O trecho não é novidade: a mesma ferrovia levou gente nas chamadas litorinas de 1906 até 1991, antes de virar corredor só de grãos rumo ao porto. Agora os trilhos atravessam a região com mais de 1,6 milhão de habitantes, e a próxima parada da articulação é uma reunião com a ANTT marcada para 10 de junho.
Cinco cidades do Norte de Santa Catarina podem voltar a ser ligadas por um trem de passageiros depois de cerca de 35 anos. A possibilidade ganhou força com uma mobilização que reúne associações de municípios, a Câmara de Vereadores de Joinville e o Consórcio Intermunicipal de Mobilidade Urbana, o CIMU, em torno de um objetivo comum: reativar o transporte de pessoas na ferrovia EF-485 e, com isso, tirar parte dos carros das movimentadas rodovias BR-280 e BR-116.
O passo mais recente foi dado em Brasília, na quinta-feira, 21 de maio de 2026, quando representantes das associações estiveram na capital federal para pedir a inclusão do trecho da EF-485 nos estudos nacionais de viabilidade técnica, econômica e ambiental, conhecidos pela sigla EVTEA, voltados ao transporte ferroviário de passageiros. O pedido busca colocar Santa Catarina no mapa dos projetos ferroviários do país, hoje concentrados em outras regiões, e marca o avanço de uma articulação regional pela volta do trem.
Quais cidades seriam ligadas pelo trem de passageiros

A espinha dorsal do projeto é a EF-485, uma ferrovia de cerca de 170 quilômetros que liga o município de Mafra, no Planalto Norte, a São Francisco do Sul, no litoral. Ao longo do caminho, a linha passa por cidades estratégicas como Rio Negrinho, São Bento do Sul, Corupá, Jaraguá do Sul, Guaramirim, Joinville e Araquari, conectando o planalto à costa e atravessando alguns dos principais polos industriais e urbanos do estado.
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A região atendida pela ferrovia reúne mais de 1,6 milhão de habitantes e concentra parte importante da produção industrial catarinense. Para as entidades envolvidas, esse conjunto de fatores, população, indústria e ligação direta com o Porto de São Francisco do Sul, dá ao corredor um enorme potencial para o transporte de pessoas, hoje desperdiçado, já que os trilhos existem e seguem em uso, mas apenas para cargas.
Um trem que já existiu por 85 anos
Um ponto que merece destaque, e que muda bastante o enquadramento da história, é que esse não seria um trem inédito. A EF-485 já transportou passageiros de forma regular entre 1906 e 1991, ou seja, por cerca de 85 anos. Nos últimos tempos desse serviço, o trajeto era feito pelas chamadas litorinas, modelo de trem de passageiros muito usado na época, que ligava as cidades antes de o transporte ser desativado.
Portanto, mais do que criar algo do zero, a proposta atual é retomar um serviço que fez parte do cotidiano da região por mais de oito décadas e que foi interrompido há cerca de 35 anos. Esse histórico fortalece o argumento das associações, já que mostra que a ligação ferroviária de passageiros entre o planalto e o litoral catarinense é viável e já fez parte da vida de gerações de moradores do Norte de Santa Catarina.
Hoje os trilhos carregam grãos para o porto
Atualmente, a EF-485 não está abandonada, mas tem uma função bem diferente. Os trilhos são usados quase exclusivamente para o transporte de cargas, principalmente grãos com destino ao Porto de São Francisco do Sul, um dos mais importantes do Sul do país. A linha é hoje a única em operação da chamada Malha Sul em território catarinense, além de receber, em alguns trechos, passeios turísticos eventuais.
Essa convivência entre o uso atual de carga e a proposta de transporte de passageiros é um dos pontos que os estudos de viabilidade terão de equacionar. Afinal, será preciso avaliar como organizar os horários, a infraestrutura e a segurança para que os dois tipos de transporte possam coexistir na mesma ferrovia, sem prejudicar o escoamento da produção que já segue para o porto e que tem grande peso econômico na região.
O Contorno Ferroviário e o desafogo das rodovias
Há ainda um projeto físico em andamento na mesma EF-485 que conversa diretamente com a ideia do trem de passageiros: o Contorno Ferroviário de Joinville. Tocado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o DNIT, trata-se de um trecho de cerca de 17 quilômetros cujo objetivo é remover os trilhos da área central densamente urbanizada de Joinville, parte dele já licenciada ambientalmente desde 2019.
O grande argumento por trás de toda essa mobilização é a mobilidade. Segundo as entidades, a retomada do trem de passageiros pode reduzir a sobrecarga das rodovias BR-280 e BR-116, melhorar o deslocamento diário entre os municípios e oferecer uma alternativa de transporte mais sustentável. O vereador Henrique Deckmann, autor da moção aprovada em Joinville, destacou que o trem pode beneficiar quem se desloca todos os dias entre cidades como Araquari, Joinville, Jaraguá do Sul e São Francisco do Sul a trabalho ou para estudar.
Os próximos passos do projeto
A articulação já tem desdobramentos concretos no campo institucional. Na terça-feira, 19 de maio de 2026, a Câmara de Vereadores de Joinville aprovou a Moção nº 407/2026, apresentada pelo vereador Henrique Deckmann, do MDB, pedindo prioridade aos estudos para a implantação do transporte ferroviário de passageiros na região, com apoio do Ministério dos Transportes e da ANTT, a Agência Nacional de Transportes Terrestres.
O próximo passo importante está marcado: uma reunião entre as entidades e a ANTT acontecerá em 10 de junho. Durante a agenda em Brasília, os representantes dos municípios reforçaram a disposição de colaborar com a estruturação do projeto e de fornecer informações técnicas para viabilizar os estudos. Ainda assim, é importante lembrar que o projeto está em fase inicial, de estudos e articulação política, e que sua efetivação dependerá de viabilidade técnica, financeira e de decisões dos órgãos federais.
A possível volta do trem de passageiros ao Norte de Santa Catarina é uma daquelas pautas que unem nostalgia e futuro: resgata um serviço que marcou a região por 85 anos e, ao mesmo tempo, aponta para uma mobilidade mais moderna e sustentável, capaz de aliviar rodovias congestionadas. O caminho ainda é longo e cheio de etapas técnicas, mas a mobilização conjunta de associações, Câmara e consórcio mostra que o tema voltou com força à agenda da região.
E você, que vive ou conhece o Norte de Santa Catarina, usaria um trem de passageiros para se deslocar entre cidades como Joinville, Jaraguá do Sul, São Bento do Sul, Mafra e São Francisco do Sul? Acredita que o projeto sai do papel desta vez? Deixe seu comentário, conte como é o seu deslocamento hoje e compartilhe a matéria com quem também depende das rodovias BR-280 e BR-116 no dia a dia.

Importante objeto de estudo e com muita aceitação por parte da população. Tenho parente que trabalha em Joinville, necessitando deslocar-se diariamente. Muitos estudantes e poder ir a Joinville,São Francisco etc,traz boas lembranças da época dos trens.Vamos aguardar a viabilidade deste projeto maravilhoso.