A Petrobras nunca bombeou tanto petróleo: a produção própria bateu 3,23 milhões de barris de óleo equivalente por dia no primeiro trimestre e caminha para 3 milhões só de óleo. Ainda assim, a partir de julho a estatal voltou a comprar diesel lá fora, e o paradoxo tem uma explicação que mora dentro das refinarias.
O recorde de produção não é detalhe pequeno. A companhia elevou a extração em 16% na comparação com um ano antes, empurrada pela entrada de novas plataformas no pré-sal, como as FPSOs P-78 e P-79 no campo de Búzios. Só o pré-sal já responde por 2,66 milhões de barris equivalentes por dia. O país tem petróleo de sobra, tanto que o óleo virou um dos maiores itens da pauta de exportação brasileira.
Durante três meses seguidos, entre abril e junho, a companhia não precisou importar uma gota sequer de diesel. Rodou o parque de refino no talo para não depender do combustível estrangeiro justamente quando o petróleo internacional disparava com a tensão entre Irã e Estados Unidos. Em determinado momento, as refinarias chegaram a operar a 97,4% da capacidade, um nível que praticamente não deixa margem para respirar.
Só que máquina que trabalha no limite precisa parar em algum momento. As paradas de manutenção que haviam sido adiadas por causa da guerra voltaram ao calendário, e refinaria em manutenção significa menos diesel saindo dos tanques. Foi esse o gatilho que obrigou a Petrobras a reabrir a torneira das importações em julho, segundo confirmou a presidente da estatal.
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Por que sobra petróleo e falta diesel
Aqui está o nó que confunde muita gente. O Brasil produz petróleo de sobra, mas importa cerca de 30% do diesel que consome. Como isso é possível num país que já figura entre os maiores exportadores de óleo do planeta? A resposta está no tipo de petróleo e no desenho das refinarias.
O óleo do pré-sal é médio-leve, de baixo teor de enxofre, um petróleo “doce”, muito valorizado no mercado internacional. O problema é que as refinarias brasileiras foram projetadas décadas atrás para processar óleo mais pesado. Ao passar o cru leve do pré-sal pelas unidades existentes, rende-se proporcionalmente menos diesel por barril. Na prática, o Brasil exporta o petróleo de alto valor e importa o derivado que não consegue fabricar em volume suficiente.
Some a isso um parque de refino que não cresceu no ritmo da demanda. Entre 2015 e 2022, a Petrobras vendeu refinarias inteiras e projetos como o da RNEST, em Pernambuco, ficaram anos parados. Há ainda um componente sazonal cruel: quando a colheita aperta e o agronegócio puxa o consumo de diesel para escoar a safra, a demanda salta num intervalo curto. Nesses picos, a conta simplesmente não fecha sem a importação. Confesso que é o tipo de contradição que parece defeito de projeto, e, de certa forma, é.
A conta que a Petrobras promete virar até o fim da década
A estatal não esconde que quer atacar exatamente esse ponto. A meta declarada é reduzir a dependência de importação de diesel dos atuais 29% para 15% e, num segundo estágio, alcançar a autossuficiência. “Já estamos estudando como vamos fazer nesse quinquênio, para sermos autossuficientes em diesel”, afirmou a presidente Magda Chambriard, ao comentar a volta pontual às compras externas.

Para chegar lá, a companhia anunciou R$ 37 bilhões em investimentos em São Paulo até 2030, dos quais R$ 17 bilhões vão para o refino, incluindo R$ 6 bilhões só para a Replan, em Paulínia, a maior refinaria do país. A Petrobras já elevou em 10% a produção nacional de diesel S-10, o mais limpo, e a RNEST hoje opera acima do previsto, com 300 mil barris diários contra os 230 mil planejados. O plano de negócios mira 200 mil barris por dia a mais de capacidade de refino até 2029.
Há ainda a aposta na descarbonização, com uma unidade de combustível sustentável de aviação a partir do etanol e de diesel renovável prevista para a refinaria de Cubatão. A fala oficial é de disciplina: “Estamos pisando no acelerador, mas com olho nos custos, porque não pode ser de outra maneira”, resumiu Chambriard. O investimento total da companhia no primeiro trimestre já cresceu mais de 25% na comparação anual, sinal de que o discurso vem acompanhado de caixa.
O descompasso fica evidente na conta de capacidade. O parque de refino da Petrobras processa cerca de 1,8 milhão de barris por dia, enquanto a produção nacional de petróleo já supera os 3,6 milhões. Sobra cru para exportar e falta unidade para transformar esse óleo em diesel e gasolina dentro de casa. Cada litro importado, no fim, é dólar que sai e margem que fica no exterior, um peso que reaparece lá na ponta, no preço que o caminhoneiro enfrenta na bomba e que se espalha por toda a cadeia de transporte do país.
A gente acompanha esse vaivém há tempo o bastante para saber que autossuficiência em diesel é promessa recorrente na história da Petrobras. A diferença, desta vez, é que os recordes de produção dão fôlego de caixa para bancar a ampliação do refino, o elo mais fraco de toda a cadeia. Enquanto essa engrenagem não gira, o Brasil segue na estranha posição de vender petróleo para o mundo e comprar de volta o combustível que move seus caminhões. Vale a pena acompanhar de perto se, desta vez, a promessa vira obra.
Você acha que o Brasil vai mesmo conseguir parar de importar diesel até o fim da década?
