Ernst Götsch transformou a Fazenda Olhos d’Água, em Piraí do Norte, na Bahia, em referência de agrofloresta, água recuperada e cacau sem produtos químicos
Nos anos 1980, o agricultor suíço Ernst Götsch chegou ao sul da Bahia depois de estudar e trabalhar com melhoramento genético na Suíça e passar pela Costa Rica. Em Piraí do Norte, ele comprou uma área barata, degradada e com um nome pouco animador: Fazenda Fugidos da Terra Seca.
A propriedade havia sido desmatada, explorada com mandioca e criação de suínos e, depois, abandonada. O maior problema, era a água. Entretanto, documentos antigos revelaram outro nome para o local: Fazenda Olhos d’Água.
A partir daí, Ernst iniciou um trabalho de recomposição da vegetação e recuperação do solo com agricultura associada à floresta. O sistema, conhecido como agricultura sintrópica, passou a unir produção agrícola, árvores, matéria orgânica e cobertura permanente do solo.
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Fazenda seca virou floresta produtiva com nascentes e córregos recuperados na Bahia
Com o avanço da vegetação, a paisagem mudou profundamente. Árvores, plantas e cultivos passaram a ocupar áreas antes degradadas. Além disso, nascentes e córregos voltaram a aparecer dentro da propriedade.
Durante uma seca prolongada nos anos 1990, os córregos da fazenda permaneceram ativos na região, segundo o relato apresentado. Por isso, moradores passaram a associar a permanência da água ao trabalho feito por Ernst.
Na comunidade, ele ficou conhecido como o “gringo chama-chuva”. O apelido nasceu porque a floresta recomposta parecia ter atraído mais água para o ambiente.
Estudos citados explicam que as plantas ajudam a água a circular. Elas retiram umidade do solo, levam essa água até as folhas e transpiram. Assim, contribuem para a formação de nuvens e para o equilíbrio do ambiente.
Agricultura sintrópica recuperou solo degradado sem uso de produtos químicos
Em 1996, quando reportagens foram feitas na fazenda, a paisagem já havia mudado bastante. Ainda assim, havia áreas em processo de recuperação.
Na época, o trabalho incluía roçada do mato, incorporação da matéria orgânica ao solo e plantio de abacaxi em covas. Ao redor dele, eram colocadas sementes de árvores frutíferas, como cacau e jaca.
O abacaxi ajudava na recuperação do solo. Além disso, a estratégia dispensava correção com calcário e seguia uma regra central defendida por Ernst: nada de química.
Segundo o agricultor, experiências anteriores com adubo químico não deram certo. Por isso, a fazenda passou a seguir um caminho baseado na cobertura do solo, na diversidade de espécies e na força da própria floresta.
Cacau cultivado na agrofloresta passou a valer quatro vezes mais que o convencional
Ernst chegou a imaginar uma fábrica de chocolate, mas afirmou que nunca teve capital suficiente para concretizar o plano. Mesmo assim, conseguiu outro resultado importante: um cacau considerado de altíssima qualidade.
O produto ganhou valor por causa do cultivo sem produtos químicos e da fermentação especial. No relato da família, o cacau convencional era vendido por cerca de R$ 95 a R$ 105 a arroba.
Já o cacau produzido na fazenda alcançava R$ 30 o quilo, valor equivalente a aproximadamente R$ 450 a arroba. Portanto, o preço chegava a cerca de quatro vezes o valor convencional.
A produção, no entanto, seguia modesta. A safra mencionada era de 3.500 arrobas por ano, concentrada em apenas 5 hectares próximos à sede.
Filhos seguiram parte das ideias em produção de cacau, banana e barrinhas energéticas
A influência de Ernst também chegou à família. Filhos mais velhos passaram a tocar uma fazenda vizinha, com produção de cacau e banana sem agrotóxicos.
O sistema ainda era mais convencional, em área de cabruca, com árvores grandes e antigas sombreando o cacau. Mesmo assim, a intenção era avançar para algo mais parecido com o modelo desenvolvido pelo pai.
A principal fonte de renda vinha de barrinhas energéticas feitas com banana e cacau. O produto não tinha açúcar adicional, apenas o doce natural da banana.
A fabricação ainda era pequena, com cerca de 600 barrinhas por mês. Porém, a produção estava em expansão.
Quase 500 hectares foram deixados como floresta em uma espécie de dívida ecológica
Embora o cacau gerasse renda, Ernst não explorava intensamente toda a fazenda. Dos quase 500 hectares restantes, grande parte era mantida com floresta.
Para ele, diante da redução das florestas no país, aquela área precisava receber um “refresco”. A decisão também foi definida como uma forma de pagar uma dívida ecológica da humanidade.
Ernst passava pelo menos metade do tempo fora da propriedade. Nesse período, dava consultorias, ministrava cursos e espalhava as ideias da agricultura sintrópica.
Segundo a Agenda Götsch, a Fazenda Olhos d’Água recebe estudantes interessados em aprender os princípios do sistema. A EcoAgri também apresenta Ernst como referência no uso da técnica desde 1984, em Piraí do Norte.
A história da fazenda mostra como uma área degradada, antes marcada pela escassez de água, passou a reunir floresta, nascentes, cacau valorizado e produção agrícola. Mais do que uma mudança de paisagem, o caso se tornou exemplo de agricultura ligada à recuperação ambiental.

