivo país costeiro.

A descoberta mostra que o fundo do mar japonês guarda pirita com concentrações de ouro muito acima das registradas normalmente nesse mineral, mas ainda não responde quanto ouro existe no depósito nem se sua retirada seria economicamente e ambientalmente viável. Deixe nos comentários se o Japão deveria continuar os testes de mineração submarina ou preservar a caldeira enquanto os riscos para as fontes hidrotermais não forem totalmente conhecidos.

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Geovane Souza

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