O Burj Khalifa, com 828 metros de altura e 163 andares, exigiu soluções de engenharia que desafiaram a física para funcionar como uma cidade vertical no meio do deserto de Dubai. O concreto foi misturado com gelo e despejado exclusivamente durante a noite para evitar que o calor de 50°C o endurecesse dentro dos canos antes de chegar ao topo. A torre consome 946 mil litros de água por dia bombeados por sete zonas independentes, produz toneladas de gelo toda noite para se resfriar durante o dia e transporta 35 mil pessoas com 57 elevadores organizados como uma rede rodoviária vertical.
O Burj Khalifa não deveria funcionar. Tudo o que sabemos sobre construir cidades pressupõe que o terreno é plano: tubulações de água, esgoto, eletricidade e ar-condicionado foram projetados para operar na horizontal. Quando engenheiros tentaram forçar esses sistemas a funcionar na vertical ao longo de 828 metros, cada regra da engenharia urbana se inverteu. A água não quer subir. Se você forçar demais, os canos estouram. O calor de Dubai transforma painéis de vidro em estufa. E o concreto, material que deveria ser a espinha dorsal da estrutura, virava pedra dentro dos canos antes de chegar ao destino.
A solução para cada problema gerou um novo problema, e a solução desse novo problema gerou outro. É essa cascata de engenhosidade que torna o Burj Khalifa não apenas o edifício mais alto do mundo, mas uma das obras mais complexas já executadas pela humanidade. O concreto foi misturado com gelo e despejado apenas durante madrugadas no deserto para que não endurecesse antes de chegar às alturas necessárias. A água sobe em etapas por sete zonas mecânicas para que a pressão não destrua a tubulação. E o ar-condicionado funciona derretendo 13 mil toneladas de gelo produzidas toda noite.
Como a água sobe 828 metros sem estourar os canos

Para efeito de comparação, a pressão na torneira de uma casa é de aproximadamente 50 PSI. A 1.200 PSI, as juntas dos canos não vazariam, elas explodiriam, criando gêiseres pelos corredores e inundando apartamentos inteiros.
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A solução foi dividir o Burj Khalifa em sete zonas mecânicas, cada uma com aproximadamente 30 andares. A água começa no porão, é bombeada até um tanque no 40º andar, de onde uma segunda bomba a empurra até o tanque seguinte, e assim por diante até o topo. Cada bomba luta contra a gravidade por apenas 30 andares, mantendo a pressão em níveis seguros. Se um cano estoura no 80º andar, as zonas acima e abaixo continuam operando normalmente.
O concreto que precisou de gelo para não morrer no caminho

Quando o concreto endurece rápido demais por causa da temperatura, algumas áreas fixam antes das outras, criando rachaduras e pontos fracos. O risco no Burj Khalifa era ainda pior: o concreto poderia endurecer dentro dos canos de bombeamento antes de chegar ao andar de destino, entupindo toda a tubulação a centenas de metros de altura.
Os engenheiros desenvolveram uma fórmula personalizada de concreto de alto desempenho, graus C50 e C80, e misturaram cada carga com grandes quantidades de gelo. A mistura era resfriada a temperaturas próximas de zero antes de entrar nos canos. Mesmo assim, o gelo sozinho não bastava: todas as concretagens no Burj Khalifa foram realizadas durante a noite, quando a temperatura do deserto caía para algo entre 29°C e 35°C. Comparado ao forno diurno de 50°C, o ar noturno era o aliado que mantinha o concreto fluido o suficiente para chegar ao topo.
Os 26 mil painéis de vidro que bloqueiam o calor antes que ele entre
O Burj Khalifa é revestido por mais de 26 mil painéis de vidro especializados que cobrem 139 mil metros quadrados de superfície. Cada painel recebeu um revestimento refletor de alto desempenho projetado para devolver a radiação solar de volta ao céu, reduzindo drasticamente o ganho de calor antes que os sistemas de ar-condicionado precisem entrar em ação.
Mas o vidro refletor sozinho não resolve o problema em um dia de 50°C no deserto. A segunda linha de defesa é um sistema de produção de gelo noturno. Durante a madrugada, quando a eletricidade é mais barata e a demanda da cidade é baixa, uma central de refrigeração no porão do Burj Khalifa produz toneladas de lama de gelo. Durante o dia, quando o sol atinge os painéis, o gelo derrete e a água gelada circula por tubulações de 76 centímetros de diâmetro até os trocadores de calor em cada andar. Nos horários de pico, o sistema equivale a derreter 13 mil toneladas de gelo em um único dia.
O sistema de elevadores que funciona como uma rodovia
Com 35 mil pessoas circulando diariamente, o Burj Khalifa não poderia usar elevadores convencionais que param em todos os andares. Os engenheiros se inspiraram no modelo rodoviário: elevadores expressos funcionam como rodovias interestaduais, levando passageiros sem paradas até lobbies intermediários nos andares 43, 76 e 123. A partir desses pontos, elevadores locais completam o trajeto até o andar de destino.
O sistema conta com 57 elevadores e oito escadas rolantes. Um passageiro que precisa chegar ao 55º andar embarca em um elevador expresso até o lobby do 43º andar, desce e pega um elevador local que sobe mais 12 andares. O trajeto completo leva menos de dois minutos. Sem esse modelo, os elevadores ficariam lotados a partir do 40º andar e o tempo de espera no térreo seria de horas nos horários de pico.
A pergunta que o Burj Khalifa deixou sem resposta
O Burj Khalifa provou que é possível construir uma cidade vertical de 828 metros no deserto de Dubai, mas cada solução criou uma cadeia de complexidade que seria impensável em um edifício convencional. A Torre Jeddah, na Arábia Saudita, planeja ultrapassar 975 metros. A Mukaab Tower projeta 6.500 pés. Cada nova torre terá que resolver os mesmos problemas em altitudes maiores, com riscos maiores e custos maiores. A questão que resta não é se a humanidade consegue construir mais alto que os 828 metros do Burj Khalifa em Dubai, mas o quão arduamente estamos dispostos a lutar para fazer um copo de água chegar ao 300º andar.
O que mais impressiona no Burj Khalifa: o concreto com gelo despejado de madrugada, os 946 mil litros de água bombeados por dia ou as 13 mil toneladas de gelo derretidas para resfriar o prédio? Conta nos comentários.


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