Instalados no litoral do Paraná, blocos de concreto moldados para imitar habitats naturais ajudaram a afastar pesca de arrasto, formar recifes artificiais, proteger 15 mil hectares e favorecer biodiversidade marinha. Após 25 anos, expedição científica encontrou meros, cardumes, organismos incrustados e um fundo arenoso transformado em corredor ecológico submerso monitorado.
Os blocos de concreto instalados no litoral do Paraná há 25 anos deixaram de ser apenas estruturas artificiais no fundo do mar e passaram a funcionar como base para recifes, abrigo de espécies e barreira contra a pesca de arrasto. A iniciativa nasceu de estudos iniciados em 1997 e ganhou forma com estruturas lançadas ao mar a partir de 2001.
Segundo o Projeto Rebimar/Associação MarBrasil, em material institucional sobre os 25 anos da transformação submersa, sem data de publicação visível no texto enviado, uma expedição de mergulho científico revisitou a área para comparar o cenário atual com o ambiente degradado deixado pela pesca de arrasto industrial.
Blocos de concreto foram pensados para imitar habitats naturais

A proposta não era jogar qualquer material no mar. Os blocos de concreto foram desenhados para ampliar a superfície de incrustação, criar fendas e oferecer abrigo para organismos marinhos. Cada unidade tinha formato interno semelhante a um trevo, aumentando a complexidade do habitat artificial.
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A engenharia do recife foi decisiva para que o concreto virasse suporte de vida. O material recebeu pH corrigido para se aproximar da água do mar, favorecendo a colonização por microfilmes bacterianos, esponjas, ostras, corais e outras espécies associadas ao fundo marinho.
Litoral do Paraná tinha fundo arenoso e conflito pesqueiro
A escolha da área levou em conta características ambientais e sociais. O litoral paranaense tinha fundo predominantemente arenoso, poucas ilhas e pouco substrato rochoso, o que reduzia a presença de abrigos naturais para peixes, crustáceos e invertebrados.
Ao mesmo tempo, havia conflito entre pesca artesanal e pesca industrial. Segundo os pesquisadores, arrasteiros de outros estados passavam muito perto da costa. Os blocos de concreto ajudaram a criar uma barreira física contra a pesca de arrasto, reduzindo a pressão sobre o fundo marinho.
Projeto RAM deu origem ao Parque dos Meros
Depois dos estudos, validações científicas e licenças ambientais, cerca de duas mil estruturas de concreto e duas balsas graneleiras foram afundadas em 2001. Nascia o Projeto RAM, base da área que hoje é conhecida como Parque dos Meros, entre o Arquipélago dos Currais e as Ilhas Itacolomis.
O nome reflete um dos sinais mais visíveis da recuperação local. A região passou a registrar aglomerações de meros, peixe ameaçado que pode chegar a três metros e pesar até 400 quilos. A presença desses animais reforça a função dos blocos de concreto como abrigo em uma área antes pressionada pelo arrasto.
Rebimar ampliou a estrutura com mais 3.500 blocos

Em 2004, Ariel Scheffer e Frederico Brandini fundaram a Associação MarBrasil, garantindo continuidade ao trabalho iniciado no Paraná. Depois, entre 2010 e 2012, o Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha, o Rebimar, instalou mais 3.500 blocos de concreto.
Essa nova etapa contou com participação da comunidade local, especialmente pescadores artesanais, que ajudaram na escolha dos pontos de instalação por meio de consulta pública. Eles também receberam treinamento de GPS, fortalecendo a navegação segura e o ordenamento costeiro.
Corredor ecológico protege 15 mil hectares
O resultado foi a formação de um corredor ecológico marinho com 12 quilômetros de extensão e mais de 15 mil hectares protegidos contra atividades impactantes. A área ampliou habitats e favoreceu desde organismos bentônicos até grandes peixes e invertebrados.
Os blocos de concreto ajudaram a transformar um fundo arenoso degradado em uma paisagem submersa mais complexa. Segundo o projeto, a estrutura também protege larvas de peixes e espécies sem interesse comercial que antes eram capturadas e descartadas pelas grandes redes.
Concreto cinza virou superfície tomada por vida

Na expedição científica, pesquisadores relataram que as estruturas permanecem íntegras e colonizadas por comunidades bentônicas coloridas. O que antes era concreto cinza passou a reunir organismos incrustados, cardumes e espécies associadas a ambientes de recife.
Ariel Scheffer afirmou que os bentos consolidados, sua área de pesquisa, estavam “maravilhosos”, com diversas espécies incrustadas nas estruturas. A transformação mostra como o desenho correto dos blocos de concreto pode acelerar a formação de habitats em áreas com pouco substrato natural.
Projeto virou referência legal para recifes artificiais
O caso do Paraná também teve importância institucional. Segundo o Projeto Rebimar, essa foi a primeira iniciativa brasileira de recifes artificiais com licença do Ibama e do Ministério do Meio Ambiente, resultado de quatro anos de estudos e dois anos de monitoramento ambiental pós-instalação.
Esse ponto diferencia conservação planejada de descarte no oceano. Blocos de concreto só fazem sentido ambiental quando passam por análise técnica, escolha adequada do local, licenciamento, monitoramento e diálogo com comunidades pesqueiras, especialmente quando o objetivo é recuperar biodiversidade e ordenar o uso costeiro.
O que essa transformação submersa coloca em debate
Vinte e cinco anos depois, os blocos de concreto do litoral do Paraná mostram como uma intervenção planejada pode mudar a paisagem submarina. O concreto virou abrigo, os cardumes voltaram a circular, meros gigantes passaram a aparecer e uma área de 15 mil hectares ganhou função de corredor ecológico.
Você acredita que blocos de concreto planejados e licenciados podem ajudar a recuperar áreas degradadas do mar, ou esse tipo de projeto só deve avançar com monitoramento rigoroso e muitos anos de pesquisa? Deixe sua opinião nos comentários e participe da discussão.

